segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Podem laicizar o que quiserem que o sentimento de culpa cá fica

Vitor Cunha

Eu ia fazer um cartaz muito giro com o logotipo da Benetton sobre uma imagem de fundo que determinei, na qualidade de especialista em marketing, ser a do miúdo afogado na praia turca. Depois olhei para a imagem e não fui capaz, sentido-me enojado com a minha própria ideia.

É extremamente provável que no navio a abarrotar de albaneses rumo à Itália há mais de 20 anos viajassem crianças, talvez de calções e t-shirt ocidentais, talvez com sapatilhas e meias pelo tornozelo, decerto com um corte de cabelo daqueles que todas as crianças têm. Não seria inovador fazer o meu cartaz mas, mesmo assim, contive-me.

Porém, vocês não se contiveram. OK, não estão a vender t-shirts, como a Benetton, mas também estão a vender algo: estão a vender a ideia de que todos somos culpados por algo que não fizemos. Eu não fiz nada, tosco, pára de me acusar.

Milhares de crianças morrem diariamente em zonas de conflito; muitas morrem nos paraísos das utopias fanáticas dos regimes com que os progressistas europeus namoram. Não vejo essas fotografias nem quero ver. Vocês também não querem ver. É como as coisas são.

Lamentar a morte de uma criança não é o mesmo que providenciar porta aberta para que todos possam encontrar o leite e mel. Eu gosto de uma Europa em que se usa biquini e em que a Joana Amaral Dias pode posar nua para uma revista. Estou disposto a aceitar todos os estrangeiros que gostem dessa – a única – forma de ser europeu; os outros, os que não gostam, os que estão dispostos a mudar o que demorou séculos a conquistar, esses têm muitos outros sítios no planeta para migrar, incluindo o seu próprio país.
Título e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 7-9-2015


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