segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Diálogos com um negacionista

Luciano Henrique

Em nome da facilidade de entendimento, aqui está um debate ocorrido no Facebook – este é um post longo, mas para quem quiser entender um tanto das divisões hoje entre a direita vale a pena. A polêmica começou depois que fiz o seguinte post:

Se eu já disse que Olavo de Carvalho foi o grande remédio para a direita no Brasil, fiquei devendo uma informação, que atualizo agora. Os efeitos colaterais estão sendo terríveis. Ao denunciar o Foro de São Paulo, foi ridicularizado pela mídia. Ele estava com a razão. Também estava com a razão ao explicar a mente esquerdista pela primeira vez para os brasileiros, e também ao demonstrar o modus operandi gramsciano. Em relação ao tão negado Foro, ele parece nunca ter se livrado deste ressentimento. Isso está se tornando cada vez mais nítido, não apenas em seu comportamento mas em muitos de seus seguidores, que praticamente já compõem um “novo perfil” de direitistas. Está defendendo coisas como “intervenção civil (que depois seria complementada por uma intervenção militar, é claro)” e retirada de direitos políticos de oponentes (após a intervenção civil), além de ter dito, à Joice Hasselmann, que o PT “deveria ser tirado do poder de qualquer jeito”. Essas ideias são autoritárias e, pior do que tudo, negam a política. Como consequência, os que aceitam essas ideias à risca também negam a política. Fazendo isso, não irão lutar por um impeachment, pois, para eles isso seria “submissão a políticos”. Eles são claros enquanto falam isso. Logo, pode até ser que eles tenham outra meta. Mas para impeachment, não podemos contar com eles. Pelo potencial intelectual de Olavo e assertividade, de todos os casos, este é o que mais podemos definir como “desperdício de esforços”.

Dois leitores de Olavo ficaram muito bravos e vieram no meu inbox. Daí escrevi o seguinte, apontando o que compreendia como se fosse meramente uma lista de fatos:

(1) Olavo acertou no caso do Foro (foi indevidamente ridicularizado, por estava com a razão)

(2) Acertou sobre estratégia gramsciana

(3) Acertou sobre a mente esquerdista

(4) Vive tocando na tecla do Foro, pois nunca esquece a negação dos jornalistas – por isso, talvez, a questão tenha virado ponto de honra

(5) Seus leitores compõem quase um “novo perfil” de direitistas

(6) Muitos desses leitores usam estruturas argumentativas e retóricas similares às de Olavo

(7) Ele defende intervenção civil (que inexoravelmente precisa ser complementada por intervenção militar)

(8) Ele defende extinção de direitos políticos de seus oponentes

(9) Ele disse que o PT “deveria ser tirado do poder de qualquer jeito”.

(10) Há autoritarismo nessas ideias

(11) Há também negação da ação política tradicional (que é a que o PT faz há décadas)

(12) Olavo e seus leitores não estão focados em impeachment

(13) Se formos contar com eles, é para outra meta, não impeachment

(14) Isto é uma pena, pois, em uma ação de impeachment, ele poderia nos ajudar muito com seu potencial assertivo
Aos leitores de Olavo que não gostaram: qual dos 14 itens acima vocês querem CONTESTAR? Reparem: não é JUSTIFICAR (pois as justificativas de “beco sem saída” eu já conheço de cor e salteado).

Ora, se eu problematizei a atuação desses três FORMADORES DE OPINIÃO na QUESTÃO DO IMPEACHMENT, então eu não posso ser refutado por alguém que diga “ah, mas veja, devemos renegar o impeachment por…”, pois isso é a VALIDAÇÃO de minha tese, e não uma refutação.

Alias, entender um problema desta forma é algo que o Olavo de Carvalho já ensinou também…

Filipe G. Martins escreveu o seguinte, para, supostamente, me rebater:

(1)    O que isso significa? Por que começar por aqui e não, digamos, pela construção dos métodos e das abordagens que permitiram a ele obter acertos muito maiores do que o mencionado? Será por que você está falando de um fragmento do Olavo e não do Olavo que as pessoas que vão além do Facebook e dos Hangouts conhecem?

(2) Ele não apenas acertou sobre a estratégia gramisciana. Ele a estudou, a assimilou, e compreendeu suas falhas e lacunas. Você, por outro lado, sempre que fala no assunto demonstra conhecer Gramsci apenas de ouvir falar.

(3) Ele não acertou apenas sobre a “mente esquerdista”, ele acertou sobre a mente revolucionária, uma categoria bem mais abrangente, incluindo iluministas e pseudos-neo-iluministas que acham brilhante a idéia de usar Gramsci para outros fins.

(4) Este é talvez a afirmação mais ridícula, pois é baseada numa especulação que projeta motivações psicológicas infantis sobre as motivações de um homem que tem um horizonte de consciência muito mais amplo que o seu. De onde você tirou que ele só toca nesse ponto por não esquecer a negação dos jornalistas e ver isso como uma questão de honra? Você sequer cogitou a possibilidade de que ele insista nesse ponto por que o julga de fato mais importante e essencial para derrotar a esquerda?

(5) Essa afirmação não diz nada, posto que não foi sustentada com argumentos ou demonstrações.

(6) Isso é natural. Ninguém usa estruturas argumentativas e retóricas totalmente originais. Então, é apenas mais uma banalidade que nem deveria ser mencionada.

(7) A “intervenção civil” não precisa ser complementada por uma intervenção militar. Isso é bobagem das grossas. O próprio Gene Sharp, o principal referencial neste ponto, propõe a resistência civil como uma forma de evitar a intervenção militar, que nunca pode ser controlada e quase sempre tem um desfecho imprevisível e indesejado.

