terça-feira, 13 de outubro de 2015

As fofocas do jardim

Jonathas Filho
Atualmente tenho dormido bem tarde da noite; às vezes, até às duas da manhã estou acordado, escrevendo no notebook, uma crônica, um texto cômico ou partes do livro que estou terminando. Tenho dormido pouco e acordado mais cedo do que gostaria.

Geralmente, após o café da manhã, por volta das sete e meia, tenho o costume de molhar as plantas do meu jardim e posteriormente me sento na varanda e fico apreciando as folhagens, as flores e seus diversos matizes.

Numa dessas manhãs, uma suave brisa morna convidava e a espreguiçadeira mais do que me incentivava à indolência e a alguns minutos de deleitoso ócio.

Tudo era propício a uma doce letargia e confesso que deixei-me levar e, com os olhos semicerrados fiquei divagando e devo ter cochilado. Sonhei com Hong Kong, no tempo que lá passei e com uma interessante fábula chinesa que não sei se, de fato, foi escrita.

Na ilusão do sonho, contava a lenda de um Príncipe primogênito que ao ver seu pai já bastante alquebrado pela velhice, perguntou-lhe se não seria melhor que abdicasse do trono em seu favor para viver seus últimos dias sem maiores preocupações ligadas ao reinado.                                                                                       

O Rei, do alto da sua sabedoria, respondeu que o filho não estava totalmente preparado para substituí-lo.                                          

Desconcertado, o Príncipe discordou dizendo que já tinha conhecimento e idade para ser Rei e, que estudou administração, todas as ciências, todas as leis, todas as artes, todas as filosofias, todas as mágicas, todas as táticas e estratégias militares e, que até do amor tudo entendia. Era quase divino.                                                                                

O Rei então disse que ele ainda precisava aprender a ser tolerante, paciente e observador e, encerrou a conversa com o seguinte complemento:

“Meu filho, quando você escutar a relva crescer, entender os cantos dos pássaros e sentir o momento que um botão de rosa vai desabrochar, você estará pronto para ocupar o trono. Eu estarei aguardando”.

A partir de então, o príncipe entendeu porque o reinado de seu pai era tão longo e próspero, com o povo vivendo alegre e em paz.

Tal fábula serviu como portal para eu “entrar” mais no sono e sonhando, procurei apurar os ouvidos para entender os comentários  que eu ainda não escutava perfeitamente.

Na medida que fui aguçando a minha audição, fixei minha atenção nos mexericos entre plantas e flores desse meu interessante jardim e ouvi as seguintes conversas e observei engraçadas situações.

“Num canteiro à esquerda, a Azedinha contava para a Árvore-da-Felicidade que noutro dia, sem nenhuma explicação, aconteceu uma discussão entre o comigo-ninguém-pode e a costela-de-adão que, aborrecida chorou muito. Talvez ela tenha se sentido ofendida por não ser um amor-perfeito e deveria ser melhor tirar o véu-de-noiva. 

Ela rezava ora-pro-nobis, afirmou que não era uma maria-sem-vergonha e apesar de apreciar os beijos-de-frade, ela tinha de ser respeitada. Em volta, um grupo de margaridas e manacás se amontoavam e se acotovelavam na ânsia de escutar as futricas.

Do alto de uma coluna dórica, o Chifre-de-veado usando um brinco-de-princesa e estranhamente agarrado a um xaxim, comentava à boca pequena com a Flor-de-maio que também tinha sido ofendido pela mesma planta mal-educada numa outra ocasião e que até o lírio-da-paz tentou intervir, porém amedrontou-se com o porte físico do outro vegetal.

Num outro canteiro, ouvia-se a Trepadeira, toda sensual, sussurrar ao Antúrio que às onze-horas, a sempre-viva colocou um capuz-de-freira para não ser reconhecida e empunhou uma grande espada-de-são-jorgem pois queria impor a ordem no jardim, mas depois desistiu porque era pobre e não tinha dinheiro-em-penca nem renda-portuguesa como a dama-da-noite tem. Ela “amarelou” porque não queria correr o risco de ter de pagar uma chuva-de-ouro como indenização.

Na lateral do jardim, em um pequeno vaso, calada ficou a boca-de-leão ao escutar o bater da pata-de-vaca na terra ao se aproximar para fazer suas fofocas sobre outras plantas.

Interessados em escutar as maledicências, um grupo de ixóreas vermelhas e petúnias azuis quase se digladiavam para ver um copo-de-leite que foi puxado por uma unha-de-gato e que por isso caiu no chão.
Nessa queda, o copo quebrou deixando cair seus esporos e dali não conseguiu escutar mais nada dos desairosos fuxicos que habitualmente acontecem nesse lugar florido”.

Ser perceber quanto tempo havia se passado, só despertei quando aquele sabiá pousou próximo à mim, deu seus trinados para me chamar e me acordar daquele cochilo matinal.

Sem esse chamado oportuno, eu teria continuado sonhando com esses mexericos de jardim pois, na realidade, infelizmente eu não sou sábio como o Rei da fábula chinesa, que escutava as plantas e as flores.
Obstinado, vou continuar me esforçando. 
Título e Texto: Jonathas Filho, é um eterno sonhador... 10-10-2015

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