domingo, 29 de maio de 2016

O colapso moral da esquerda: Freud explica


Gabriel Mithá Ribeiro

As esquerdas persistem em autoidentificações como ‘socialistas’ ou ‘comunistas’ como se Estaline, Mao Tsé-Tung ou Pol Pot não partilhassem essas identidades enquanto praticavam genocídios.

A subjetividade da condição humana dificilmente permite o recurso a adjetivações como ‘superioridade’ e ‘inferioridade’ moral. Ainda assim, o campo político está próximo de justificar tratamento excecional dado o modo altivo com que muitos dos seus agentes invadem a vida de todos nós, destacando-se a hegemonia das esquerdas em atitudes e comportamentos de superioridade moral.

Todavia, com demasiada frequência o correr do tempo evidencia que políticas inspiradas por tal superioridade afastam sociedades, comunidades ou grupos da prosperidade. Uma ordem moral superior que conduz a resultados inversos é ela mesma disfuncional.

Nascidas da necessidade de regular os instintos primários da espécie, as sociedades reinventam-se a partir de ordens morais que funcionam em torno de interditos. Nos primórdios, não matar (o animal totémico que simbolizava o fundador ancestral) e não cometer o incesto (que impunha a exogamia, condição de sobrevivência da espécie). Para Freud, esses terão sido os interditos fundadores do sentido de pertença a uma comunidade.

Entretanto, um longuíssimo processo de transformação histórica foi renovando os significados dos interditos e acrescentando outros, como não violentar a integridade física e psicológica dos indivíduos, nas sociedades sofisticadas extensível à propriedade individual.

Falta um detalhe fundamental. Para Freud, não existiam ordens morais férteis, isto é, comunidades prósperas sem a saliência de sentimentos coletivos de arrependimento, remorso e culpa resultantes do parricídio do fundador. Considerando o valor simbólico desse princípio, uma ordem moral será viável quando existirem sentimentos de culpa pelo destino coletivo interiores a cada sociedade, aos próprios sujeitos.

O decurso posterior do século XX acabaria por abalar as teses freudianas explicitadas em 1912-1913 em ‘Totem e Tabu’. Isso porque a revolução russa de 1917, depois ampliada pelas independências asiáticas e africanas após a segunda guerra mundial (1939-1945) e por um conjunto de processos revolucionários, espoletou um furacão revolucionário que atingiu os fundamentos históricos da ordem moral das sociedades. Tornou-se legítimo que estas também pudessem reinventar o seu destino orientadas por ideais de vitimização.

Por essa razão devemos ao século XX a fragmentação entre um tipo de ordem moral de sentido edipiano-freudiano e um tipo de ordem moral de sentido revolucionário. O primeiro identificado com ideais conservadores em sociedades de secular tradição cristã, o do complexo de culpa. O segundo mais universal e identificado com ideais progressistas, o do princípio da vitimização. Neste caso, os sentimentos de culpa pelo que prejudica sociedades, comunidades ou grupos são remetidos para o que lhes é exógeno: ‘capitalismo’, ‘imperialismo’, ‘ricos’, ‘burgueses’, ‘fascistas’, ‘colonialismo’, ‘brancos’, ‘racismo’, ‘Ocidente’, ‘América’, ‘Bruxelas’, entre outros.

À medida que as poeiras da história assentam ao fim de um século de revoluções, as teses freudianas recuperam fôlego. Tem sido nas ordens morais e sociais de matriz não-edipiana (do ideal de vitimização) que sobressaem com muitíssimo mais frequência fenómenos disruptivos que, não raro, acabam remetidos das periferias para o âmago da vida quotidiana. Nestes casos, o tempo torna bem mais comum os indivíduos viverem expostos à criminalidade, corrupção, crises endémicas, falta de prosperidade, abusos de poder, anomia social ou, no limite, falência do estado. Trata-se de sistemas institucionais ou sociais com forte incapacidade em exorcizar males cuja génese é, sempre e acima de tudo, endógena.

Uma parte da América do Sul e da África do século XXI ameaçam transformar-se em casos extremos de características partilhadas por diversas identidades coletivas.

Nesta perspetiva, as crises atuais resultam de disfunções das ordens morais. Na origem está, insisto, um século XX que legou à condição humana um fardo pesadíssimo, apenas parcialmente suportável. Associa-se ao facto dos referentes fundadores da direita e da esquerda, os seus campos radicais, terem sido responsáveis por muitos milhões mortos. Para Freud, os pais fundadores originários eram necessariamente violentos, razão do parricídio. O detalhe reside, por isso, no modo como, desde o século passado, tem sido gerida a quebra massificada do interdito fundador das ordens morais, não matar, pelas tendências ideológicas de direita e de esquerda que, entretanto, se tornam hegemónicas na regulação da vida social um pouco por todo o mundo.

O modelo comparativo dessa fragmentação é identificável nas atitudes e comportamentos em relação ao seu passado violento, por um lado, dominantes nas gerações alemãs pós-Hitler até à atualidade, considerando que Hitler personificou o mal coletivo alemão (o nazismo representa o extremo da violência radical da direita) e, por outro lado, dominantes nas gerações russas pós-Lenine e sobretudo pós-Estaline até ao presente, também considerando que personificaram a versão russa do mal coletivo (o estalinismo representa o extremo fundador da violência radical de esquerda).

Num caso, foi possível gerar uma ordem moral viável e, como consequência, uma sociedade próspera entre aqueles que de modo persistente, e ao longo de décadas, têm trazido o seu mal para a luz do dia, por muito que os perturbe, sem omitir os mais ínfimos ou sórdidos detalhes. Noutro caso, foi gerada uma ordem moral estéril, incapaz de gerar prosperidade, entre aqueles que nunca assumiram na plenitude a natureza do seu mal e que, em geral, evitam, negam, suavizam, disfarçam, escondem, atiram culpas próprias para terceiros.

Os povos são produto do modo como pensam e regulam o mal endógeno. É o que distingue a Alemanha da Rússia de hoje, mas poderia ser do mundo árabe.

O alemães serão provavelmente o último dos povos onde a violência racial voltará a ser assassina, tal como os portugueses serão o último dos povos onde algo semelhante à violência inquisitorial voltará a matar. Ostensivos e permanentes exorcismos da violência dos próprios contam-se entre as mais importantes pré-condições de prosperidade.

Não por mero acaso, será difícil as direitas retomarem a autoidentificação de ‘nacional-socialistas’ ou ‘nazis’, sintoma de uma relação moral saudável com o passado entre os que aprendem com os seus próprios erros. Em sentido contrário, as esquerdas persistem em autoidentificações como ‘socialistas’ ou ‘comunistas’ como se Estaline, Mao Tsé-Tung, Pol Pot e outros tantos ditadores não partilhassem essas identidades enquanto praticavam genocídios ou escapavam a responsabilidades diretas pela morte de milhões de seres humanos.

Em Portugal, a toxicidade da instrumentalização moral da vitimização é a razão de ser do PCP ou do BE, mas não menos de um PS tratado com imoral condescendência pelos próprios. Freud explica.
Título e Texto: Gabriel Mithá Ribeiro, Observador, 29-5-2016

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