sábado, 26 de maio de 2018

Oportunismo partidário e descrença popular

Maria Lucia Victor Barbosa

O oportunismo partidário e a descrença popular com relação aos políticos, não constituem novidade. Apenas se acentuaram e ampliaram atualmente. Porém, nada mudou em essência, como analisei em meu livro O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – A Ética da Malandragem.

Prova disso foi a pesquisa de opinião pública, realizada entre 17 de junho a 16 de julho de 1985, feita pela Toledo & Associados. O relatório da pesquisa concluiu que: “a imagem do político estava desacreditada e vinculada à corrupção, empreguismo, promessas não cumpridas, falta de seriedade e incompetência”. Entre os vários resultados obtidos apareciam os seguintes: 42% dos entrevistados afirmaram não acreditar em políticos e 57% desprezaram o discurso político, seja em palanques, seja na mídia.

Se o desencanto com os políticos vem de longe, os partidos nunca foram levados em conta pelo povo, que voto mesmo é no candidato. Mesmo porque, especialmente de 1986 para cá, o oportunismo partidário, a ausência de qualquer ideologia, princípio ou disciplina por parte dos partidos políticos, só fez aumentar. E se nossos partidos não podem deixar de guardar as características brasileiras como o predomínio do jeitinho tão conhecido, esses clubes de interesses fazem lembrar o tipo catch-all-parties ou partidos agarra-tudo, surgidos na Europa na década de sessenta. Essas agremiações tinham como objetivo captar o máximo de votos, atraindo eleitores diversos ou até contraditórios, não assumiam uma ideologia precisa e eram dirigidos por grupos que não saíam das bases.

Tal evolução, que transformou os partidos de massa europeus em partidos agarra-tudo, na Inglaterra atingiu, inclusive, o Labour Party.  Para enfrentar os conservadores, este partido originalmente operário penetrou nos meios sociais mais diversos e hoje sua clientela eleitoral apresenta caráter heterogêneo, com defecção de parte dos trabalhadores, apoio das classes médias e adesão crescente de quadros intelectuais. Traços que lembram o PT, exceto pelo nível de corrupção e oportunismo em que mergulhou esse partido, apresentado no passado como ideológico e representante da pureza das massas operárias, mas que na realidade é um misto de máfia e seita.

O impeachment de Dilma Rousseff, preposta de Lula na presidência da República, foi obra de milhões de brasileiros que foram às ruas gritar: “fora Dilma”, “fora Lula”, fora PT”. De lá para cá, o enfraquecimento do PT se tornou evidente em vários momentos, inclusive, nas eleições municipais quando os petistas perderam mais de 60% de suas prefeituras. E esse enfraquecimento atingiu seu auge com a prisão do chefe e puxador de votos, Lula da Silva. Algo impensável há pouco tempo atrás e que se deu graças a coragem e a competência do juiz Sérgio Moro, o qual foi seguido por alguns magistrados honrados e eficientes, de outras instâncias judiciais.

Perdidos e aturdidos, os petistas buscam soluções mirabolantes e um tanto ridículas. Achincalham e ameaçam a Justiça, enquanto os advogados de Lula da Silva fazem infindáveis apelações ao Poder Judiciário.

Frustrados em suas tentativas de libertar o chefe, o PT humilha-se diante de Ciro Gomes, tido como de esquerda, porque no Brasil é chique ser de esquerda. Nem o PDT nem Ciro Gomes são de esquerda. Aliás, o próprio PT, na definição do cientista político Leôncio Martins Rodrigues, “é uma joint venture marxista-cristã, resultante de várias correntes ideológicas, delas a católica e a marxista as mais importantes”.
Quanto a Ciro Gomes, usa palavreado contundentes, tem atitudes grosseiras, cita dados inconsistentes, faz agrados à dita esquerda requentada e ao mercado, quer um vice magnata. Nesses aspectos, o populista Gomes veste a fantasia modelo Lula e por isso foi procurado pelo PT, não por ser de esquerda, mas por fazer tipo que lembra o encarcerado.

Diversificando, petistas e artistas dos mais devotos, incluindo o irmão leigo, Frei Betto, assinaram manifesto de apoio à candidatura de Guilherme Boulos e sua vice Sônia Guajajara, algo que aparentemente contraria a afirmação transmitida pelo encarcerado e inelegível Lula, de que o candidato é ele.

Boulos, ao que tudo indica até agora, apresenta como plataforma eleitoral para resolver os complexos problemas brasileiros a invasão de imóveis, algo bastante rendoso para os espertos que lideram também esse negócio, como se viu quando recentemente desabou um prédio em São Paulo onde viviam os chamados sem-teto sob a férrea disciplina de um mandante.  De qualquer modo, se o povo descrê dos partidos e dos políticos, existe uma crença que é a mais forte: a esperança. Quem conseguir transmiti-la, vencerá.
Título e Texto: Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga. 26-5-2018

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