domingo, 2 de abril de 2017

[Aparecido rasga o verbo] O povo com a boca no trombone

Aparecido Raimundo de Souza

O caso da cueca
A estudante Maria Vai Com As Outras, do Alto dos Cogumelos, nos escreve reclamando do elevado número de buracos em sua rua. Diz ela que existe uma cratera tão grande, perto do portão de sua residência, “que, outro dia, seu namorado, ao sair apressado e literalmente pelado (por causa da chegada dos seus futuros sogros), deixou cair a cueca que levava nas mãos, junto com a calça e a camisa. Até agora – continua –, apreensiva, o pessoal da Prefeitura não conseguiu localizar as peças. “Quer saber, dentre outras coisas, se o rapaz tem direito a algum tipo de indenização”.

Resposta: Sim, claro! Inclusive, Maria, segundo nos relatou o ouvidor do bairro, seu namorado pode pleitear que a Prefeitura lhe reembolse, além do montante em dinheiro (referente às peças perdidas), com uma consulta a um médico oculista e, consequentemente, com o aviamento de uns óculos de grau, a fim de que o fato não se repita, e, sobretudo, para que ele possa enxergar melhor os lugares onde pisa. E, veja bem: se ele preferir, a Prefeitura pode providenciar, também, o pagamento das mensalidades, pelo período de um ano, de um sistema de alarme de segurança bastante sofisticado que soará com antecedência de cinco minutos toda vez que seus pais (os sogros dele) estiverem chegando. 

Piolhos a dar com o pau
O ajudante de caminhão João Engole Cobra, do Jardim dos Caixões Sem Alças, furioso, denuncia uma infestação maligna de piolhos na escola onde estuda seu filho mais novo, o Joãozinho Engole Minhoca. Diante desse problema, o cidadão deixa no ar uma pergunta sem resposta: “Que providências tomar, de imediato?”.

Resposta: Fomos procurar a direção da escola e a assistente pedagógica do colégio (que muito educadamente nos recebeu) mandou um recado bastante simples com uma solução fácil de ser seguida. Disse a jovem para que passássemos para seu João o seguinte: que ele corte, ou arranque, a cabeça do filho, e a deixe em casa, de preferência num congelador ou de molho no álcool. Tal medida evitará problemas com piolhos futuros, além do que, ela, assistente de pedagogia, não terá mais que ouvir as lamúrias e as cantadas (notadamente, as cantadas) de um desocupado que, não tendo mais nada a fazer, a não ser encher a cara de cachaça, ficar bêbado de não se aguentar em pé, aparecer depois somente para torrar o saco e a paciência, como se ela não tivesse mais nada a fazer dentro da escola. 

Insuportável
O estagiário em suprimentos de estoques de supermercados Juraci Costa Bigorrilho, do Bairro dos Degolados, reclama do mau cheiro nos fundos do prédio que faz divisa com seu terreno. Diz ele que, naquele local, funciona uma divisão da Delegacia de Homicídios, para onde são levados presos da Justiça para serem submetidos a torturas e sevícias. No auge do desespero, nos pergunta: “O que fazer?”.

Resposta: Caro amigo, diga ao pessoal da tal Divisão de Homicídios que você não se importa nem um pouquinho com o tratamento que eles dispensam aos detentos, porém, que o delegado responsável desove os “presuntos” em lugar mais afastado ou você abrirá a boca e contará tudo à imprensa.

Entupimento
A cabeleireira Filomena Mão Leve, do Ribeirão dos Camundongos, se queixa do entupimento constante de seu lavatório. Diz que já é décima vez que chama o encanador, mas o “problema continua persistindo”.

Resposta: Sugerimos que a senhora troque, urgentemente, de profissional. Da próxima vez, tente contatar um bombeiro hidráulico com uma mangueira que possa ser introduzida no seu lavatório, de preferência que saia direto na caixa de esgoto.

Escuridão
O militar da reserva Pedro Cabeça de Mosquito, do Parque das Oliveiras, solicita a substituição de uma lâmpada de mercúrio queimada, no poste principal da Alameda Psiu.

