terça-feira, 3 de novembro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Os dois bancos e a passageira de tirar o fôlego

Aparecido Raimundo de Souza

DENTRO DO ÔNIBUS, naquele vaivém de gente subindo e descendo, atrelado ao barulho ensurdecedor, havia dois bancos que seguiam lado a lado. Um à direita, outro à esquerda. Sempre ali, calmos, firmes, cumprindo seus ofícios de receberem quem cansava os esqueletos e os pés. Até que numa das muitas paradas, subiu aquela preciosidade de tirar o fôlego.

A beldade se aprochegou vagarosamente despreocupada, acondicionada num vestidinho curto de verão, um tecido de natureza leve que dançava ao ritmo de seus passos. A jovem não fazia mal nenhum, não buscava provocar, apenas vinha, como qualquer outra pessoa, indo para onde precisava. Assim que ela pisou os primeiros passos após a roleta, o silêncio do ônibus se mexeu. E dois bancos começaram a sussurrar entre si.

— Ela senta aqui! — insistiu o da direita, todo prosa.  Olha como ela é delicada. Merece um cantinho bom, perto aqui da janela, pra sentir o vento... nas partes salientes... e na hora de descer...

— Não, seu desmilinguido. Aqui é melhor! — rebateu o da esquerda, meio ruidoso.  Do meu lado, ela ficará mais perto da terceira porta e obviamente mais fácil pra se locomover quando precisar deixar o recinto. Ela deve estar cansada. Olhe para o rostinho dela.

E foi assim, baixinho, mas teimoso, que a briga entre esses dois “sentadores de um coletivo” começou. Um dizendo que o seu assento era mais confortável, o outro observando que o seu se fazia mais seguro. Um elogiando a luz do sol que batia ali, o outro garantindo que ao seu lado, havia mais espaço. Enquanto isso, a jovem passageira parada, com a mão na bolsa, tentava guardar a carteira com o passe, ao tempo em que se segurava, como podia, ao arrepio em que a condução seguia a sua rota fazendo curvas e freando abruptamente diante de um trânsito caótico.  Olhando de um lado para outro, se segurando espavorida, se fazia a preciosa desatenta, sem saber onde se acomodar, mantendo, todavia, um sorriso tímido nos lábios bem torneados.

A verdade é que nenhum dos dois admitia: não era apenas sobre oferecer um lugar seguro. A coisa se fundava na admiração tola e genuína de quem se enamora e fica de queixo caído com a beleza indescritível de uma mulher de porte elegante, não sabendo muito bem (exatamente por serem  míseros bancos), como lidar com toda aquela venustidade primorosa. Queriam ambos, ser úteis, almejavam ser, obviamente, os escolhidos, mas no exagero da disputa que se fazia acirrada, quase esqueciam de ser um bocadinho ajuizado e acolhedores.

Foi então que a diva sorriu matreira para si mesma, e em seguida para a visão benfazeja dos dois bancos ainda vazios. Se acomodou... bem, na verdade, a deusa preferiu se sentar precisamente naquele banco destinado aos cadeirantes. Os dois bancos, envergonhados, mas felizes, se aquietaram. Compreenderam, finalmente, que o melhor não se consubstanciava em ser o lugar escolhido, mas sim, servir aquela deusa juntos, e em paz.

Durante toda a viagem, ninguém mais brigou. O ônibus seguiu seu caminho, e o vestidinho de verão da prestimosa balançando suavemente. Vez em quando esvoaçava a parte da frente, deixando ver os fundilhos do seu “eu” oculto sob um nylon pecaminoso e não só isso, mostrando escabrosamente os prodigiosos e avultosos desejos que deveriam ficar comportados, sem saber, todavia, que acabara dando início a uma guerra entre dois velhos amigos rabugentos que apenas se esqueceram de como dividir um momento tão elegantemente acolhedor.

— Aqui! Ela senta aqui, com certeza! — disse o Banco da Direita, todo cheio de si. — Olha que espaço gostoso, encosta bem na janela, sem contar que o vento malicioso entra gostoso. É o melhor lugar dessa geringonça caindo aos pedaços!

— Que nada, seu velho gagá. O melhor é aqui! — cortou o Banco da Esquerda, impaciente. Espia! Se ela se acomodar aqui, ficará mais perto da porta e não precisará se espremer pra descer. E o assento, diga-se de passagem, é mais largo. Ela vai ficar mais à vontade!

— Largo? O meu é mais macio! Olha que encosto perfeito pra descansar as costas dessa gatinha. Você não sabe o que diz!

— Eu não sei? Há anos recebo as pessoas mais cansadas que existem. Elas sempre escolhem a mim!

— Hoje não, hoje é diferente. Olha só como ela está acomodada.  Tão leve, tão suave, como uma Cinderela. Precisa essa encantada de um cantinho iluminado como o meu. O sol vem bater nela suavemente!

— Sol?

— Aqui! Senta aqui! — berrou o Banco da Direita, e o fez tão alto que até o motorista olhou pelo retrovisor.

— Eu sou o rei dos bumbuns cansados! Aqui não tem balanços que te joguem pra lado nenhum!

— Cale a boca, seu exagerado! — esbravejou o Banco da Esquerda, rangendo os parafusos de raiva.

— Ela não vai se acomodar perto de você, sua estrutura balança mais que que geleia em dia de terremoto!