(8) Incorreto. Ele não defende a extinção de direitos políticos de seus oponentes, ele defende a cassação de direitos políticos de criminosos — e diz que isso nem precisa ser feito pelas vias oficiais, bastando que a população continue se negando a ouvi-los.

(9) Você sofre de síndrome de asperger? Tem dificuldade com linguagem que não seja literal? Acredita, por exemplo, que ao dizer isso ele estava afirmando que, caso um sacrifício de todos os filhos dele em um altar satanista fosse resultar na queda do PT, ele faria tal sacrifício?

(10) Há uma inversão aqui. Não há autoritarismo nessas idéias, mas anti-autoritarismo. Seria autoritário pedir a cassação dos direitos políticos de grupos autoritários ou totalitários como nazistas e comunistas?

(11) Não há negação da ação política tradicional; há, isto sim, uma rejeição da escolha de se limitar à política tradicional, sem alargar os limites que foram fixados pelo PT e pela esquerda para o jogo político e sem completar a etapa que antecede essa ação que é a de construir uma base de apoio sólida para além da política tradicional.

(12) Eles não estão focados no impeachment, mas possuem objetivos mais amplos que abrangem o impeachment.

(13) Portanto, vocês podem contar com eles para o impeachment. Mas eles não podem contar com vocês para os objetivos mais amplos que possuem, devido a limitação de seus objetivos.

(14) O que é uma pena, pois, em uma ação que mire não apenas em uma presidente frágil mas vise mudar o cenário político, toda ajuda — mesmo a de quem não entende muita coisa e nem percebe isso — é bem-vinda.

O respondi assim:
Filipe Martins é o típico “bravinho” que acha que vai gerar resultados políticos assim. Ah, se ele resolvesse assistir as discussões táticas da esquerda para ver que é outro nível… Mas, enfim, não adianta falar.

(1) Não interessa se são “fragmentos”. O que interessa é que vocês, que seguem os “fragmentos”, executam ações no MUNDO. E estamos vendo o resultado… Apelo metafísico não muda o resultado.

(2) Tenho todos os livros de Gramsci, obrigado. E não só isso. Não pense ser mais esperto do que realmente é.

(3) O que ele chama de mente revolucionária é a religião política, já vista por Norman Cohn, Voegelin e Gray, em outros termos. É bom estudo sim, mas não pertence só à esquerda… Gramsci é usado até em empresas para implementar processos, caso você não saiba.

(4) Se isso é culto a personalidade, nada mais é. O fato de Olavo ter um horizonte de consciência alto, não muda o fato de que ele é humano. Afirmar que a repetição excessiva da história de que “muitos tentaram ignorar o Foro de São Paulo” pode ter deixado-o com rancor não é um desrespeito. É uma observação normal em análises críticas.

(5) Quando eu digo que os leitores de Olavo praticamente compõem um “novo perfil” de direitistas, Filipe diz o seguinte: “Essa afirmação não diz nada, posto que não foi sustentada com argumentos ou demonstrações.”. Não seja por isso. Já publiquei a primeira versão de um checklist, e logo sai a próxima, no blog, capaz de prever os discursos que você usarão em várias situações. O padrão de comportamento já é mapeável.

(6) Quando eu falei que muitos leitores utilizam estruturas argumentativas e retóricas similares às de Olavo, Filipe diz: “Isso é natural. Ninguém usa estruturas argumentativas e retóricas totalmente originais. Então, é apenas mais uma banalidade que nem deveria ser mencionada.”. Claro que deveria ser mencionada, pois se há equívocos em um discurso, e eles são reproduzidos ipsis literis, melhor sabermos os padrões. E isto é uma pena, pois se o Olavo indica aos seus alunos que busquem expandir o horizonte de conhecimentos, repetir exatamente o que ele diz parece até uma contradição. Eu mesmo tomo por base o pensamento de Olavo mas o expandi com outros autores. Isso é ser influenciado de fato, ao invés de querer virar um simples decalque.

(7) Sobre “intervenção civil”, ok, mas então vocês precisam dar um sumiço em vídeos onde o Olavo explica que ao fim do processo o exército deve ter uma escolha de apoiar o grupo que tomar o poder, depois de escrever a nova constituição.

(8) Olhem só que maravilha. Filipe diz: “Ele não defende a extinção de direitos políticos de seus oponentes, ele defende a cassação de direitos políticos de criminosos — e diz que isso nem precisa ser feito pelas vias oficiais […]”. Isso se chama apenas um reframe, mas não é dos melhores. Táticas de desumanização envolvem usar atributos para os oponentes na justificativa de ações autoritárias. Os petistas, alias, estão jogando o jogo político há décadas. Como retribuição, a ideia é cassar direitos políticos. Maravilha. 

(9) No item 9 vem a ofensinha tradicional com a qual essa tropa encara os debates críticos, motivo pelo qual jamais estarão aptos a qualquer discussão tática que qualquer esquerdista faz com um pé nas costas: “Você sofre de síndrome de asperger? Tem dificuldade com linguagem que não seja literal? Acredita, por exemplo, que ao dizer isso ele estava afirmando que, caso um sacrifício de todos os filhos dele em um altar satanista fosse resultar na queda do PT, ele faria tal sacrifício?”. Nem merece resposta. O que eu disse é o oposto. Ao dizer que o oponente “deve ser vencido de qualquer jeito”, ele dá o comando verbal para que os limites que conhecemos no trato ao oponente político podem ser quebrados.

