quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Show me!

Uma coisa é vencer uma eleição. Outra, muito diferente, é tomar o poder

Na democracia, o poder não pertence a quem governa. Pertence ao povo. Os governantes apenas o exercem, temporariamente, por delegação da vontade popular.

E toda delegação exige prestação de contas.

A história ensina que nem toda ruptura democrática chega acompanhada de tanques nas ruas, soldados armados ou generais anunciando a queda de um governo.

O poder também pode ser usurpado silenciosamente, pela manipulação das instituições, pelo desrespeito às regras ou pela supressão da vontade popular.

Mas suspeitar não é provar. E questionar não é acusar.

A democracia deve ser suficientemente sólida para conviver com perguntas e suficientemente transparente para respondê-las.

Ao acompanhar as eleições americanas, voltei a refletir sobre os diferentes sistemas de votação.

Nos Estados Unidos, não existe um modelo único. Cada estado estabelece suas regras e escolhe os equipamentos utilizados.

Há eleitores que preenchem cédulas de papel, posteriormente contabilizadas por leitores eletrônicos. Outros utilizam máquinas nas quais fazem suas escolhas numa tela, com a produção de um registro físico do voto. Existe ainda a votação por correspondência, mediante cédulas de papel submetidas a procedimentos de verificação e contagem.

Nas eleições de 2024, segundo a Comissão de Assistência Eleitoral americana, mais de 98% das jurisdições eleitorais utilizaram sistemas com registros físicos dos votos.

Não significa que o sistema americano seja perfeito. Nenhum sistema concebido pelo homem está imune a erros, falhas ou tentativas de manipulação.

Mas existe ali uma escolha relevante: preservar evidências físicas que permitam confrontar, quando necessário, a contagem eletrônica com os votos registrados.

No Brasil, seguimos outro caminho.

Adotamos urnas eletrônicas que não produzem comprovantes físicos individuais dos votos. Existem boletins de urna, registros digitais, testes de integridade, fiscalização por entidades habilitadas e procedimentos de auditoria.

São instrumentos importantes, que não devem ser ignorados.

Mas permanece uma diferença fundamental: uma coisa é verificar registros e procedimentos eletrônicos; outra é poder confrontar os resultados com registros físicos individuais, preservados independentemente do sistema de contagem.

Qual modelo oferece maiores possibilidades de verificação? Quais são as vantagens e limitações de cada um?

Por que não discutir essas questões sem transformar o debate técnico numa guerra ideológica?

A tecnologia deve servir à democracia. Nunca se transformar num dogma acima de qualquer questionamento.

Lembro-me de auditorias internacionais independentes das quais participei.

Quando alguém afirmava que determinado procedimento estava sendo cumprido, o auditor fazia uma pergunta curta, quase desconcertante:

— Show me!

Mostre-me.

Não bastava assegurar que tudo estava correto. Era necessário apresentar documentos, registros e evidências.

O auditor não procurava culpados. Procurava comprovações.

Aprendi que a confiança é importante, mas a possibilidade de verificação é indispensável.

Essa lição vale para empresas, governos, tribunais e eleições.

Não afirmo que as eleições brasileiras tenham sido fraudadas. Não disponho de provas para sustentar semelhante acusação.

Mas também não considero que questionar procedimentos eleitorais, dentro da legalidade, constitua uma ameaça à democracia.

Pelo contrário.

Quantos eleitores votaram após as 17 horas? Quantos já estavam nas filas? Quais foram os fundamentos e os efeitos de eventuais decisões excepcionais sobre o encerramento da votação?

Qual o percentual de eleitores identificados sem biometria? Quais procedimentos asseguraram sua identificação?

Quem fiscalizou os sistemas de totalização? Quais documentos permitem conferir os resultados?

Como os boletins de urna explicam a evolução dos votos atribuídos aos candidatos durante a apuração?

E qual é o alcance efetivo das auditorias independentes realizadas?

Essas perguntas não demonstram fraude. Pedem respostas verificáveis.

Uma variação expressiva na totalização pode decorrer simplesmente da ordem de processamento dos votos. Números surpreendentes não são necessariamente irregulares.

É justamente para separar a suspeita da evidência que existem auditorias.

A diferença entre uma convicção e uma prova é que a primeira pertence a quem acredita. A segunda precisa resistir ao exame de quem duvida.

