sábado, 29 de junho de 2013

Uma pergunta inquietante sobre os protestos brasileiros

Muitos cidadãos que poderiam participar das manifestações de protesto preferem segui-las de casa pela TV com medo da violência de pequenos grupos que agem livremente.
Juan Arias

Circula pelas redes sociais e pela imprensa uma pergunta inquietante sobre as manifestações de protestos populares presentes em todo o Brasil: Por que a polícia deixa, permite, ou se omite em impedir, que um grupo relativamente reduzido de vândalos atue sem deter, prender, ou imobilizar seus ativistas? Outra pergunta que é decorrente dessa é: a quem interessa neste momento que as marchas e manifestações de protestos pacíficas em 99% fiquem empanadas por um grupo pequeno de ativistas que aparece sempre de forma pontual para arrasar tudo o que encontra pela frente, criando irritação e medo na população?

A maioria dos “pardais” eletrônicos da Avenida Presidente Vargas, no Rio, foi depredada durante o protesto da última quinta-feira (20)

Muitos cidadaos até sairiam felizes para participar das marchas de protesto que já conseguiram algumas grandes vitórias políticas e sociais, mas preferem acompanhá-las de casa pela TV por temor de se verem envolvidos em um desses quebra-quebras violentos. Não existe uma explicação para o fato que ocorreu, por exemplo, nesta quarta-feira última em Belo Horizonte, onde 5.500 policiais militares e 1.500 soldados do exército se mostraram incapazes de impedir que um grupo de cem vândalos, mais ou menos, destruísse e incendiasse uma agência concessionária de automóveis, saqueasse casas e queimasse móveis em plena rua.

ONTEM, EM BH, HOUVE A PRIMEIRA MORTE DESSAS MANIFESTAÇÕES

A esse fato há que se acrescentar que a polícia, desde a primeira grande manifestação de São Paulo, que resultou numa batalla campal, foi tremendamente violenta com os manifestantes, só porque eles quiseram seguir com sua marcha de protesto por um lugar diferente da cidade.
Nesta quarta-feira, Belo Horizonte teve a primeira vítima fatal das manifestações. E a pessoa que morreu era pacífica que fugia dos ataques da polícia. Entrementes, o grupo de vândalos agia a seu gosto, observado de cima por um helicóptero da polícia, sem que, contudo, ninguém sequer chegasse perto dele.
Essa atitude incompreensível das forças policiais, que os inúmeros comentaristas de rádios e de TV expressam incrédulos a cada vez, se repete invariavelmente em todas as marchas. À falta de uma resposta oficial a tais questionamentos que inquietam a todos, faz surgir, nas redes sociais, uma série de explicações, que vão das mais esdrúxulas, como a que diz se tratar de policiais disfarçados e pagos por quem deseja desprestigiar os protestos perante a classe média, até as que suspeitam de que os agentes policiais recebem ordens superiores para deixar que os vândalos ajam sem ser incomodados. O propósito seria o de que as pessoas acabariam irritadas e começariam a abandonar os protestos.

Existe uma dose de violência impossível de ser impedida em todas as manifestações de massa, mesmo nas mais pacíficas, advertem os sociólogos. Essa é, de fato, a violência que é gerada pela ira dos manifestantes que protestam contra um poder ao qual acusam de lhes proporcionar serviços públicos deficientes e de baixa qualidade, ao passo que os políticos se enriquecem ilicitamente com o suado dinheiro dos impostos. É a violência que se volta contra a polícia que age às vezes como se o país estivesse vivendo numa ditadura e contra os políticos, os quais consideram a todos como corruptos.

Houve um exemplo, numa das manifestações no interior do país, que poderia ser paradigmática desse tipo de violência que nada tem a ver com as que são levadas a cabo a cada dia pelos grupos de vândalos. Nesse caso, os manifestantes pacíficos se dirigiram até a Prefeitura da cidade onde se encontrava o Prefeito, que já tinha caído na boca do povo como sendo um corrupto, mas que quis dar uma de machão e veio até a porta da prefeitura encarar provocativamente os manifestantes. Estes, irritados esbravejaram impropérios e o insultaram, chegando mesmo a tentar agredir o Prefeito com o que tinha ao alcance da mão. O guarda-costas do prefeito, na hora da encrenca, simplesmente desmaiou e o alcaide teve que sair correndo com os manifestantes no seu encalço babando de raiva.

Aos que reprovaram a ação agressiva e beligerante dos manifestantes, um deles explicou: “O que é que vocês queriam? Que nos tivéssemos nos aproximado do prefeito e disséssemos educadamente: -- ‘Por favor, senhor prefeito, não roubes tanto o dinheiro dos impostos; interessa-te mais pelos nossos problemas. Nós o suplicamos pacificamente. Será que o senhor vai nos escutar e nos atender’?”

O certo é que a atitude das forças policiais em relação a este pequeno grupo de vândalos e baderneiros, que vai de uma cidade para outra e é composto basicamente das mesmas pessoas, poderá vir a deteriorar gravemente um movimento que surgiu como a esperança de uma nova primavera brasileira.

A pergunta do por quê de a polícia cruzar os braços e ficar assistindo à distância a ação desses vândalos e muitas vezes mostrar-se repressiva e violenta com quem segue pacificamente a se manifestar, gera o medo das pessoas de bem em participar das passeatas em paz, e sem que ninguém seja capaz de responder a ela de modo esclarecedor e convincente.
Título e Texto: Juan Arias, El País, 27-06-2013
Tradução: Francisco Vianna

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