(10) Momento mágico: “Há uma inversão aqui. Não há autoritarismo nessas idéias, mas anti-autoritarismo. Seria autoritário pedir a cassação dos direitos políticos de grupos autoritários ou totalitários como nazistas e comunistas?”. He he he…. Isso se chama misturar esferas de debate (lógico e político), um amadorismo de dar dó. De fato é possível criar um argumento desse jeito, mas, politicamente, quem atuou no âmbito cultural para transformar comunismo em algo tão condenável quanto nazismo? Pior, se o comunismo é mutante, enquanto o nazismo não é, como atacar um adversário que muda de forma à vontade do mesmo jeito que se ataca um outro adversário parado? Essas questões, para começar, mostram que o próprio argumento tático não vai à frente.

(11) Filipe diz: “Não há negação da ação política tradicional; há, isto sim, uma rejeição da escolha de se limitar à política tradicional”. Que beleza. Justamente no momento em que vitórias políticas são necessárias, uma legião de pessoas é orientada a pensar em “usar política com moderação”. O resultado é isto aí. Não se tem uma coisa nem outra.

(12) Outra: “Eles não estão focados no impeachment, mas possuem objetivos mais amplos que abrangem o impeachment.” Claro, claro… Quem diria algo diferente, certo?

(13) Filipe: “Portanto, vocês podem contar com eles para o impeachment. Mas eles não podem contar com vocês para os objetivos mais amplos que possuem, devido a limitação de seus objetivos.”. É exatamente o oposto. Ao pedir “ok, impeachment, mas com moderação”, há uma retirada de esforços clara no momento de ações táticas que precisam de esforços. Ao falar de “objetivos mais amplos que possuem”, essa foi uma das mais desastrosas premissas que já ouvimos, pois é inventar um atributo que os outros não possuem. De onde se tirou que os grupos que apoiam o impeachment iriam desistir em caso de sucesso? Inventar premissas é o caminho para o desastre.

(14) E por fim, Filipe complementa: “O que é uma pena, pois, em uma ação que mire não apenas em uma presidente frágil mas vise mudar o cenário político, toda ajuda — mesmo a de quem não entende muita coisa e nem percebe isso — é bem-vinda.” Eis de novo o argumento de que “não é para focar tanto no impeachment, mas no objetivo mais amplo”, que é EXATAMENTE O PROBLEMA apresentado. Me surpreende que alunos do Olavo não estejam sabendo DISCUTIR UM PROBLEMA. Se vocês estão sendo acusados de prejudicar uma ação (x) factível, a partir da elaboração de um discurso focado em “ambições maiores” (o que é algo comum quando se discute senso de urgência, então não há nada de novo no seu argumento), a partir de premissas falsas sobre quem defende a ação (x), não adianta dizer “temos ambições maiores” ou “vocês vão interromper a luta contra o Foro se o PT cair” que isso apenas CONFIRMA o meu argumento.

Enfim, Filipe, ficou mal, pois você confirmou meu argumento, ao invés de rebatê-lo.

E, enfim, Filipe respondeu, e a partir de agora, o que se verá é um debate entre eu e ele. Na verdade, é minha resposta longa a um post dele, em um formato mais amigável para a compreensão de todos, ao invés de forçar todos a ler um texto extenso de uma única parte, para depois outro.

O DEBATE
Felipe: Você facilitou um bocado o meu trabalho ao começar essa segunda postagem com o erro mais essencial que você havia cometido na postagem anterior: o de partir para especulações de natureza psicológica enquanto lança mão da régua de sua própria ignorância para medir seus interlocutores.

Luciano: Padrão de ofensinha básico: “[x] mede o outro por sua régua”. Ele usa o truque da ampliação indevida ao achar que eu estava fazendo “especulações de natureza psicológica”. Na verdade usei a explicação mais caridosa.

Felipe: Se na postagem anterior você construiu todo o seu raciocínio sobre o alicerce de uma hipótese pouco plausível constituída de uma especulação puerial sobre as motivações do Olavo, nesta você tenta vender aos seus leitores a idéia falsa e infundada de que só um indivíduo movido pelas emoções, um típico bravinho, poderia discordar de seus argumentos, além de deixar no ar a sugestão de que esse sujeito bravinho que ousou questionar o que você escreveu é um amador sem qualquer familiaridade com as discussões táticas da esquerda.

Luciano: Falso. Em estava cagando e andando para as motivações de Olavo. Fui caridoso ao usar uma hipótese elegante para explicar o comportamento. O termo “bravinho” também não tem nada a ver com “tentativa de vender (x) como alguém motivado por emoções (w)”. É apenas uma forma de definir bem um grupo de pessoas que se tornou notório pelo comportamento antissocial diante do menor questionamento. Se meu interlocutor é amador em relação a (x) ou não, é algo que nem aventei em meu argumento.

Felipe: “Imagino que qualquer leitor um pouco mais treinado seja capaz de perceber o quão pueril e primário é esse método.”

Luciano: Os tais métodos estão na imaginação de Felipe. Ele está apontando intenções em meu texto que não é capaz de provar. Agora se entende como os negacionistas erram tanto ao apontar intenções nos outros. Eles simplesmente inventam…

Felipe: “Não à toa seus leitores, à exceção de um número insignificante, se negaram a curtir e endossar essa besteira, mesmo que a maioria deles não me conheça e não saiba se eu estou ou não familiarizado com tais discussões.”

Luciano: Era o resultado esperado de um texto longo. Ninguém aqui está se importando se o Filipi tem intenções (x) ou (y). O uso do termo “bravinho” foi feito apenas com base em um padrão que já se tornou notório em outros fóruns. Se o Olavo é culpado por este comportamento, não sei. Não me importa.

Felipe: (1) É evidente a qualquer pessoa que esteja minimamente familiarizada, não digo com a análise política ou com a análise filosófica, mas com a análise de textos que o escrutínio de fragmentos, via de regra, conduz a interpretações bastante diferentes das que seriam obtidas com a análise do objeto em sua completude. Portanto, não apenas interessa como é essencial determinar se estamos analisando fragmentos ou o todo de um dado objeto.