Há uma antiga máxima atribuída à tradição romana: à mulher de César não basta ser honesta. É preciso também parecer honesta.

Com as instituições acontece algo semelhante.

Não basta proclamar a lisura de um processo. É necessário oferecer meios para demonstrá-la.

Uma eleição não é um procedimento administrativo qualquer. É a manifestação da soberania popular.

Quem perdeu tem o dever de respeitar resultados legitimamente apurados. Quem venceu não adquire, com a vitória, imunidade a questionamentos.

A legitimidade não é propriedade do vencedor. É uma exigência da democracia.

A existência de mecanismos de auditoria não encerra o debate sobre sua suficiência. Assim como a ausência de um registro físico individual não constitui, por si só, prova de irregularidade.

O que importa é saber se os mecanismos disponíveis oferecem condições efetivas de fiscalização, verificação e responsabilização.

A confiança pública não deveria depender de simpatias partidárias, da reputação de autoridades ou da disposição dos cidadãos para acreditar.

Deveria nascer das evidências.

Porque a verdade não muda de lado quando muda o vencedor.

E a transparência que exigimos dos adversários deve ser a mesma que aceitamos quando vencem aqueles em quem votamos.

Essa é uma das maiores dificuldades da democracia: defender princípios mesmo quando contrariam nossas preferências.

Não precisamos concordar sobre candidatos, partidos ou governos.

Precisamos concordar que nenhum deles está acima do direito de perguntar.

Volto, então, àquela expressão que ouvi tantas vezes nas auditorias internacionais.

Duas palavras que dispensam discursos inflamados, acusações precipitadas e declarações de fé nas instituições.

Show me!

Mostre-me.

Não para alimentar suspeitas sem fundamento, mas para permitir que os fatos prevaleçam sobre elas.

Não para deslegitimar a democracia, mas para fortalecê-la.

Porque, numa democracia, o poder pertence ao povo.

E quem exerce o poder não deveria se incomodar quando seu verdadeiro dono pede para conferir as contas.

A democracia não se enfraquece quando precisa demonstrar sua legitimidade. Enfraquece quando a confiança pretende substituir a prova.

Uma coisa é vencer uma eleição. Outra, muito diferente, é tomar o poder.

Na democracia, o poder não pertence a quem governa. Pertence ao povo. Os governantes apenas o exercem, temporariamente, por delegação da vontade popular.

E toda delegação exige prestação de contas.

A história ensina que nem toda ruptura democrática chega acompanhada de tanques nas ruas, soldados armados ou generais anunciando a queda de um governo.

O poder também pode ser usurpado silenciosamente, pela manipulação das instituições, pelo desrespeito às regras ou pela supressão da vontade popular.

Suspeitar não é provar. E questionar não é acusar.

A democracia deve ser suficientemente sólida para conviver com perguntas e suficientemente transparente para respondê-las.

Ao acompanhar as eleições americanas, voltei a refletir sobre os diferentes sistemas de votação.

Nos Estados Unidos, não existe um modelo único. Cada estado estabelece suas regras e escolhe os equipamentos utilizados.

Há eleitores que preenchem cédulas de papel, posteriormente contabilizadas por leitores eletrônicos. Outros utilizam máquinas nas quais fazem suas escolhas numa tela, com a produção de um registro físico do voto. Existe ainda a votação por correspondência, mediante cédulas de papel submetidas a procedimentos de verificação e contagem.

Nas eleições de 2024, segundo a Comissão de Assistência Eleitoral americana, mais de 98% das jurisdições eleitorais utilizaram sistemas com registros físicos dos votos.

Não significa que o sistema americano seja perfeito. Nenhum sistema concebido pelo homem está imune a erros, falhas ou tentativas de manipulação.

Existe  ali uma escolha relevante: preservar evidências físicas que permitam confrontar, quando necessário, a contagem eletrônica com os votos registrados.

No Brasil, seguimos outro caminho.

Adotamos urnas eletrônicas que não produzem comprovantes físicos individuais dos votos. Existem boletins de urna, registros digitais, testes de integridade, fiscalização por entidades habilitadas e procedimentos de auditoria.

São instrumentos importantes, que não devem ser ignorados.

Mas permanece uma diferença fundamental: uma coisa é verificar registros e procedimentos eletrônicos; outra é poder confrontar os resultados com registros físicos individuais, preservados independentemente do sistema de contagem.

