sexta-feira, 22 de julho de 2016

A culpa? Fica para o próximo governo de Passos

Rui Ramos

Demasiada gente entre os mais pessimistas julga que o pior que nos pode acontecer é repetir 2011: novo resgate, o Passos outra vez. É a maior ilusão. O mundo, a Europa e Portugal não são os mesmos.

Durante quatro anos, entre 2011 e 2015, todas as culpas em Portugal foram do governo de Passos Coelho. Sócrates chamou a troika? Não importava: a culpa era de Passos. E agora, dez meses depois, de quem são as culpas? Pois ainda e sempre de Passos. Os bancos estremecem? A comissão europeia ameaça com sanções? É culpa de Passos, por mais que os comissários em Bruxelas expliquem, no caso das sanções, que tudo depende do presente governo tomar as providências necessárias.

A actual coligação de derrotados tem sido um grande sucesso para os accionistas. Salvou o lugar de Costa, resgatou os sindicatos do PCP, e deixou finalmente o BE fazer colocações. Mas no resto? Daquelas que foram as bandeiras das antigas oposições, o que é que ainda flutua nos mastros da maioria? A primeira bandeira era a economia: Passos dera prioridade à consolidação orçamental; as oposições queriam focar tudo no crescimento económico. A segunda bandeira era uma nova relação com a Europa: Passos cultivara a Alemanha; as oposições iam isolar a Alemanha.

Comecemos pela Europa. Na semana passada, em Setúbal, António Costa reconheceu finalmente que o ministro das finanças alemão “não está sozinho”. Pois não está. Quem esteve sozinho, nas reuniões de ministros europeus, foi Mário Centeno. Hollande disse coisas simpáticas? Disse, mas não impediu o procedimento contra Portugal. Os espanhóis fizeram tudo para se distanciarem de Portugal. Luís de Guindos [foto] deu até uma lição sobre as diferenças entre os dois países. Ninguém quer estar sentado no mesmo banco com o governo português.



Costa não gostou nada de ouvir Luís de Guindos. Mas Guindos limitou-se a constatar a evidência: a competitividade e a produtividade portuguesas são demasiado baixas para o país sair de uma estagnação de quinze anos. O Núcleo de Estudos de Conjuntura Económica da Universidade Católica já não espera, para este ano, uma taxa de crescimento do PIB acima de 0,9%. O governo tem outro plano, dissipada a quimera do consumo? Não, o governo só fala da meta do défice, porque é disso que depende o financiamento do BCE. Onde é que já tínhamos visto esta obsessão?

Ontem, constou que Costa estava preocupado. Depois, constou que não estava. Não sei se está ou não. Também não sei se o governo vai conseguir enrolar a Europa. Talvez consiga. Mas o que não vai é tornar Portugal um melhor lugar para trabalhar e investir. E sem isso, tudo se esfumará um dia, quando o BCE acabar com o dinheiro barato. Dir-me-ão: será como em 2011. Passos Coelho terá de vir limpar a casa, e lá ficará outra vez com as culpas. O próprio Passos, no conselho nacional do PSD de quarta-feira, ter-se-ia muito cristãmente conformado com esse destino. Mas acontece que o mundo já não é o mesmo de 2011, a Europa não é a mesma, nem Portugal é o mesmo. A paciência de Passos para fazer o que já fez, como o personagem de Bill Murray em Groundhog Day, pode-nos induzir em erro: o erro dos pessimistas que são optimistas sem o saber

Não esperem muitas repetições da história. Em Portugal, no caso de uma segunda ruptura de crédito, o desespero será muito maior: em 2011, morreram as primeiras ilusões; agora, morreriam as últimas esperanças. Da Europa, talvez venha um segundo resgate, como Schauble já prometeu, mas talvez não: a tendência, que se acentua, é para separar as contas e cada um pagar a sua. No mundo, um presidente Trump, tão improvável como o Brexit, pode mudar muita coisa, a começar pelo preço da defesa dos europeus. Receio bem que da próxima vez, ao contrário da anedota dos economistas, as coisas possam ser mesmo diferentes. 
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 22-7-2016

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