Luciano: Não interessa se estivermos fazendo uma análise filosófica. Se estivermos avaliando efeitos de um discurso sobre o mundo, interessa.

Felipe: Você dá continuidade à tentativa de se esquivar das perguntas feitas por mim dizendo que o que interessa é que nós, que seguimos os fragmentos (sic), executamos ações no mundo e que você está “vendo o resultado” e então completa com uma frase completamente sem sentido sobre eu ter apelado à metafísica, algo que ao que tudo indica você nem ao menos sabe o que é.

Luciano: O termo metafísica foi utilizado satiricamente, como forma de se referir ao uso de algum mingau sem sentido para tentar fugir da discussão – não que toda discussão metafísica seja isso, claro. O fato é que não adianta alguém dizer “não avaliem meus fragmentos, vejam o todo” se estes “fragmentos” estão gerando efeitos que estão sendo criticados por serem danosos. Esta é uma tentativa de esquiva, que não funciona nesta análise técnica.

Felipe: Pois bem, diante disso eu pergunto: (a) por que você não se esquivou minhas perguntas?

Luciano: ?

Felipe: (b) quem são o “vocês” de que você está falando e o que dá unidade a esse grupo?

Luciano: Todos aqueles que utilizam um determinado tipo de discurso apelando a “uma luta maior”, rejeitando conquistas atuais, vivem entrando nos fóruns dizendo “não se derrota (x) pelas vias democráticas, então aceite (m)”, etc. Decerto em um checklist de 10-15 itens, essas pessoas atendem a no mínimo 80%. Então, é um comportamento padronizado, agencialista, exclusivistas e, por vezes, autoritário.

Felipe: (c) o que garante que as pessoas que discordam de você estão seguindo fragmentos e não algo mais abrangente que coloca variáveis novas na equação e produzem um resultado que não pode ser entendido por quem, como você, só conhece os fragmentos?

Luciano: Isso não importa em termos de resultados. Se os outros “só conhecem os fragmentos”, então por que se esquivam tanto de explicar o que querem? Já expliquei o motivo.

Felipe: (d) o que diabos tem a ver o que eu disse com um apelo metafísico?

Luciano: Respondido antes.

Felipe: (2) Gramsci publicou sete livros. Não é necessário um esforço muito grande para obtê-los e menos ainda para armazená-los. Portanto, que mérito há em ter todos os livros dele?

Luciano: Há muito menos méritos em esquecer de apontar quais são minhas falhas de entendimento em relação ao que Gramsci escreveu. Era o mínimo que se esperava.

Felipe: Se nem mesmo a leitura desses livros garante a compreensão das idéias ali apresentadas, o que dizer da mera posse?

Luciano: Bela ética argumentativa. Se um autor toma como base Gramsci para suas ideias e cita que foi preciso ler Gramsci de cabo a rabo, dizer que ele está apenas alegando “mera posse” é uma canalhice sem limites. Previsível.

Felipe: Um sujeito que desconsidera a importância da distinção entre idéias fragmentadas e idéias integradas, noção essencial para a compreensão de Antonio Gramsci, deve ter uma dificuldade imensa para compreendê-lo, o que comprova minha suspeita e explica as dezenas de besteiras que você já disse sobre esse autor em seus textos – sendo a mais notória delas a sua ignorância acerca do caráter totalitário do método gramsciano.

Luciano: O padrão que ele usa é “Quem faz [x] não consegue [r]”. O problema é que ele mentiu ao dizer que eu confundi “ideias fragmentadas com ideias integradas”. Na verdade, o argumento usado por Vagner Freitas, da CUT, ao dizer que ia “pegar em armas” e que depois não era bem assim, é igualzinho ao dele. Pois assim seja: mesmo sendo “ideias fragmentada”, elas pode ter consequências no mundo, se tomadas como comandos, e, como tais, podem ter seus efeitos avaliados. Quanto ao “caráter totalitário do método gramsciano” isto é de ignorância sem fim. Se alguém vai implementar algo em uma organização, pode ir pelo método leninista ou gramsciano. Alguém escolhe. O que Felipe está confundindo é o método gramsciano com os valores de Gramsci. Um erro tão grande que incapacita alguém a falar sobre política de verdade. Enfim, método gramsciano é uma coisa. A moralidade das ideias de Gramsci para tomar o poder é outra coisa.

Felipe: (3) Com essa afirmação, você demonstra de uma só vez que não apenas não está familiarizado com os estudos do Olavo sobre a mentalidade revolucionária como desconhece as teses dos demais autores citados.

Luciano: O tal verbal assault pattern dizendo “Com [x] você demonstra não saber nada sobre [l]”. Mas é outra picaretagem felipistica. Qual parte da análise sobre mentalidade revolucionária minha está errada? Qual parte de minha análise sobre a religião política, de Voegelin e Gray, está errada? Qual parte do estudo dos cultos milenaristas, de Cohn, está errada? Usar um pattern que não engana ninguém que queira ir a fundo na guerra política não serve…

Felipe: Se é verdade que os estudos sobre a mentalidade revolucionária se beneficiam em alguma medida desses autores, também é verdade que eles vão muito além, se distanciando em diversos pontos e até defendendo teses contrárias em outros.

Luciano: Claro que podem ir além. Podem ir até as nuvens. Podem ir para o espaço sideral. Não há limites. Mas temos que nos ater ao que está sendo discutido aqui. Esse pattern dizendo “[x] vai muito além do que sua vã compreensão pode captar” é bem manjado.

