sexta-feira, 11 de maio de 2018

A prancha


Sérgio Barreto Costa

Uma das frases mais fascinantes e ambíguas sobre a política foi cunhada no Brasil há mais de 60 anos. “Rouba, mas faz”, que tinha como destinatário Adhemar de Barros, figura cimeira da governação paulista, foi lançada pelos seus adversários como um ataque aos métodos pouco ortodoxos do influente político; no entanto, numa daquelas deliciosas ironias da vida, a expressão acabou por ser aproveitada pelos apoiantes do próprio como um poderoso slogan de campanha, provando que a opinião pública e as avaliações dos eleitores são lugares ainda mais estranhos do que o amor.

Nos últimos dias, deste lado do Atlântico, destacados elementos do Partido Socialista têm-se destacado, ainda que involuntariamente, na aplicação da máxima brasileira ao legado do ex-primeiro-ministro José Sócrates, alternando entre a “vergonha” que sentem das suas manigâncias (o que roubou) e o “orgulho” que experimentam em relação à sua obra governamental (o que fez). Como acontece muitas vezes quando importamos teorias e conceitos do estrangeiro, há um grande problema nesta adaptação. O “roubou, mas fez” não representa, neste caso, a oposição entre uma coisa má e uma coisa boa; representa, sim, a composição de duas coisas más, sendo a segunda bastante pior do que a primeira.

Se Sócrates tivesse roubado o dobro e feito apenas metade, ter-nos-ia ficado mais em conta. O grande azar do país foi ter tido um PM com aquelas características a utilizar o pensamento de Adhemar em vez de se dedicar a um muito menos cansativo “rouba e não faz”. Imaginem que José Sócrates, em vez de assinar contratos, despachos e decretos, tinha passado a totalidade dos seus anos como chefe do governo a transportar barras de ouro do cofre do Banco de Portugal para o sótão da casa de Carlos Santos Silva. Isso teria significado, na pior das hipóteses, um prejuízo de 12 mil milhões de euros para os contribuintes, valor total das reservas douradas da nação. Para verem o que representou essa obsessão contemporânea com o “deixar obra feita”, só o resgate da troika foi de 78 mil milhões! É mais do que tempo de legislarmos no sentido da proibição do uso de canetas na sala do Conselho de Ministros e no Palacete de São Bento.

Em relação à dúvida do momento – são os partidos todos iguais ou o PS abusa mais do que os outros? –, deixo aqui um episódio que me contaram, verídico como todos os que vos vou transmitindo nos meus textos: 

Uma vez, num clube de natação frequentado por forças partidárias, o diretor do equipamento chamou o Partido Socialista e disse-lhe:

– Caro PS, o senhor vai ser expulso por fazer xixi na piscina.

– Mas, senhor Diretor – respondeu o PS –, todos os partidos fazem!

– Talvez, mas da prancha de saltos você é o único.
Título, Imagem e Texto: Sérgio Barreto Costa, Blasfémias, 11-5-2018

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