— Eu balanço? Você é tão duro que até um osso ficaria confuso e pensaria: “Não, O chão é mais macio”!

— Melhor ser duro do que ser você — que todo mundo senta e logo pula pra fora como se tivesse sentado numa formigueira cheia de baratas...!

— Formigueria? O certo seria barateira, ou barataria, seu cego dos ouvidos e sem a luz intermitente do coração. Pelo menos eu tenho encosto decente! O seu apoiador de nuca é tão inclinado, tão inclinado que as pessoas saem com a impressão que ao irem embora bateram com as suas cabeças no teto de tão pouco apoio que o seu desmilinguido oferece!

O pedaço apaixonante do pecado olhou de um para outro, cruzou os braços e disse, num sorriso estonteante de fechar qualquer boca que dissesse um “ai” no intuito de reclamar:

— Com licença..., mas vocês acham que eu sou tão grande assim que preciso dos DOIS? Ou tão pesada que um só lugarzinho não me aguentaria? Relaxem, eu não vou partir nenhum de vocês em pedacinhos! E se continuarem gritando, eu sento é no CHÃO, tá? E daí nenhum dos dois ganhará nada! Se acalmem. Fiquem frios...

Os dois bancos se quedaram mudos, estatelados de vergonha e espanto. Só se ouviu na sequência pequenos rangidos de metais envergonhados. E ela, sorrindo brejeira, se levantou e sentou com tudo, se esparramando no assento dos idosos. De forma que metade se fez de um lado, e metade do outro. E os dois bancos passaram a viagem inteira sussurrando baixinho, sem coragem de brigar mais de jeito nenhum!

— Aqui! Senta, aqui, rainha dos BANCOS INFELIZES!  — berrou novamente numa derradeira tentativa, o Banco da direita, rangendo tudo:

— EU SOU TÃO CONFORTÁVEL QUE ATÉ UM REI TROCARIA O SEU TRONO POR MIM!

O Banco da esquerda não deixou por menos. Protestou além da conta: 

— TRONO? VOCÊ É TÃO TORTO E DESMILINGUIDO QUE UMA MINHOCA OLHARIA PRA VOCÊ E DIRIA: "NÃO, OBRIGADA, EU PREFIRO ANDAR RETA!” — “AQUI SIM! ENCOSTO PERFEITO! NINGUÉM JÁ SAIU DAQUI COM DORES NAS COSTAS... NA VERDADE, NINGUÉM JÁ FICOU TEMPO SUFICIENTE PRA SENTIR DOR, PORQUE TODO MUNDO CORRE PRO MEU LADO!

— CORRE PRO SEU LADO? SÓ SE APRESSAM ESPAVORIDOS LOGO DEPOIS, PORQUE TÊM MEDO DE CAIR DE TÃO DURO QUE VOCÊ É! SE ALGUEM DORMIR EM ENCOSTADA EM VOCÊ, ACORDARÁ COM MAIS DORES NO ESQUELETO DO QUE AQUELE QUE PASSOU A NOITE INTEIRA DANÇANDO FORRO SEM MÚSICA NAS ESQUINAS DA NOSSA SENHORA DE COPACABANA COM A SÁ FERREIRA!

— AINDA ASSIM MELHOR DO QUE VOCÊ, QUE BALANÇA TANTO QUE PARECE QUE ESTÁ DANÇANDO AXÉ DE MACUMBA SEM MÚSICA NA PRAIA DE COPACABANA!  A PESSOA SENTA E LOGO DEPOIS SAI CAMBALEANDO IGUAL A QUEM ACABOU DE APRENDER A ANDAR DE BICICLETA DE UMA RODA SÓ DEPOIS DE APRENDER A ANDAR DE BICICLETA DE UMA RODA SÓ E SAIR PEDALANDO DA PRAÇA QUINZE!

— EXAGERADO! EU SOU FIRME!

— FIRME? VOCÊ RANGE TANTO QUE PARECE QUE ESTÁ RINDO, OU MELHOR, LATINDO DE TODO MUNDO QUE SENTA EM VOCÊ. "AU, AU, AU" — A PESSOA NÃO CONEGUE NEM RESPIRAR SEM VOCÊ FAZER BARULHO!

— PELO MENOS EU NÃO SOU TÃO FRIO QUE A PESSOA SENTA AQUI E ACHA QUE POR UM MOMENTO ESQUECEU O CASADO EM CASA!

A moça olhou para os dois, abriu bem os olhos e disse, sem perder a elegância da pose impecável:

— Com licença, meus caros... vocês acham que eu sou uma mala sem alça pra ter que escolher o melhor porta-malas? Ou uma rainha de um reinado distante que careça de DOIS tronos ao mesmo tempo? Se continuarem assim, eu despulo a roleta e sento é no colo do motorista! E aí nenhum dos dois ganhará nada! Beleza?

Os dois bancos ficaram quietos, calados, engoliram de uma vez a vergonha que se fazia vertiginosamente danada. O da Direita sussurrou baixinho:

 — Miau, miau, “miauuuu...".

E o da Esquerda respondeu, também baixinho:

— "Cocorococó...” deixa mano. Deixa como está. Fica em silêncio e não passe mais vergonha. A fofura birrenta em carne e osso acabou de fazer a sua escolha...”.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Governador Valadares, MG, 3-11-2026 

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Simplesmente Samária

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