Felipe: (4) Bela tentativa de colar em mim o rótulo de idólatra e cultor de personalidade.

Luciano: Isso é teatro, não argumentação (esse “pattern” do Olavo é bom, e honesto). Só o que aconteceu é que foi aventada uma hipótese caridosa pelo excesso de apego de Olavo à história de que muitos desprezaram sua análise sobre o Foro. Talvez por isso ele tenha assumido como meta algo que não era tão importante – por exemplo, atacar os métodos do Foro (como, por exemplo, o controle petista de campanha, a censura sutil, etc.) seria mais importante do que ter gente se manifestando “Fora Foro”. Em cima disto, escrevi uma linha, descompromissada. Ter se apegado tanto em esforço para dizer “O Olavo jamais teria uma preocupação deste tipo” e “cairia em um erro assim…” é uma baita de uma frescurite. Eu havia escrito: “Em relação ao tão negado Foro, ele parece nunca ter se livrado deste ressentimento.”. Observem até que eu escrevi “parece”. E o Felipe se doeu todo. Algo como se dissesse: “Onde já viu dizer que Olavo pode ter sentimentos (x)?”. Ora, para alguém como Felipe, Olavo não pode ser julgado pelo mesmo padrão que julgaríamos todos os humanos, não é? Goste ou não, isso tem todo o tom de culto à personalidade.

Felipe: Funcionaria se eu tivesse de fato feito observações morais e pedido respeito, algo que eu não apenas não fiz como jamais pensei em fazer. Mesmo o leitor desatento se dará conta de que tudo o que eu fiz foi apontar um erro – e, repito aqui, o erro mais essencial de toda a sua argumentação.

Luciano: Que coisa deprimente estamos assistindo. Esse chororô todo por causa disto que eu escrevi: ““Em relação ao tão negado Foro, ele parece nunca ter se livrado deste ressentimento.” Este é o erro “mais essencial” de minha argumentação. Aliás, nem é parte do meu argumento. Ele está na fase do chilique puro…

Felipe: E que erro é esse? Você se apega a uma hipótese incerta extraída de uma especulação de natureza psicológica para construir toda essa argumentação e esse é um erro primário e até risível.

Luciano: Haja saco viu…

Felipe: Veja bem. Ainda que a hipótese fosse plausível, seria equivocado construir todo um raciocínio em cima dela.

Luciano: Isto aí mesmo. Vai por aí mesmo campeão… Lembremos da frase que o incomoda tanto: “Em relação ao tão negado Foro, ele parece nunca ter se livrado deste ressentimento.” Então ele “provou” que Olavo não pode ter este tipo de ressentimento, de forma (não provou, mas vamos fingir que sim), logo todo meu argumento (que fala sobre consequência de decisões, não sobre a origem dessas decisões – e ele se perdeu nisso) estaria invalidado. Na cabeça de Felipe, todo meu argumento depende de que a frase “Em relação ao tão negado Foro, ele parece nunca ter se livrado deste ressentimento” seja validada. Então vou tirar o chão debaixo dos pés dele: não, não depende. Ele está se agarrando a uma bobagem.

Felipe: Como a hipótese nem ao menos é plausível – afinal, ela atribuí motivações infantis evidenciadas por nada além da sua falta de imaginação às ações de um homem com um horizonte de consciência muito mais amplo do que o seu – todo o seu raciocínio cai por terra como altamente improvável.

Luciano: Isso é de um fingimento digno de petista. Eis um teatrinho boboca. Oh… o Olavo é “um homem com um horizonte de consciência muito mais amplo do que o seu”. Logo, ele não se ressentiria. Bem, suponhamos que o horizonte de consciência de Olavo seja o mais amplo da história da humanidade. Isso não muda meu argumento sobre consequência de ações em nada. Acho que o teatrinho em cima de minha frase descompromissada podia parar né?

Felipe: (5) Sobre esse ponto só me resta esperar pela versão completa de seu checklist, mesmo que você já tenha dado mostras de que não está em posição de elaborá-lo.

Luciano: Torça então para que o checklist não mapeie os padrões de comportamento que estão sendo gerados por alguns discursos específicos.

Felipe: (6) Aqui você exibe mais uma limitação digna de pena ao mostrar que não sabe a diferença entre estruturas argumentativas e retóricas e os argumentos e discursos em si mesmos.

Luciano: Se sou digno de pena, Felipe não tem compaixão. Ele não tem pena de mim ao ter que me fazer aturar o lero lero dizendo “você confunde estrutura argumentativa e retórica e os discursos em si mesmos”, quando isto é irrelevante em termos de ações julgadas na análise de táticas políticas. Se alguém quer entrar no ambiente da política de combate (onde a linguagem importa muito) deveria estar prestes a ser julgado por isso.

Felipe: Ao valer-se de estruturas argumentativas e retóricas, um
indivíduo não reproduz os mesmos argumentos e discursos que ouvi em outro lugar, mas utiliza as mesmas categorias e estruturas para expressar seus próprios argumentos e discursos. Essa é uma distinção básica que qualquer um deveria conhecer – sua confusão entre as duas coisas é realmente digna de pena.

Luciano: Ele está fingindo, para a plateia, que eu fiz “confusão entre duas categorias de discursos”. Truque manjadíssimo. Na verdade, não. Estou avaliando as consequências de determinados tipos de discursos, que estão se traduzindo em ações táticas. O que Felipe pede é a condescendência com um autor por que “ele tem uma ideia mais ampla”. Nunca disse que ele não tinha. Então ele criou uma fantasia para lutar contra ela. Aliás, dois “digno de pena” em um mesmo parágrafo, como verbal assault, em nome de uma mentira. Bem, neste caso Felipe
não é digno de pena. É safado mesmo.

