quarta-feira, 29 de junho de 2011

Laranja madura na beira da estrada...

... tá bichada, Zé,
ou tem marimbondo no pé!

Que saudades do grande Ataulfo Alves! Sou da geração que, graças a Deus, viveu momentos belíssimos da música brasileira de verdade. Período de letras inteligentes, limpas, sábias, solidárias. Sustentando melodias realmente musicais. Período ainda livre das escravaturas eletrônicas, dos metais tonitruantes e dos alto-falantes poderosíssimos... Além disso, eram todas em português. Lembro-me bem de quando ele apresentou esse samba, numa roda entre amigos, tocando ele mesmo o seu violão.

Foi esse samba que me veio à memória quando li a mensagem que a presidente da República, Dilma Rousseff, enviou ao professor Fernando Henrique Cardoso, que está sendo muito festejado pelos seus provectos 80 anos de idade.

Embora tenha vindo para o Rio de Janeiro muito criancinha, gosto de pensar que nasci em Belém. Uma linda cidade onde, até hoje, a língua portuguesa é muito bem cuidada e respeitada. Os paraenses falam bem, escrevem certo e conservam muitas peculiaridades... Uma delas, que sempre achei divertida, é o uso maroto do termo "disque" (diz que...).

Todo paraense, mesmo os transplantados, como eu, tem o hábito de usar essa espécie de ressalva antes de narrar fatos ou dar informações que possam ser dignas de certa desconfiança. Normalmente dizemos assim: "Disque" Fulano deixou a Beltrana por conta da Sicrana... Ou então: "Disque" o prefeito vai pagar os precatórios. Ou ainda pior: "Disque" a situação financeira do País vai melhorar...".

O mais famoso de todos os "disques" ocorreu quando, numa entrevista em Paris, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não sabia de nada sobre o mensalão. Nem ele nem o José Dirceu, nem a Dilma Rousseff, nem o Gilberto Carvalho, enfim, ninguém sabia de nada. Na língua de Belém, a notícia correu assim: "Disque" Lula e o pessoal dele não sabiam de nada! Os deputados que recebiam a boladinha todo mês "disque" achavam que o dinheiro vinha do céu!

No episódio dos aloprados, outra vez a mesma coisa: "Disque" Lula e o pessoal dele não sabiam de nada. Em seguida, no primeiro escândalo das chamadas consultorias petistas, os que frequentavam aquela casa chique e lucrativa em Brasília não sabiam de coisa alguma. Só o caseiro Francenildo.

Este, quando perguntado, não usou o "disque". Foi direto e simples ao dizer: o Palocci também vem aqui. Afirmou e confirmou.

Contra ele, outro "disque": "Disque" que o dinheiro na conta do caseiro foi para ele fazer a denúncia! Ficou provado que não era. Então, quem mandou violar o sigilo da conta do rapaz? "Disque" que foi o diretor da Caixa Econômica Federal... Cabeças caíram. Depois apuraram que foi o próprio então ministro da Fazenda, Antônio Palocci.

Agora, temos outros "disques"na praça... "Disque" que o Palocci ficou muito rico de repente. "Disque" que comprou por R$ 6 milhões um apartamentaço em São Paulo. E mais um baita escritório, lá também. Diante disso, caiu o Palocci, como caiu o Dirceu e como caiu a Erenice Guerra. E a presidente? Sabia de alguma coisa. "Disque" não! No melhor estilo Lula...

Durante os oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso e os oito anos de Lula, os petistas e seus compadres populistas desferiram, o tempo todo, flechas, dardos, balas e obuses contra o plano da recuperação econômica do Brasil. Projeto iniciado no governo de Itamar Franco e levado a extraordinário êxito pelo governo FHC, pela equipe que é, hoje em dia, mundialmente aplaudida e até imitada. Lula não teve coragem de alterar o sucesso, mas tentou roubá-lo. Falou o tempo todo em herança maldita!

O alvo preferido era sempre FHC. Como eram também os tucanos. Era o DEM. Era a "zelite" alfabetizada e com diploma. Eram os loiros de olhos azuis... Eram os produtores rurais bem-sucedidos.

Infelizmente, na área política, o sucesso tucano não se repetiu. E graças aos seus próprios erros o País caiu nas garras do populismo sindical.

Mesmo mantendo espertamente os benefícios do Plano Real e da Lei de Responsabilidade Fiscal, nunca o País caiu nas mãos de um grupo de dirigentes tão incompetentes, tão despreparados e tão gananciosos.

Os índices brasileiros em educação, saúde pública, condições sanitárias, criatividade tecnológica, produção científica e segurança pública nunca estiveram tão baixos. Em todos os setores, os sintomas de perda de velocidade já estão sendo percebidos.

Então, por que as pesquisas de opinião ainda revelam que o povo acredita neles? É o resultado do uso e abuso, intenso, desleal e cruel, de todos os modernos recursos de comunicação. Os gastos com a propaganda foram simplesmente inacreditáveis!

Dizia Abraham Lincoln que é possível iludir a todos por algum tempo, iludir pouca gente o tempo todo, mas é impossível iludir toda gente por todo o tempo.

Esses limites estão chegando. A "herança maldita" do Plano Real, assim como foi definida por Lula, Dirceu, Dilma e seu séquito, passou a ser considerada um maravilhoso presente para o País. E quem não tentou golpes de mão para impedir a posse de seu sucessor passou a ter diploma de estadista.

É isso o que aparece agora, na afetuosa e novelesca carta de parabéns que a presidente da República enviou a Fernando Henrique Cardoso.

Lá, em Belém, o pessoal deu risada quando contaram que "disque" a presidente chamou FHC de querido. Será?

Laranja madura
na beira da estrada
tá bichada, Zé,
ou tem maribondo no pé!
Sandra Cavalcanti, professora, jornalista, foi deputada federal constituinte, fundou e presidiu o BNH no governo de Castelo Branco
Estado de S. Paulo, 25-06-2011

Laranja Madura
Composição: Ataulfo Alves

Voce diz que me da casa e comida
Boa vida e dinheiro prá gastar
O que é que há, minha gente o que é que há
Tanta bondade que me faz desconfiar
Laranja madura na beira da estrada
Tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé

Santo que vê muita esmola na sua sacola
Desconfia e não faz milagres não
Gosto de Maria Rosa mas quem me dá prosa é Rosa Maria
Vejam só que confusão

Laranja madura na beira da estrada
Tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé

Casuarina - Laranja madura

Colaboração: Peter Wilm Rosenfeld
Edição: JP

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