sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

[Flagrantes do quotidiano] Os fura-filas

Ângela Marques

Quando eu a vi, de carrinho cheio e cheia de pressas, abrandei o passo: não tinha urgência em pagar as toalhitas de marca branca que levava nas mãos e tive o pressentimento de que estava perante um cinturão negro das filas de hipermercado. Em dois minutos, o cesto dela confirmou o meu sexto-sentido – lançado por cima da minha cabeça para cima do tapete rolante, ele era o rei daquela selva.

Só que é Natal e no Natal a lei da selva não ganha nem à lei da bala. “Podem passar a esta caixa, por favor, pela mesma ordem”, ouvi. Ouvi eu, ouviu ela, ouvimos todos, só Deus não ouviu ou teria impedido aquilo que aconteceu a seguir. Ao sinal de nova caixa aberta, caíram chuvas e trovões: eu encolhi-me, ela girou como o diabo da Tasmânia versão Looney Tunes, eles correram como se isso lhes devolvesse a alegria e os duodécimos, tudo de uma vez e com juros. Tive a certeza: o mundo ia acabar comigo a tentar comprar toalhitas – e por esta é que eu não esperava.

A recompor-me da passagem do tornado Taz, vi-a avançar para a outra caixa, para logo recuar, deslocada, incrédula e revoltada – sobretudo revoltada. Fisgando um grupo que já espalhava as suas compras pelo tapete vazio, ela não falou, expeliu o que sentia: “Que falta de civismo. Que falta de civismo. Que falta de... civismo!”

Voltando à fila de partida, tirou-me do jogo com uma carga de ombro e continuou, já para a bancada: “Que falta de civismo. Só neste país.”

Tive vontade de a abraçar. Tive vontade de a acalmar e de lhe dizer que, não, o que faz falta a este país não é um novo Salazar. Tive vontade de abraçar porque a luta que ela ali tinha travado é de todos. É que, sim, os fura-filas andam aí – ela, por exemplo, tinha acabado de se transformar numa.
Título e Texto: Ângela Marques, Revista Sábado, nº 711, de 14 a 20 de dezembro de 2017

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Um comentário:

  1. Baseado neste rico relato, vou editar (assim que Jim tiver um tempo) um conto ("A filha na fila") que criei antes de 2000 (quando ainda havia uma réstia de civismo).

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