Felipe: Se eu soubesse que você estava falando de repetições “ipsis literis” e não utilizando expressões que não conhece, eu teria refutado sua generalização e não a aparente banalidade de sua afirmação.

Luciano: Repetição do truque anterior.

Felipe: Banalidade que está presente também na sua afirmação de que devemos expandir o horizonte de conhecimentos com outros autores, como se qualquer leitor ou aluno do Olavo que não se limite aos fragmentos não fizesse exatamente isso.

Luciano: Lá vem ele de novo com a ideia de “fragmentos”…

Felipe: (7) Não é necessário dar sumiço em vídeo algum. Se muito, é necessário voltar ao começo da discussão e, indo devagarinho com o bê-á-bá, ensinar a você a distinção entre os fragmentos colhidos em afirmações soltas e o todo apresentado em teses com começo, meio e fim.

Luciano: Deja vu…

Felipe: Ainda assim, mesmo se tomarmos apenas o fragmento, é evidente que afirmar que o exército deverá escolher que grupo apoiar não significa que o exército deva agir ativamente para derrubar o governo, basta que ele se recuse a agir para suprimir as ações populares.

Luciano: Volta a conversa de “fragmentos”. Legal esse negócio de atuação do exército hein? Ao invés de pedir intervenção militar, basta se recusar a agir para suprimir as ações populares, permitindo que um grupo tome o poder pela força. E, após isso, ir dar sustentação ao grupo que “tomou o poder”, claro. Ou não é? O grupo que chegou ao poder vai se sustentar com o que? Com rezas? Ou olhos de raio laser? Eu não nasci ontem, né…

Felipe: (8) Aqui você também está equivocado. Não se trata de um reframe, mas de coerência e senso comum. Você sempre insiste que o PT é liderado por psicopatas e criminosos sem qualquer escrúpulo. Diante disso, eu pergunto: devemos permitir que psicopatas ocupem cargos públicos e liderem o país? Não há autoritarismo em propor uma lei que impeça isso.

Luciano: Deixe-me ver: sabendo que seu oponente é um psicopata, você fala em público que ele deve ser impedido de ocupar cargos públicos? Talvez não tenha pensado que ele morre de rir ao ouvir isso. E, sim, é autoritarismo, pois não há lei impedindo psicopatas de ocupar cargos públicos.

Felipe: (9) Não há ofensa alguma aqui. Só estou tentando entender a razão de sua dificuldade em lidar com linguagem não literal, um defeito gravíssimo para quem se pretende analista do que quer que seja.

Luciano: O pattern “[x] é algo muito grave para alguém que se diz [y]” é conhecidíssimo, mas não se aplica aqui. A questão não era o que estava “na visão ampliada” do Olavo, mas no resultado tático que isso tem gerado.

Felipe: O Olavo não deu comando verbal algum, apenas utilizou uma figura de linguagem para expressar a importância de conter as ações de um governo que você próprio diz ser liderado por psicopatas.

Luciano: É difícil saber o que você entende por comando verbal. Um comando verbal é toda frase que pode servir de orientação, esteja ela de acordo com as intenções de seu propagador ou não. É um conceito mais comum na dinâmica social, onde a linguagem é avaliada pelos resultados, e não tanto pela intenção do argumentador. Tentar se defender com um modelo argumentativo usado na filosofia (onde julgar as intenções ou “visões mais amplas” na comunicação é essencial) para avaliar um comportamento político (onde os frames é que contam) é o fim da picada. Já disse que, diante de psicopatas, falar descuidadamente é a pior das opções.

Felipe: Nem todo mundo vive para jogar o joguinho de aparências ao qual você escolheu dedicar o seu tempo e a sua energia.

Luciano: Normalmente pessoas renegam o jogo político por dizer que é “joguinho de aparências”, mas isso, aí sim, é confusão entre método e moral. A meu ver o jogo político é essencial para quem tem a verdade em mãos em qualquer questão do mundo. Na sua visão é “joguinho de aparências”. Talvez você queira dizer que jogar o jogo político inevitavelmente é viver de aparências, mas isso, logicamente, não se sustenta.

Felipe: O Olavo é um filósofo e não um empacotador de slogans e chavões – ou de frames, se você preferir – tentando ganhar um joguinho de aparências.

Luciano: E eu não estou julgando a filosofia de Olavo, mas o comportamento de muitos de seus leitores, NA POLÍTICA. Aliás, você está confundindo os planos da discussão.

Felipe: (10) De fato temos aqui um amadorismo de dar dó: o seu. Afinal, o que além de amadorismo poderia explicar o fato de você ter visto confusão entre esferas de debate onde havia apenas uma contestação simples a uma afirmação simplista – a de que há autoritarismo na proposta de cassar os direitos políticos de psicopatas após estes serem derrotados?

Luciano: Eu sou realmente um amador, na arte felipistica de vender autoritarismo como algo palatável. Não sei fazer isso. Não quero aprender. Vamos avaliar detalhadamente. Há lei para punir psicopatas na política? Não há. Você quer estabelecer uma? Por enquanto, nem falou isso. Mas já quer cassar direitos políticos oponentes com base em uma lei que nem existe e nem sequer é discutida. E ainda não é autoritário? Hehehehe….

Felipe: A discussão apresentada foi exatamente esta: há autoritarismo nas idéias apresentadas pelo Olavo? Você afirmou que sim e eu demonstrei que não.

Luciano: Demonstração maravilhosa você deu… de que usa joguinhos retóricos para vender autoritarismo como algo palatável. Será que você teria coragem de escrever um post detalhando O QUE VOCÊ QUER no processo de TOMADA DE PODER? Ou ficaria com vergonha? Pensando bem, você falou demais por aqui. Bom que tenha sido assim.

