segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Em defesa da boa Gramática

Um mundo que abandonou o apreço pela regra gramatical é um mundo mais feio, com pensamentos mais confusos, já que a boa escrita é fundamental para nossa compreensão do que é dito.
Rodrigo Constantino

Quando minha amiga e tradutora Márcia Xavier de Brito me mandou de presente o livro Suma Gramatical da Língua Portuguesa, de Carlos Nougué, achei que era algum toque sobre meus eventuais erros gramaticais, normal para quem escreve uns cinco artigos por dia e não é um Reinaldo Azevedo da vida que, apesar de católico, deve ter feito algum pacto com o Diabo para escrever em tanta quantidade com tanta qualidade (de conteúdo e forma).

Mas bastou ler a orelha para perceber que não era nada disso. Em uma época de relativismo exacerbado, tanto estético como moral, alguém com o currículo de Nougué defendendo a importância das regras gramaticais é algo necessário, especialmente num país em que “nós pega os peixe” e “pra mim fazer” já passaram a ser vistos como algo normal, como “apenas diferente”. Sem normas, a língua está perdida, e todo o restante também.

Abaixo, a orelha na íntegra para que o leitor possa tirar as próprias conclusões:

Alguns hoje se empenham com afinco em desacreditar a Gramática, porque, segundo eles, as línguas não necessitam de regras que as constranjam: basta deixar que sigam seu curso, livremente. Mas isso é falso, porque, deixada à deriva, sem regras que a dirijam, a língua seria como as águas de um rio, puro fluxo, ao ponto de não poder falar-se duas vezes como a mesma língua. É parte intrínseca de toda e qualquer língua ter regras; é o dique sem o qual ela fluiria sem nenhuma permanência e os próprios defensores da tese da língua sem regras nem poderiam propor sua tese: simplesmente porque nem sequer haveria nenhuma língua.

As línguas, sim, corrompem-se, mas menos impetuosamente quando, em meio a uma verdadeira civilização universal (ou tendente à universalidade), há a escrita com sua arte própria e especial, a Gramática. Mais ainda, neste último caso podem tender até a grande estabilidade: foi o que se deu com o latim ao tornar-se língua altamente normatizada e ordenada à Ciência e à Sabedoria.

Suma Gramatical da Língua Portuguesa – Gramática Geral e Avançada, de Carlos Nougué, não só reafirma a necessidade imperiosa da Gramática e seu caráter essencialmente normativo, mas aprofunda-se solidamente em seus pressupostos teóricos, a fim de fazer frente eficaz tanto aos numerosos ataques que lhe movem como às próprias debilidades da tradição gramatical. Só o faz, porém, para melhor inserir-se nesta mesma tradição. Segue nisso a palavra do gramático venezuelano Andrés Bello: “A prevenção mais desfavorável […] é a daqueles que julgam que em gramática as definições inadequadas, as classificações malfeitas, os conceitos falsos carecem de inconveniente, desde que, por outro lado, se exponham com fidelidade as regras a que se conforma o bom uso. Eu creio, contudo, que essas duas coisas são inconciliáveis; que o uso não pode expor-se com exatidão e fidelidade senão analisando os princípios verdadeiros que o dirigem, porque uma lógica severa é indispensável requisito de todo e qualquer ensino”.

Como diz o desembargador Ricardo Dip em sua apresentação, a Suma Gramatical da Língua Portuguesa é obra teórico-prática não só de um gramático e professor experiente, “mas também de um filósofo prudente, de alguém acostumado a leituras árduas e que não se deixa abater pelas tempestades periféricas: vai às profundezas, em busca de fundamentos últimos aos quais possa discretamente arrimar sua arte regulativa, a da palavra”.

Eis o currículo do autor:
Carlos Nougué, nascido em 1952 na cidade do Rio de Janeiro, ocupou a cadeira de Língua Portuguesa e a de Tradução Literária durante mais de nove anos numa pós-graduação (UGF). Ministra o curso on-line Para Bem Escrever na Língua Portuguesa, de 60 horas. Lexicógrafo, participou da redação de três dicionários. Tradutor do latim, do francês, do espanhol e do inglês, verteu à nossa língua filósofos como Cícero, Sêneca, Agostinho, Tomás de Aquino, Louis Lavelle e Xavier Zubiri, e literatos como Cervantes, Quevedo e Chesterton. Ganhou o Prêmio Jabuti/93 de Tradução e foi indicado outras duas vezes ao mesmo prêmio, uma delas pela tradução de D. Quixote. Dedica-se agora à escrita de longa obra filosófica, Das Artes do Belo: Imitação e Fim.

Da quarta-capa, temos isso:

Dizia o gramático venezuelano Andrés Bello: “Sendo a língua o meio de que se valem os homens para comunicar uns aos outros quanto sabem, pensam e sentem, não pode ser menos que grande a utilidade da Gramática, já para falar de maneira que se compreenda bem o que dizemos (seja de viva voz, seja por escrito), já para fixar com exatidão o sentido do que outros disseram”.

Esse é o ponto de partida da Suma Gramatical da Língua Portuguesa – Gramática Geral e Avançada, na qual Carlos Nougué, sem descuidar em nada dos pressupostos teóricos da arte da Gramática, reafirma a finalidade desta: ensinar a escrever, a ler e ainda a falar. Isso porém só se consegue mediante a formulação de regras as mais simples e de abrangência o mais ampla possível – o que implica evitar, ainda quanto possível, as exceções.

Esse é o modo de proceder da obra que o leitor tem agora diante dos olhos, e que já faz parte da biblioteca essencial das artes liberais.

Num país repleto de analfabetos funcionais “educados” por pedagogos inspirados no comunista Paulo Freire, torna-se essencial defender o clássico, a regra, a norma, a boa Gramática. O livro está bem ao meu lado para eventuais pesquisas. Dada a quantidade de textos diários que escrevo, não posso garantir sempre a boa qualidade estética, mas ela deve ser sempre a meta a ser alcançada.

Um mundo que abandonou o apreço pela regra gramatical é um mundo mais feio, menos aprazível, com pensamentos mais confusos, já que a boa escrita é fundamental para nossa compreensão do que é dito. E beleza é sempre algo crucial para tornar nossas vidas mais interessantes. 
Título e Texto: Rodrigo Constantino, VEJA, 5-10-2015

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