terça-feira, 29 de setembro de 2015

Reforma ministerial: (falso) seguro contra o impeachment. A “babelização” da política


Cesar Maia
               
1. A crise brasileira – econômica, política, social e moral – tem um caráter cumulativo: um novo fato negativo agrava os demais. A projeção de cenários para quando todos os nomes de políticos envolvidos estiverem denunciados é de um impasse parlamentar. Vai se sentir saudades da dinâmica parlamentar dos últimos meses. A cada medida econômica que o governo propõe sem pré-consulta e esta se mostra inviável – total ou parcialmente –, a percepção posterior da crise se torna maior que a anterior. CPMF é um dos exemplos. O dólar um indicador.
               
2. O tamanho da inorganicidade ministerial e parlamentar é de tal ordem que vários analistas, fazendo um exercício de laboratório, passaram a achar que o melhor seria Dilma assumir-se apartidariamente e pagar para ver, organizando um governo de quadros. Isso, ao tempo que produziria dissensos parlamentares, construiria consensos internos e externos e poderia reverter as expectativas. Seria um risco. Mas a paralisia atual é a certeza que o fundo do poço continuará se ampliando.
               
3. A crise política tem duas dimensões. Por um lado a inorganicidade parlamentar e por outro a desintegração da autoridade política da presidente, numa situação de impopularidade sem precedentes. A consequência disso é não ter nem base parlamentar, nem unidade em seu partido e muito menos apoio junto aos sindicatos, associações e ONGs atreladas ao PT e financiadas pelo governo. Há uma “babelização” da política.
               
4. O clamor por corte de despesas levou a um foco prioritário: os 39 ministérios, que só não são 40 pelas piadas nas redes sobre Ali Babá. Mesmo que não produzisse redução significativa nas despesas, seria simbólico da disposição de Dilma em fazê-lo. Sendo assim, esse passou a ser o foco. E iniciou-se a discussão e os vazamentos.
               
5. Até se entendia que a presidente fizesse concessões em nome da governabilidade. Mas o que se está vendo não é isso. Dilma tem um só foco, na dita reforma ministerial, uma só preocupação, que nada tem a ver com o país nem com a crise econômica. O único foco de Dilma é construir uma base parlamentar contra seu impeachment, custe o que custar, faça as concessões que tiver que fazer. Seu passeio diário de bicicleta, inevitavelmente leva à lembrança das “pedaladas”.

6. A resultante desse quadro é mais um fato, impulsionando a cumulatividade da crise, a sua impopularidade e, em seguida, a se submeter a mais um jogo das pressões menores. Ou seja, a continuidade da desintegração de sua autoridade. Não há nenhuma reforma ministerial, seja por despesas, seja por qualificação do gabinete, seja por governabilidade.
               
7. A reforma ministerial – para a delícia dos que têm suas próprias bancadas, partidárias ou não – é um mercado persa contra o impeachment hoje. Mas como não é sustentável, o jogo continua, em direção a novas concessões. O que Dilma imagina ser a sua defesa contra o impeachment será a aceleração do processo em direção a esse mesmo impeachment. 
Título e Texto: Cesar Maia, 29-9-2015

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