Felipe: O que vai além disso pode até ter sua relevância, mas tem de ser necessariamente precedido pela discussão que eu enderecei.

Luciano: Digo o mesmo.

Felipe: Suas perguntas, por sua vez, demonstram apenas afobação. O Olavo jamais propôs, em sentido literal, a cassação imediata dos direitos políticos dessa gente. A proposta dele é coroar a derrota dessa gente com essa cassação.

Luciano: Aha…

Felipe: Portanto, ao perguntar quem atuou para tornar o comunismo tão condenável quanto o nazismo referindo-se ao passado, você demonstra não ter atentado nem sequer para o lugar que essa proposta tem na fala do Olavo.

Luciano: Explica aí então. Deve ser uma beleza…

Felipe: (11) Ninguém está sendo orientado a usar a política com moderação. A orientação é de ir além dos limites da política tradicional, atuando em esferas que a transcendem e a sustentam.

Luciano: Quais são os limites que devem ser superados? Você pode dizer isso claramente? (Aliás, se já deixamos o truque de “você não sabe diferença entre fragmentos e ideias mais amplas” e “você tem que provar que Olavo tem sentimentos (x) sobre (o)” você poderia quebrar o galho nosso e ser mais claro a esse respeito)

Felipe: Como a esta altura não confio que você entenderá claramente o que estou dizendo, enfatizo para que fique mais claro: a orientação é esgotar as possibilidades da política tradicional, utilizando-a tanto quanto possível dentro dos seus limites, mas não aceitando se subjugar ou se limitar a ela e buscar ações fora dessa esfera.

Luciano: Aliás, isso se explica pelo fato de que os adeptos do negacionismo (em maior ou menor grau) na política são geralmente muito desanimados para as ações táticas. Se tivessem lido Sun Tzu saberiam que na hora do campo de batalha não há titubeação. O PT ganha as batalhas políticas pois sabe que “é tudo ou nada na política”. E você defende uma ideia de “vai na política até onde dar, e se não der, supere-a”. A tendência é que fiquem no meio do caminho. Infelizmente, é assim que as coisas são. Já falei suficiente sobre isso em outros fóruns.

Felipe: (12) Não há nada aqui além de uma tentativa mal elaborada de se esquiar do ponto levantado.

Luciano: Eu havia escrito: “Outra: ‘Eles não estão focados no impeachment, mas possuem objetivos mais amplos que abrangem o impeachment’. Claro, claro… Quem diria algo diferente, certo?”. E esse é o PONTO CENTRAL de meu argumento: criticar a ausência de esforços no impeachment a partir de argumentos dizendo que existem “metas maiores”.

Felipe: (13) Quem foi que pediu “impeachment, mas com moderação”? O que se propõe é a conquista do impeachment como não mais do que uma vitória tática em uma estratégia muito mais abrangente.

Luciano: Bem, estranho. Por é desse grupo de pessoas que estão surgindo discursos com foco em “desistência do impeachment” ou “abandono de toda a classe política”.

Felipe: Também não há aqui nenhuma “invenção de premissas”. Não há sequer premissas. Como a presença do “portanto” no início da frase indica, o que há aqui é uma conclusão – a conclusão de que ao dar atenção demasiada a uma vitória tática e ignorar a estratégia como um todo, não dedicando uma única linha ao day after, eles não poderão contar com vocês após a conquista dessa vitória tática, mas vocês poderão contar com eles até que essa vitória chegue.

Luciano: A ideia de que se ignora uma estratégia maior é uma premissa inventada. Não há fatos para justifica-la. A noção de atenção demasiada à vitória tática mais importante do momento é meramente baseada em concentração de esforços, assunto que vocês jamais trataram adequadamente. O discurso dizendo que “eles não poderão contar com vocês após a conquista dessa vitória tática” é uma mentira deslavada. Por fim, “vocês poderão contar com eles até que essa vitória chegue” não tem correspondência na realidade, pois são vocês que, agora no mesmo tom que os intervencionistas, estão atuando fortemente em fóruns desanimando as pessoas para a batalha política.

Felipe: (14) Por fim, você atribui a mim argumentos que eu nunca usei.

Luciano: Qual?

Felipe: Tudo o que eu apresentei aqui foi um lamento posterior à conclusão apresentada acima. Que você analise um lamento como quem analisa um argumento oferece apenas mais uma evidência de que você tem uma dificuldade imensa em distinguir diferentes tipos de linguagem.

Luciano: Eis o cúmulo de sua desonestidade. Você disse: “O que é uma pena, pois, em uma ação que mire não apenas em uma presidente frágil mas vise mudar o cenário político, toda ajuda — mesmo a de quem não entende muita coisa e nem percebe isso — é bem-vinda.” Isso é claramente uma requisição de esforços em uma direção (dizendo “olhem para a mudança do cenário político”, mas é exatamente este pedido, no momento em que os esforços deveriam estar concentrados em um lugar só, que está sendo criticado). Ao ser contestado diz que “foi um lamento posterior”. E daí diz “tem uma dificuldade imensa em distinguir diferentes tipos de linguagem”. Sabe por que você faz esse teatrinho? Por que é um autoritário, com propostas de tomada de poder indecentes (e que não vão funcionar), e tem que ficar fingindo o tempo todo dizendo “você só entendeu fragmentos”. Mas o resultado está aí: meu argumento continua intacto, em nome de propostas alegadas como “metas maiores”, pessoas da própria direita estão tirando esforço do impeachment, e, exatamente por isso, devem ser questionadas. Isto é um fato do mundo. Dizer que “é só fragmento” ou “só um lamento” não serve para te absolver.