Qual modelo oferece maiores possibilidades de verificação? Quais são as vantagens e limitações de cada um?

Por que não discutir essas questões sem transformar o debate técnico numa guerra ideológica?

A tecnologia deve servir à democracia. Nunca se transformar num dogma acima de qualquer questionamento.

Lembro-me de auditorias internacionais independentes das quais participei.

Quando alguém afirmava que determinado procedimento estava sendo cumprido, o auditor fazia uma pergunta curta, quase desconcertante:

— Show me!

Mostre-me.

Não bastava assegurar que tudo estava correto. Era necessário apresentar documentos, registros e evidências.

O auditor não procurava culpados. Procurava comprovações.

Aprendi que a confiança é importante, mas a possibilidade de verificação é indispensável.

Essa lição vale para empresas, governos, tribunais e eleições.

Não afirmo que as eleições brasileiras tenham sido fraudadas. Não disponho de provas para sustentar semelhante acusação.

Também não considero que questionar procedimentos eleitorais, dentro da legalidade, constitua uma ameaça à democracia.

Pelo contrário.

Quantos eleitores votaram após as 17 horas? Quantos já estavam nas filas? Quais foram os fundamentos e os efeitos de eventuais decisões excepcionais sobre o encerramento da votação?

Qual o percentual de eleitores identificados sem biometria? Quais procedimentos asseguraram sua identificação?

Quem fiscalizou os sistemas de totalização? Quais documentos permitem conferir os resultados?

Como os boletins de urna explicam a evolução dos votos atribuídos aos candidatos durante a apuração?

E qual é o alcance efetivo das auditorias independentes realizadas?

Essas perguntas não demonstram fraude. Pedem respostas verificáveis.

Uma variação expressiva na totalização pode decorrer simplesmente da ordem de processamento dos votos. Números surpreendentes não são necessariamente irregulares.

É justamente para separar a suspeita da evidência que existem auditorias.

A diferença entre uma convicção e uma prova é que a primeira pertence a quem acredita. A segunda precisa resistir ao exame de quem duvida.

Há uma antiga máxima atribuída à tradição romana: à mulher de César não basta ser honesta. É preciso também parecer honesta.

Com as instituições acontece algo semelhante.

Não basta proclamar a lisura de um processo. É necessário oferecer meios para demonstrá-la.

Uma eleição não é um procedimento administrativo qualquer. É a manifestação da soberania popular.

Quem perdeu tem o dever de respeitar resultados legitimamente apurados. Quem venceu não adquire, com a vitória, imunidade a questionamentos.

A legitimidade não é propriedade do vencedor. É uma exigência da democracia.

A existência de mecanismos de auditoria não encerra o debate sobre sua suficiência. Assim como a ausência de um registro físico individual não constitui, por si só, prova de irregularidade.

O que importa é saber se os mecanismos disponíveis oferecem condições efetivas de fiscalização, verificação e responsabilização.

A confiança pública não deveria depender de simpatias partidárias, da reputação de autoridades ou da disposição dos cidadãos para acreditar.

Deveria nascer das evidências.

Porque a verdade não muda de lado quando muda o vencedor.

E a transparência que exigimos dos adversários deve ser a mesma que aceitamos quando vencem aqueles em quem votamos.

Essa é uma das maiores dificuldades da democracia: defender princípios mesmo quando contrariam nossas preferências.

Não precisamos concordar sobre candidatos, partidos ou governos.

Precisamos concordar que nenhum deles está acima do direito de perguntar.

Volto, então, àquela expressão que ouvi tantas vezes nas auditorias internacionais.

Duas palavras que dispensam discursos inflamados, acusações precipitadas e declarações de fé nas instituições.

Show me!

Mostre-me.

Não para alimentar suspeitas sem fundamento, mas para permitir que os fatos prevaleçam sobre elas.

Não para deslegitimar a democracia, mas para fortalecê-la.

Porque, numa democracia, o poder pertence ao povo.

E quem exerce o poder não deveria se incomodar quando seu verdadeiro dono pede para conferir as contas.

A democracia não se enfraquece quando precisa demonstrar sua legitimidade. Enfraquece quando a confiança pretende substituir a prova.

Título e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 4-11-2026, 8h38

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