quarta-feira, 25 de março de 2015

Macroscópio – Será que, finalmente, há mesmo boas notícias do lado da economia?

Cartoon da Spectator

José Manuel Fernandes
O Presidente da República surpreendeu muita gente quando, a semana passada, falou de um crescimento económico de 2% em 2015. Isto quando as previsões que sustentam o Orçamento do Estado são mais baixas, 1,5%, e ainda há poucos meses toda a oposição e muitos comentadores consideravam essa previsão irrealista. Hoje o Banco de Portugal veiofalar de 1,7% de crescimento, isto quando há apenas três meses a sua estimativa se ficava pelos 1,1%.

Poucas horas antes de o nosso banco central divulgar esta sua previsão mais positiva, o Financial Times publicava uma análise com um título francamente optimista: Eurozone recovery signs grow stronger. Depois de tantos anos a ouvir falar de depressão e mais depressão, será que as previsões dos economistas vão bater certo desta vez? Para o FT essa recuperação assenta em três pilares: 1. A surge in new orders, isto é, a indústria europeia está a receber mais encomendas; 2. The weaker euro is helping, ou seja, a desvalorização do euro está, como se previa, a tornar as exportações da zona euro mais competitivas; 3. Businesses are hiring again, o que porém não significa que os níveis de desemprego caiam rapidamente (a média da zona euro ainda está nos 11,2%). Mais, nota o FT: Mario Draghi has credited the weaker currency, as well as plunging oil prices and the European Central Bank’s landmark quantitative easing programme, for the pick-up in growth in the region. The PMIs support the ECB president’s case.

Acontece porém que nem tudo são rosas. O mesmo Financial Times escrevia na segunda-feira que Double digit unemployment predicted even if eurozone recovers. De facto, “According to estimates published earlier this month but which did not attract attention at the time, ECB economists believe 9.9 per cent of the labour market will still be without work by the end of 2017 — the point at which the central bank expects the region’s cyclical recovery to be complete.”

Há contudo um país onde a evolução do mercado de emprego não está a ser tão anémica. Só que esse país não faz parte da zona euro, é o Reino Unido. Fraser Nelson explica na Spectator, num artigo que de alguma forma é crítico da estratégia dos conservadores, o que se está a passar - A jobs miracle is happening in Britain, thanks to tax cuts. Why don't the Tories say so? Deixemos de lado o debate político interno, que se inscreve na campanha eleitoral em curso, e comecemos por alguns factos: “There are 30.9 million of us in work, the most ever. That’s an employment ratio of 73.3 per cent, the highest in history. Employment is up by 1.7 million since Cameron took power and 1.5 million of these jobs are full-time. The number on Jobseekers Allowance fell by 30 per cent last year alone and the youth claimant count stands at its lowest since the 1970s.” Isto apesar da austeridade e dos cortes que implicaram a dispensa de 500 mil funcionários públicos. Razões? Eis uma delas, na opinião deste cronista: “Much of the jobs boom is to do with income tax cuts, or raising the starting rate of tax — from £6,475 to £10,600 over the past five years — a Liberal Democrat policy that ended up meaning that work pays more. Crucially, these tax cuts have made low-paid work much more attractive. The take-home pay of a minimum-wage worker has risen by about 20 per cent over the past five years, twice as fast as the average salary.”


Mas há mais bons exemplos na Europa. É isso que defendem Sami Mahroum e Elif Bascavusoglu-Moreau, ambos do INSEAD, ao equacionarem, num texto para o Project Syndicate, o mais delicado dos temas: Is Jobless Growth Inevitable? O seu ponto de partida é o de saber se em sociedades onde a inovação tem permitido que cada vez mais trabalho que era feito por seres humanos esteja a ser feito por máquinas, ainda é possível criar o número suficiente de empregos, hoje e no futuro. Defendem que sim, usando um exemplo concreto, o da Holanda. Eis como começam a sua argumentação:
The Netherlands seems to be undergoing a sort of industrial revolution in reverse, with jobs moving from factories to homes. The Dutch labor market has the highest concentration of part-time and freelance workers in Europe, with nearly 50% of all Dutch workers, and 
62% of young workers, engaged in part-time employment – a luxury afforded to them by the country’s relatively high hourly wages.

Mas como nem todos os países europeus são como a Holanda ou o Reino Unido no que respeita ao funcionamento dos seus mercados de trabalho, o problema mantém-se. Mais, como argumenta Gideon Rachman no Financial Times, Growth alone will not stabilise Europe. O que ele defende é que a erosão eleitoral dos partidos moderados pode não ser uma consequência natural da recuperação económica. Eis uma breve passagem do seu argumento: “A depression, or a very prolonged recession, does more than create economic hardship. It also serves to discredit mainstream ideologies and to whip up anger against political elites — and those effects can last well beyond the point where the economic figures show some improvement.”

