sábado, 23 de setembro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Bonequinhas

Aparecido Raimundo de Souza

“As crianças crescem tanto, e continuam tão jardim, mas tão jardim na tarde rubra”.
Carlos Drummond de Andrade

MINHA FILHA AMANDA observou, no supermercado, um garotinho dentro de um carrinho abarrotado de compras e indagou muito séria e perplexa:
- Pai, aqui tem criança pra vender?
Sorrio de uma ponta a outra da orelha a essa observação enxerida, ao tempo que tentava explicar que aquele guri não se constituía em objeto de comercialização.

- Os pais o colocaram naquele lugar – Argumentei à guisa de explicação – para que se distraia com o volante daquele fusquinha adaptado, enquanto seus pais percorrem os imensos corredores em busca das prateleiras com mais calma e atenção, à cata dos alimentícios que se acham em promoção.  Puxado pela mão, igual eu faço agora, com a senhorita. A nossa caminhada se torna excessivamente lenta. Em contrapartida, cai por terra o medo mórbido e constante de perder seu sorriso bonito e contagiante entre essa galera em polvorosa.

Amanda, por natureza, sempre se mostrou irrequieta demais e sapeca. Em vista disso, se não tivesse colado nela, se soltasse a bichinha no meio de centenas de cabeças indo e vindo, sem contar as pirâmides intermináveis de aparelhos eletrodomésticos, me veria em palpos de aranha. Meu receio maior, sinceramente, a de que a danadinha escapasse da minha linha de ótica. Aconteceu isso uma vez, num parque de diversões, e eu me vi literalmente débil e em sobressalto.

- Pai, você está mentindo. Aquele piá dormia na prateleira onde vende um montão de brinquedos pra gente do meu tamanho. O homem feio “pegou ele” pelo braço e botou no carrinho. Agora o coitadinho não vai mais poder ver a mãezinha dele quando tiver com medo do bicho papão...
Minha eterna Polly Pocket permaneceu alguns minutos em silêncio, séria, pensativa, circunspecta. Nessas horas, como válvula de escape, metia o dedinho polegar esquerdo na boca e chupava:
- Pai, vamos até ali achar uma menininha igual a mim?
E para que você quer uma menininha igual a você?
- Para brincar comigo. Vamos fazer de conta que somos marido e mulher. Então...

Sorrio, de novo, a bandeiras despregadas com essa nova observação bucólica e docemente écloga e pastoril.
- Espere um bocadinho. Para brincar com você, tudo bem, mas de marido e mulher, não dá.
- Por quê?
- Para brincar de marido e mulher eu teria que arranjar um pequerrucho igual ao que vimos a pouco naquele carrinho. A partir desse ponto sim, você seria a mãe e ele, por exemplo, o pai.
- E o neném?
- Neném?  Que neném?
- Ué, todo marido e mulher não ganha um neném que vem lá do céu? Você não casou com a minha mãe e me ganhou da cegonha que me trouxe num bico desse tamanho? E depois a Lulu?

Um casal de idosos que cruzava para o setor de limpeza, ouvindo a conversa, por instantes, deteve os passos:
- Inteligente, a mocinha!...
Virando-se para Amanda, a setentona ofereceu a ela um pacotinho com um monte de pirulitos e balas sortidas.
- O que falamos quando alguém nos dá alguma coisa?
- Deus lhe pague?
- Não.
- Muito obrigada?
- Sim senhora.

Os velhinhos retornaram à caminhada. Antes de evaporarem de vez, a filantrópica senhora se voltou e acenou com um beijo.
Com a boquinha suja do doce que ganhara, minha rainha seguia atenta. Queria saber o que era isso, para que servia aquilo. Mexia aqui, desarrumava as caixinhas das pastas de dentes; pedia um sabonete para a mãe, e uma melancia para a irmã Luana, que não viera porque preferiu ficar dormindo.

Amanda adorou de babar aquela maquininha de conferência de preços. O bip a divertiu, sobremaneira. Perdi a conta das vezes em que a ergui no colo, com um objeto entre as mãos em concha para que encostasse o código de barras e o valor aparecesse no visor.
- Cinquenta mil, papai. Cinquenta mil. Nós vamos levar?
- Se você quiser...
- Eu quero.

Eis que, acidentalmente, em meio ao afluxo interminável de encontros e empurrões, choques de carrinhos e pedidos de desculpas, diante de nós, surgiu como um desvario delirante, o impecável e chamativo espaço destinado aos infantes. De todos os lados bonecas as mais diversas, de rostinhos belos e perfeitos, rechonchudos e alegres – a preços, contudo, de deixarem qualquer pai por mais coruja que seja com os bolsos - e não só eles, os nervos à flor do desespero. Amanda se viu transportada imediatamente para um mundo de consumação alucinante, apesar da sua pouca idade. Berrava, a plenos pulmões:
- Pai, eu quero aquela...

A minha Barbie apontava o indicador em riste para uma caixinha colorida envolta em plástico, não muito maior que uma garrafa de refrigerante desses de um litro e meio.
- Você compra?  É a Susi!  Não é linda, papai, não é linda? É a Susi!
Você não queria as sandalinhas da Xuxa?
- Não, papai, “essa” eu ganho depois, da Tia Milinha. Agora você compra a Susi. Você compra?

Ao meu olhar de poucos amigos, a minha cinderela, de repente, emburrou e amuou. Tanto choramingou e esperneou que acabei cedendo, submisso, aos desejos e mandando a vendedora embrulhar a tal da Susi. Fazia tempo que não vivia um minuto tão comprido. Sem contar que a Susi, valha-me Deus, nossa senhora, somava uma grana violenta.

Sabia perfeitamente que essa extravagância forçada pesaria deveras, no orçamento. Tinha que concordar, entretanto, quase que de pronto, em minha estupefata impotência, com aquele sujeito que, numa dessas manhãs de domingo, num programa de televisão, falara uma coisa simples, mas de significação profunda: “mais vale gastarmos alguns trocados com o encantamento dos nossos filhos, ainda que à duras penas, do que jogarmos, pelo ralo, uma grana considerável em remédios, depois de termos enfrentado a dor melancólica de um corredor sombrio de hospital”.

No pátio do estacionamento uma lembrança me veio acudir à memória com a rapidez de um relâmpago eixado a forte temporal. Essa lembrança chegou tão inaudita e desmesurada, como uma grade de ferro se projetando, para frente, diretamente sobre minha cabeça. Fechei os olhos e me farejei parado, como um dois de paus, entre o carrinho de compras e o porta malas do automóvel:
- Espera aí. Se eu lhe dei a Susi, temos que pensar no que levaremos para a Luaninha...
- Acho que ela quer a bonequinha da Carla Perez gritou - Amanda num arroubo imediato e sem qualquer preliminar.
- De quem?
- Da Carla Perez!
- Quem é essa pessoa, gatinha? – indaguei pressuroso e totalmente alheio a minha santa ignorância – Alguma coleguinha de escola?!
- Não papai. - completou a linda, as pupilas brilhantes de uma cintilação incomum. - Carla Perez é aquela moça do “Ticham”.

***

Voltamos sem perda de tempo e sem mais delongas nos calcanhares e compramos a esfuziante Carla Perez.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza. De Brasília, Distrito Federal. 22-9-2017

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