sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

[Para que servem as borboletas?] A aventura da vida

Valdemar Habitzreuter

Estar vivo significa participar da aventura da vida; vida esta que é um constante devir, um constante fluxo de acontecimentos, um élan criador do novo em que nada se repete. Cavalgamos no lombo da vida e não sabemos com que paisagens ela vai nos surpreender durante nossa existência. É bom estarmos seguros na sela e apreciar tudo o que se nos descortina. Bons e maus bocados, certamente, nos aguardam. Mas, sendo uma aventura, temos que superar os maus bocados com maestria para que a aventura prossiga. Desistir de enfrentar os obstáculos significa entregar-se, negar a vida, soçobrar...

Essa aventura não tem propriamente um destino, um ponto de chegada predeterminado em que possamos nos perguntar: para onde vamos? Não se realça o ‘para onde’, mas sim, o ‘vamos’. O que é relevante é o cavalgar em si, o caminho que se percorre, prestar atenção no passamento do tempo e as novidades que surgem ao sabor do élan da vida com as quais temos de lidar.

A melhor estratégia para participar dessa aventura é equipar-nos da boa vontade e sentir a liberdade no rosto, livres de amarras culturais, sociais, religiosas que, muitas vezes, nos impedem do desfrute da vida em si, se não forem bem avaliados. Devemos adotar a estratégia do easy rider, isto é, sentir-nos leves que nos faculta levitar sobre os buracos negros que querem nos engolir e nos privar da preciosidade da vida.

A vida em si não planeja nada. Ela anima, dá alma às plantas e animais, mas sem um propósito determinado para eles. Se as plantas dão frutos e os animais procriam é tão somente para que haja a continuação da vida e ponto. A vida se manifesta através dos seres vivos. Sem eles não haveria vida. E o mais curioso é que dentre os seres vivos da espécie animal, há um que a vida colocou em destaque: o ser humano com sua inteligência.

Só o homem tem consciência da vida porque foi aquinhoado, no transcurso evolutivo, com a inteligência. É nesse patamar da consciência que o homem verifica que é perpassado por um élan vital assim como todos os seres vivos. É a grande aventura da vida criadora da qual o homem é um produto e participa conscientemente.

Mas, o problema que o homem levanta nesta aventura da vida é que quer direcioná-la a que satisfaça seus interesses. Sua inteligência adquirida, ou melhor dizendo, dada a ele como dom da vida, questiona a indeterminação dos propósitos da vida e julga-se capaz de determinar um destino seguro para ele. Isto é, a vida tem de lhe reservar um porto seguro.

Assim temos que o homem, ao invés de entregar-se alegremente à aventura da vida – viver e deixar rolar –, sente-se inseguro e preocupado com o que lhe pode acontecer. Sabe que a vida lhe reserva um fim – a morte – e isso o angustia e não o quer admitir, quer uma vida eterna. Aventurar-se por aventurar-se com a vida não lhe satisfaz. Ele, como ser inteligente, acha que merece mais do que uma simples aventura: quer a imortalidade, uma sobrevida e um descanso, ou aposentadoria feliz após a morte.

Com a inteligência, pois, nascem a angústia e o medo dos perigos da aventura da vida e é preciso inventar alguma coisa para se safar deles, face à impotência e fragilidade que cercam o homem, como ser vivo, com as doenças, dores e morte que pairam sobre ele. Neste estado de angústia procura, pois, por socorro.

É então que imagina que possa haver um Ser, ou Ente Todo Poderoso, que o proteja e lhe dê forças para superar as mazelas da vida, e que o viver não seja apenas uma aventura, mas, junto com ela, haja um Protetor Todo Poderoso em quem se apoiar e confiar nas súplicas por socorro. E nada melhor, pois, de dedicar-lhe cultos e honrarias para que as súplicas sejam atendidas.

Nascem, assim, as religiões onde se cultua um Ser Todo Poderoso que se torna o Diretor da aventura da vida, ditando prescrições, regulamentos e mandamentos que, doravante, deverão ser observados para afugentar o medo dos perigos e a angústia da morte.

Desde sempre, a religião é um fenômeno humano servindo de auxílio a que os tormentos da inteligência sejam mitigados. As religiões entranharam-se no DNA da humanidade e fazem parte do seu aculturamento, são verdadeiras muletas de apoio com as quais o ser humano se sente mais aliviado em seu caminhar na vida.

Assim como a inteligência inventou mil e um instrumentos para gozar da vida, em nível material, com mais comodidade, assim também inventou, em nível psíquico, a religião e simulou a ligação com um Ser abstrato mais forte do que ele e que possa protegê-lo. Sua imaginação tomou como real essa figura paterna protetora e passou a crer na sua existência, tornando-se, pois, um crente.

No início, pondera o homem, perambulava ele como ignorante, abandonado e aflito por não ter imaginado tal Força Protetora, e assim que a tomou como real estabeleceu uma religação (daí religião) da qual nunca esteve propriamente separado não fosse sua ignorância.

Assim, acha o homem que a aventura da vida se torna mais apreciável e segura ao lhe dar um sentido através da crença num Todo Poderoso que o sustenta e o protege na viagem da vida e, por fim, garantir ‘un finale felice’ no regaço da eternidade – no reino do Todo Poderoso.

Pelo sim pelo não, as religiões estão, grosso modo, mais propícias a fomentar e estabelecer a paz entre os homens do que o seu contrário. O que acha o caro leitor?
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 15-12-2017

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2 comentários:

  1. Realmente Valdemar, é através da religião que encontramos o consolo para o nosso sofrimento e coragem para enfrentarmos as dificuldades da vida. Infeliz de quem não busca ter fé.

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  2. Religião não é tudo. Mais a fé sim. E uma leva a outra.

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