Felipe: Seja como for, resta a você demonstrar que a elaboração de uma estratégia abrangente à qual se integra a tática de obter uma vitória em relação ao impeachment traz algum prejuízo ao sucesso da execução dessa mesma tática.

Luciano: As pesquisas demonstram uma redução de interesse no impeachment. O que era esperado depois do show de ataques que vocês lançaram contra os movimentos. O motivo para isso é básico: agora as pessoas não vão mais para o impeachment como “tudo ou nada”. Mas deveriam.

Felipe: Indo um pouco além você também terá que explicar o motivo pelo qual, após pensarem apenas na vitória tática de longo prazo, os movimentos resolveram voltar atrás e adotar os meios que o Olavo havia sugerido desde o início, complementando a ação política tradicional com ações que a transcendem.

Luciano: Ações não violentas são ações políticas. De onde você tirou que não são? E essas técnicas já eram utilizadas pelos grupos. Na verdade, foram comentadas por lá antes de serem trazidas à tona por Olavo.

Felipe: Terá sido por que eles se deram conta de que o diagnóstico do Olavo estava certo e que eles não irão obter nem uma vitória modesta (o impeachment) se não agirem à luz da estratégia mais abrangente em que essa ação tática está inserida?

Luciano: Ou terá sido que você mais uma vez está inventando história para fingir que “estratégia de longo prazo é aqui”. Foi esse o truque, não? Na época em que começaram a atacar os movimentos, inventou-se a mentira de que “eles não tinham estratégia de longo prazo”, como desculpar para atacar o pedido de impeachment.

Felipe: Curiosamente, aqui, nós voltamos para o ponto de onde começamos: é necessário distinguir os fragmentos do todo; é necessário entender como esses fragmentos se relacionam como o todo e, portanto, compreender como uma ação tática se integra à estratégia.

Luciano: Não, nada de fragmentos. Creio que devemos avaliar tudo que você declarou aqui, e escrutiná-lo. Queiram ou não, pessoas como você devem ir para a arena, e serem avaliadas, em seus discursos, em suas táticas, etc. E esta era a essência de meu argumento, que você mentiu para tentar engabelar o público fingindo que o oponente não entendeu a diferença entre “fragmentos e ideias completas”. Não vou falar por todos do seu grupo, mas se a coisa for nesse nível de desonestidade, é melhor desconfiarmos muito de gente como vocês, pois, com tantas trucagens, as intenções com certezas não são as melhores.

Felipe: Para concluir, eu não diria que ficou mal. Pois, se por um lado, eu demonstrei completamente a sua linha de raciocínio – apoiada em premissas frágeis e falsas –, por outro, um de seus objetivos foi alcançado. O objetivo de expor, por meio do escrutínio cético, um desses sujeitos que prejudicam a derrubada do PT por se meterem a oferecer opiniões sobre assuntos que entendem apenas parcialmente: você.

Luciano: Mas como vemos aqui, você não mostrou onde há falhas de entendimento. Ao contrário, você confirmou tudo que eu havia dizendo: há pessoas que dizem que “impeachment é só um detalhezinho em algo maior” (o que consequentemente vai reduzir impacto sobre esforços para o impeachment) e atuando de maneira organizada, e este é um ponto que devemos lidar. Para alguém que queria expor um oponente como alguém que “não entende”, você deveria ter sido mais cuidadoso. Por não ter sido, permitiu que eu mostrasse que, ao menos no escopo deste debate, eu acertei em cheio.

Felipe: Entendo que perto das suas pretensões de expor o Olavo de Carvalho, o Reinaldo Azevedo e o trio do Antagonista, a exposição de alguém como você não é muita coisa, mas espero que lhe sirva de consolo.

Luciano: Lá vem o truque tradicional (“ui, olha, eles têm mais audiência, então cale-se diante deles”) que só enganaria retardados. Aqui não funciona. Alias, não era essa a minha pretensão. Ela é outra: explicar que quanto mais alguém tem exposição como formador de opinião, mais deve ser escrutinado e relação ao impacto de suas ideias, ou mesmo qualquer tipo de discurso; e se estes discursos (e não adianta dizer “olha, é só fragmento, portanto não pode ser julgado por seu efeito”) geram efeitos em relação a objetivos, este questionamento deve ser ainda maior. Por não repararem nisso, Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, mesmo com todo o potencial que possuem (e abrangência) não geram tantos resultados para o lado de lá, como Paulo Nogueira e Paulo Henrique Amorim geram para o outro lado de cá. Por que lá, qualquer “fragmento” é bem pensado, para gerar efeitos, em UMA DIREÇÃO. Esse é o fato, que dá o centro do meu argumento, que permaneceu intocado por você. Quanto a ser “só fragmento”, eu digo “foda-se”. Na política, ao contrário do que ocorre na filosofia, essa desculpa não cola. Sendo assim, pode ficar com o consolo para você, pois vai precisar.

P.S.: Eu até acho que posso ter sido um pouco injusto com Olavo de Carvalho neste post ao Filipe, mas digamos que o clima de confronto, com o qual a outra parte quis levar o debate resultou nisso. O post Sun Tzu,o dia D e o que a direita deveria ter em mente ao divagar sobre impeachment? explica um pouco. Eu realmente não acho que Olavo arquitete um discurso para esconder intenção de intervenção militar. Acho que minha resposta ao Filipe pode ter dado essa impressão. Mas, como se diz, são “fragmentos”, logo, alguns possíveis excessos contidos no debate podem ser melhor explicitados. Em todo caso, mantenho a integra de minhas refutações ao Filipe, e reconheço que menções à outras partes podem trazer alguns excessos. 
Título, Imagem e Texto: Luciano Henrique, Ceticismo Político, 18-10-2015

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