sábado, 16 de setembro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Quimeras brilhosas em olhos discretos

Aparecido Raimundo de Souza

“Que saudades da professorinha, que me ensinou o bê-á-bá”.      
Ataulfo Alves, cantor e compositor.

NÃO ERA O SORRISO DELA, meio felino, os dentes perfeitos à mostra, as faces coradas, os olhos brilhantes, que o entusiasmava, que o acalorava que o embalava que o tirava literalmente do chão. Nem as letras de sua mão direita desenhando frases no correr do giz branco sobre o escuro da lousa negra da enorme sala de aula. Não eram os colegas que ocupavam as carteiras ao seu derredor, os piercings grudados nos ouvidos e narizes, as tatuagens inescrupulosas, nem as moças de tranças coloridas, suas saias curtas e justas mostrando, além dos joelhos, formas pecaminosas com calcinhas fantásticas recheadas com desenhos de borboletas e frases de duplos sentidos.

Nem mesmo a paisagem aprazível e airosa, que entrava abundante, espessa, e opulenta, com o sol gostoso e desenhava silhuetas engraçadas nas paredes imundas, junto com o vento calmo da manhã tranquila tirava a sua concentração. Não era o metro e sessenta e três de altura que o encantava nela, nem os cabelos lisos e longos, descendo em forma de cascata, pejados de fios loiros e brilhantes até a exuberância da cintura fina e bem proporcionada.

Tampouco o jeito simples e bucólico de mocinha do interior, ou os gestos delicados com que se dirigia a quem dela se aproximasse. Não era, igualmente, a maneira sutil de como carregava a bolsa, o apagador, a caixinha de giz, as provas que aplicava todas as sextas-feiras e os diários de classe.

Não era a mesura angelical, nem os lábios carnudos, ou a boquinha perfeita, pronta para ser beijada. Não era, consequentemente, o vigiar aos alunos, pautado, numa imagem fidalga, nem a sequência de pequenos gestos (nessa hora acelerados) que mexia com seu coração de homem solitário. Não era a fluidez magnética que explodia de dentro de sua alma, nem o beliscar das horas que parecia fazer a saliência do seu andar, ou a sedução intermitente do seu compasso moderado e espaçado no ir e vir da pausa para o café (até onde instantes depois, ministraria outras aulas de português no decorrer do restante do dia) que realmente o deixava nervoso, aguerrido, insolente, fora de si, à mente turbilhonada, contente e feliz como um camundongo em cima de um queijo imenso.

Se não a soma de tudo isso, o que fazia, então, aquele aluno idiota se sentir fraco, confuso e indeciso, capengar das próprias pernas, como se tivesse medo de se mostrar por inteiro? O que fazia seus pensamentos se amontoarem, ou se entrelaçarem como um emaranhado de fios e linhas? Seria a poesia viva e sem contornos que emanava dela? Ou, lado outro, o amor que vinha de dentro de seu âmago que o enfraquecia, petrificava, seus movimentos e o amarrava estarrecido e apatetado, como um menino bobo diante de um brinquedo cobiçado visto numa vitrine? Talvez, quem sabe, um objeto raro, valoroso, que não poderia ser tocado, porque estava fora do alcance de seus desejos de criança?

O que o deixava enlouquecido, doido, quase varrido, a ponto de chegar mais cedo todos os dias e deixar, sem que ninguém visse, uma rosa vermelha (que roubava do jardim de um vizinho perto de onde morava), ou se levantar durante a aula e, discretamente, jogar na mesa, escondido, em meio às coisas dela, um bilhetinho escrito “Te amo” formas sem pé nem cabeça de demonstrar o tamanho da paixão que nutria por aquela deusa intocável? Por Jesus, de onde vinha aquele amor arrebatante, calcinado, abrasado, que inundava toda a sua alma e fazia a esperança virar festa com música alta tocando sem parar? O que o fazia tentar engolir uma dor forte e convulsa que persistia em subir pela garganta?

Depois que ela chegava a sua alma se abria em esperanças. Como se fosse feito de matéria plástica, todo seu eu se derretia. A presença dela, ali na escola (não só ali, em qualquer lugar que a visse fosse no aconchego de sua casa, na rua, na praça, na missa de domingo, no shopping, no salão do cabelereiro cuidando das unhas, fazendo compras no supermercado, sempre sozinha, desacompanhada, sem ninguém para dividir a sua solidão), se assemelhava as labaredas de um fogaréu que queimava.

A brasa que fundia os corpos, o universo proibido que ele tanto almejava o momento inventado e esperado, a graça completa, o espectro dos prazeres se insinuando em vendavais de idílios, como se esperasse o instante mágico e perfeito, para ser engolido, sugado, mastigado por sua boca de dentes famintos. Sua concentração nela se fazia intensa, acirrada, fora de tom. Percebia qualquer mudança de humor, conhecia cada músculo, saberia dizer quando estava alegre ou infeliz. Nela havia às vezes, uma impressão de premência na maneira como trabalhava, como se portava, como se dirigia às pessoas. Ela cultivava, talvez sem saber, no quase terminar de uma aula e outra, uma pressa de tudo ansiosa, de excitamento reprimido. 

Na pausa do horário previsto na carga escolar, no bater do sino, o término do sonho, seguido da espera degradante, desfocada e infeliz até o dia seguinte para tornar a vê-la, inteira, sentir seu cheiro, usufruir do seu perfume, perscrutar seus medos e incômodos. Sentir, de novo, seu corpo, tocar suas partes mais íntimas com os afogueios de um adulto indulgente, comer suas entranhas com o silêncio dos apaixonados, ouvir o coração aflito, em pânico, pedindo socorro, ajuda e atenção... sobretudo a-t-e-n-ç-ã-o.

Todavia, ele era um simples aluno. Um João Ninguém. Como os demais que compunham as quarenta cabeças daquela turma. Não podia ultrapassar as interrogações que turbilhavam, nem jogar a carroça diante dos burros. Talvez, no estágio seguinte – quem sabe um dia, ela o notasse, ali, quieto, parado, estatelado, olhando, crescendo - morrendo de amor, de paixão, de angústia, filmando tudo ao redor num curta metragem animado. Quem sabe, depois de algum tempo, o seu todo criasse asas e subisse.

Não só subisse. Voasse bem alto, ganhasse o espaço como um balão de gás repleto de fantasias e caprichos ficcionais em direção à imensidão cálida de um céu sem fim. Se ao menos pudesse partir para longe, deixar de viver, de existir, de dar murros em pontas de facas afiadas, de venerar aquela beldade, gritaria, ou melhor, recitaria para a sua professorinha intocável e inimitável, versinhos de Bocage: “saiba morrer o que viver não soube”. E se sentiria, enfim, sabendo findar naquilo que não conseguiu levar adiante, realizado, como o poeta do arcadismo lusitano, pleno, exaltado, “A Elegia”, e “A Virtude Laureada”, senhor de si e mais que qualquer outra coisa: dono absoluto da situação.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza. De Brasília, Distrito Federal, 15-9-2017

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