De facto a fúria – ou o mero desapontamento – relativamente às actuais elites pode durar muito para lá de a recuperação económica se tornar mesmo palpável e sentida pelas populações. Basta recordar que quando Hitler chegou ao poder, em 1932, já a recessão alemã tinha passado e o país estava de novo a crescer. O que significa que os partidos tradicionais não deverão baixar a guarda se quiserem continuar a ser os garantes da democracia, da liberdade e da paz. Nem que seja por sentirem que há, no sistema político, ameaças ao seu domínio. É essa a tese de Jorge Marrão, no Jornal de Negócios, num texto com um título surpreendente: A necessidade dos extremos. Vejam o seu argumento: “O centro em vez de se unir para enfrentar o desafio do país – isto é, mudar a sociedade e os seus comportamentos – entra num concurso de simpatia e beleza eleitoral. Pululam promessas e reposições. Os extremos ganham nesta luta: têm a virtude de não estarem contaminados nem pela crise nem pela austeridade.”

É certo que muita gente respirou de alívio este fim-de-semana quando verificou que, nas eleições cantonais francesas, Marine Le Pen ficou em segundo lugar e que, na Andaluzia, o Podemos se quedou por um distante terceiro lugar. No El Mundo o seu correspondente em Bruxelas, em Orden y progreso, fez uma boa síntese do sentimento dominante: “Como explica una alta fuente comunitaria: "Aquí nos gusta el lema brasileño de 'Orden y Progreso'. Y por ese orden".”

Mesmo assim há um outro fenómeno que não pode ser ignorado: a contaminação do discurso político moderado e reformista por ideias mais radicais. Do discurso e também dos programas propostos ao eleitorado. Por coincidência escrevi sobre esse tema ontem, aqui no Observador, o mesmo dia em que um antigo director do Internacional Herald Tribune, Jonh Vinocur, o fazia também no Wall Street Journal. Comecemos por este último texto, They’re All the National Front Now, onde defende a ideia de que “Socialists and Gaullists share the far-right Marine Le Pen’s aversion to the reforms that France needs.” Mais adiante argumenta sobre como isso pode ser perigoso para a França:
The French economy? A caustic but respected commentator, the economist Nicolas Baverez, said last week, “France is a big Greece.” A European Union official, while praising the “impressive” reform efforts of Spain and Italy, was quoted as saying, “France has done nothing.”

O ponto de partida do meu argumento em Esse estranho lugar onde Le Pen e Louçã se encontram foi uma leitura atenta da entrevista que Marine Le Pen deu ao Expresso do passado sábado e verificar como muitas das suas passagens poderiam facilmente ser subscritas por personalidades tão diferentes como Francisco Louçã ou Freitas do Amaral, Bagão Félix ou Jerónimo de Sousa, e por aí adiante. Considerei, em primeiro lugar, que essa convergência de discurso até era assumida, nalguns casos, pela líder da Frente Nacional, que não teve “dificuldade em admitir que [um] Podemos “representa em Espanha mais ou menos o mesmo que o Syriza significa na Grécia. E sublinha de novo que, quando não existe um movimento patriota como a FN, é a extrema-esquerda que canaliza a cólera contra a UE”. Trata-se de um argumento simétrico ao que temos ouvido, por estas semanas, nas bocas de Tsipras ou Varoufakis.” Mas se a esquerda e a direita radicais convergem de forma paradoxal (ou talvez não) nos seus discursos, não menos preocupante é o facto de muitas vezes figuras com pergaminhos e responsabilidades, hoje na pele de comentadores, adoptarem o mesmo tipo de argumentário, algo que acaba por legitimar essa espécie de novo e perigoso “nacionalismo-populista” que parece estar a atacar alguns países do sul da Europa.

João Marques de Almeida também revelou inquietações convergentes em A oposição à União Europeia, o texto que hoje editou no Observador. Inquietações que se baseiam em as nossas elites políticas não terem aceite bem as mudanças que ocorreram na Europa. Antes, “A “velha” Europa dava sobretudo os recursos necessários para governar. Por isso, dava votos. Além disso, a “Europa” deu poder às novas elites democráticas. Permitiu distribuir dinheiro e contratos pelas empresas, financiar bancos e oferecer empregos públicos.” Hoje, “A “nova” Europa transfere recursos, mas exige reformas que enfraquecem o poder de quem beneficiou da “velha” Europa. (…) Assim, já não dá os votos que dava (e em Portugal, ainda dá bem mais do que noutros países europeus). Por isso, os “velhos europeístas” deixaram de gostar da Europa.

Em síntese: se há sinais de otimismo na frente económica, a perturbação política está longe de ter acabado. Por isso julgo que, além de erguer um pouco a nossa moral, a leitura destes textos também permite outro tipo de reflexões.

Bom descanso (e esperança de que o bom tempo não demore muito a chegar). 
Título e Texto: José Manuel Fernandes, 25-3-2015

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