Resposta: O ouvidor municipal Hélio Deixa Como Está nos informou que a Secretaria de Serviços Urbanos já trocou a referida lâmpada por mais de vinte vezes. A câmera de segurança instalada no local flagrou por diversas vezes um motoqueiro, entregador de pizzas, que, todas as noites, após fazer a entrega nessa alameda, encosta a moto, “trepa” no poste e carrega a lâmpada e, no lugar, ainda deixa um bilhete mal escrito com os seguintes dizeres: “Da próxima vez, seus trouxas, coloquem uma lâmpada mais forte. Mamãe sofre das vistas e as porcarias que tenho levado para casa não estão resolvendo o problema dela”. 

Interurbano
O senhor Cincinato do Amor Magoado, da vizinha cidade dos Cabritos, distante oitenta quilômetros da capital, quer saber por que suas ligações locais “continuam sendo cobradas como se fossem interurbanos feitos para outras localidades?”.

Resposta: A Companhia Telefônica, em nota a nós enviada, esclareceu que, de acordo com uma regulamentação da Anadeuoanel, isso vai continuar acontecendo, até porque, as prestadoras, de um modo geral, precisam arranjar dinheiro para cobrir os rombos enormes deixados por gestões passadas, bem como pagar uma porrada de funcionários fantasmas e garantir a sobrevivência dos diretores atuais. Por assim, a grana tem que sair, custe o que custar dos bolsos de alguém. Nada melhor que venha dos babacas que utilizam os serviços da empresa. 

Medicamentos
O desempregado Armando Em Cima de Alguém, do Jardim dos Anfíbios, reclama da falta de um medicamento nas farmácias de seu bairro. Alega que sua irmã é epiléptica e precisa de um remédio de uso contínuo chamado Lamotrigina, que “está sempre para chegar, mas nunca chega”.

Resposta: O superintendente de Ações de Saúde pede ao Armando que troque sua querida irmã por uma pessoa que sofra de uma doença mais popular, cujo remédio não seja tão difícil de ser encontrado nas prateleiras das drogarias. 

Porcos
O vendedor de cacarecos Jorge Pensa Que Pode, da vizinha cidade de Carapicuíba, reclama de uma criação de porcos sem autorização da saúde pública na Avenida Celeste, onde mora com a família. Diz ele que o “mau cheiro está insuportável. Não sei mais a quem apelar. No chiqueiro também vivem cachorros doentes e gatos cegos”.

Resposta: O Diretor do Departamento de Posturas da Prefeitura de Carapicuiba nos garantiu que irá pessoalmente sentir o “mau cheiro” alegado. Roga, entretanto, que o senhor Jorge aguarde uns dias, até que seu resfriado passe de vez e o nariz volte a respirar normalmente sem a ajuda de descongestionantes. Tão logo esteja com os ditos orifícios nasais em forma, e as vias liberadas, fará uma visita ao local e, se realmente o “mau cheiro” estiver insuportável, notificará, ato contínuo, o proprietário da pocilga para que dê um banho nos animais e procure, com urgência, um oculista especializado em gatos. 

Clandestinos
O operário de máquinas Eliseu Passa Bem, de Santana, denuncia comércios irregulares próximos ao seu condomínio, na Avenida Voluntários da Pátria. “Os ambulantes vendem cigarros e bebidas alcoólicas bem na porta do prédio, o que é proibido por Lei. Além disso, furtam energia elétrica do relógio central da garagem, deixando fios expostos”.

Resposta: O administrador regional de Santana, senhor Tadeu Tadando, nos informou que todos os comerciantes irregulares foram notificados. A fiscalização está fazendo plantão noturno no local. Todavia, parece que existe um fiscal que comanda a área e recebe umas “propinas” por baixo dos panos. A ideia é prendê-lo em flagrante, mas até agora, o espertalhão conseguiu escapar sem ser pego com a boca na botija. Quanto ao problema da iluminação clandestina, o melhor é o cidadão cortar os fios, sem ser visto pelos meliantes. Ou, por outra, contratar um bom eletricista e pedir a ele para arrancar e esconder todos os relógios da caixa de barramento (incluindo o central da garagem), torcendo, claro, como bem observou o senhor Tadeu, para que os demais moradores do prédio não entendam o gesto de maneira errada e acabem lhe cobrindo a cara com uma série de porradas.


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Título e texto: Aparecido Raimundo de Souzajornalista. De Juiz de Fora, nas Minas Gerais, 2-4-2017

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