segunda-feira, 20 de março de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Pedinte

Aparecido Raimundo de Souza

1
O sujeito entra no coletivo lotado usando a porta de saída. Traz nas mãos uma caixinha de isopor suja, com algumas moedinhas dentro. Antes de começar a falar, ou melhor, a pedir, chacoalha o recipiente que faz um barulho peculiar de pratinhas se chocando umas com as outras. Dá, então, início ao seu rosário de queixumes. Berra:        

2
“Boa noite, meus caros irmãos. Como podem ver, estou aqui pedindo a ajuda de vocês para comprar alimentos para minha família. Tenho mulher, três filhos menores, a minha do meio, sofre de bronquite asmática crônica e eu não tenho recursos nem condições de chegar na farmácia e comprar os medicamentos que o médico receitou”.

3
“Minha esposa era empregada doméstica, lavava, passava, e cozinhava para um ricaço que morava numa mansão lá pras bandas de Água de Cima. Como moramos longe e não dava para ela ir e voltar todos os dias, ela dormia no emprego. Ontem, coitada, ela foi mandada embora porque o patrão dela, um sujeito safado, pilantra, vinha, há tempos, fazendo ‘proposta indecentes’, dando cantadas e mais cantadas”.

4
“Queria abusar dela de qualquer jeito, e para isso vivia pedindo para minha esposa ser boazinha e se deitar com ele. Em troca, meus irmãos, ele disse que daria dinheiro, roupas e joias. Como minha esposa é crente e temente a Deus, ela veio enrolando o desgraçado. Veio engabelando dia após dia, semana após semana. Sexta-feira agora, o infeliz chegou mais cedo e resolveu passar a ‘carroça adiante dos burro’”.

5
“Aproveitando que a sua mulher ainda não havia chegado da escola, onde leciona inglês, partiu para cima de minha esposa, rasgou as vestes dela, e arrastou a indefesa para um dos banheiros. Minha esposa começou a gritar, e graças a Deus o endemoniado largou dela. Minha querida esposa se ajoelhou e orou”.

6
“No final da oração, meus irmãos, ela disse estas palavras: ‘Vade retro, Satanás’, e, graças ao bom Deus, misericordioso, um milagre aconteceu. O tinhoso passou a mão nas chaves de seu carro e foi pra rua”. 

7
“Quando a patroa chegou, minha esposa relatou o ocorrido, mas, a mulher, disse que ela estava mentindo, acertou os ‘dias trabalhado’ e mandou ela embora. Por isto, meus amados irmãos, ao invés de eu estar roubando, ou assaltando, fumando maconha ou pedra de craque, eu estou aqui pedindo aos irmãos, se Deus tocar no ‘seus coração’ e puder me ajudar com dez, vinte, cinquenta centavos eu ficarei agradecido.  Você que é pai, você que é mãe, sabe como é difícil quando ‘os filho’ da gente pede um pão pra comer e a dispensa está vazia, sem nada”.

8
“Me ajudem, irmãos. Quero deixar um versículo para que meditem e através dele Deus abençoe a vocês e toque seu coração. Provérbios, capítulo 27 versículo 7 diz assim: ‘quem está com o estômago cheio rejeita até o mel; mas, para quem está com fome, até a comida amarga é doce’”.

9
“Obrigado a todos, boa noite a quem ajudou. Que Deus abençoe a quem colaborou e a quem não pode dar nada também, mas me ouviu e mesmo não tendo nada com isso, me prestigiou emprestando ‘seus ouvido’ ao meu clamor”.

10
Agradeceu ao motorista e, pela mesma porta que adentrou no coletivo, saiu. Acompanhei sua figura e percebi que, às carreiras, ingressou no lotação superlotado que vinha logo atrás.


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Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do Sítio ”Shangri-La” – Um lugar perdido no meio do nada. 19-3-2017

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5 comentários:

  1. Parabéns , por essa envolvente narrativa ! Se conto ficcional não o é, daqueles bons , que muito aprazeria o João Antônio ( "Perus, Malagueta e Bacanaço"), é um fiel retrato da realidade cotidiana da urbana cena. ( Marcos Tavares , Vitória-ES)

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  2. Obrigado, amigo Marcos Tavares, pelo seu comentário. Acho que todo escritor gosta de ser lido e lembrado. Faz bem ao ego dele. Alimenta a alma e o deixa feliz, para continuar a jornada. Eu não sou um escritor, apenas um "escrevinhador" e, pior, um "escrevinhador curioso". Dessa forma, suas palavras muito me alegraram. Isso faz com que eu continue na luta. Quem sabe, um dia, consiga alcançar Paulo Coelho, Luiz Fernando Veríssimo, Fernando Sabino e outros mais. Felicidade, alegria, graça e PAZ. Aparecido R. Souza.

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  3. Bem, senhor Aparecido, se o senhor escreve como PAULO BOSTELHO JAMAIS COMPRO UM LIVRO SEU.
    Atá hoje não consigo entender a NOSSA SANTA SENHORA ACADEMIA DE LETRAS ACULTURADAS.
    PERMEADAS E PREMIADAS DE POLÍTICOS, DIPLOMATAS E EX PRESIDENTES.
    MARIO QUINTANA MORREU PRETERIDO POR MUITAS BOSTAS.
    ABRAÇOS

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  4. Paulo Bostelho, amei. Kikikikikikikikikikikikiki. Boa essa. Parabéns,Vander Roccha.

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  5. Senhor Aparecido, coloco aqui algumas de minhas literaturas colecionadas.
    Stephen King
    John Steinbeck
    Norman Mailer
    Sidney Sheldon
    Stephen White
    Irving Wallace
    Agatha Christie
    Aldous Huxley
    Charles Dickens
    Florence Nightingale
    George Orwell
    H. G. Wells
    John Le Carré
    Ken Follett
    Oscar Wilde
    Roger Bacon
    Virginia Woolf
    William Shakespeare
    Robin Cook
    Maurice Duverger morreu em 2014, nenhuma revista política noticiou.
    Ele assim escreveu:
    -O Brasil será uma grande potência no dia em que for uma grande democracia. E só será uma grande democracia no dia em que tiver partidos e um sistema partidário forte e estruturado.
    (Maurice Duverger, em sua visita ao Brasil).


    O sistema político brasileiro é gramscista.
    Uma máquina organizativa e um programa político.
    Aliás todos os partidos políticos brasileiros tem a mesma ideologia e programas políticos.
    Os programas políticos são a CORRUPÇÃO.
    Maquiavel escreveu O PRÍNCIPE.
    Gramsci O MODERNO PRÍNCIPE, adaptando Maquiavel do século XV, ás ideologias socialistas do século XIX.
    Onde O NOVO PRÍCIPE É O PARTIDO SALVADOR DA PÁTRIA.
    curta meu comentário



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