segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Caro Dr. António Costa, queria apresentar- lhe uma pessoa…

Quem é que, nos dias de hoje, defende a RDA e o Partido Socialista Unificado da Alemanha e acha que o capitalismo “põe em causa a própria existência da Humanidade”?

Miguel Pinheiro

O revelador texto de que se fala nestas emocionadas linhas foi escrito há apenas um ano, quando o mundo comemorou (e algum lamentou, como veremos) o 25º aniversário da queda do muro de Berlim – ou, para começarmos já as citações, da “chamada ‘queda do muro de Berlim’”.

Registe-se, primeiro, que aquilo que poderia parecer aos mais inocentes uma mera efeméride histórica escondeu, na realidade, uma “campanha anticomunista de intoxicação da opinião pública”. Como perceberiam os espíritos menos alienados, “mais do que a ‘queda do muro de Berlim’ o que as forças da reacção e da social-democracia celebraram foi o fim da República Democrática Alemã (RDA), foi a anexação (a que chamam de ‘unificação’) da RDA pela República Federal Alemã (RFA) com a formação de uma ‘grande Alemanha’ imperialista, foi a derrota do socialismo no primeiro Estado alemão antifascista e demais países do Leste da Europa e, posteriormente, a derrota do socialismo na URSS”.

A “RDA socialista”, recorde-se, era “herdeira das heróicas tradições revolucionárias do movimento operário e comunista alemão”. Essa RDA, coitadinha, foi “hostilizada e caluniada pela reacção internacional”, mas, apesar disso, com a sua conhecida valentia, levou a cabo “notáveis realizações nos planos económico, social e cultural” e “impôs-se e fez-se respeitar no concerto das nações”, alcançando “prestígio mundial”.

De resto, essa história da construção do muro de Berlim tem muito que se lhe diga. Ela assumiu, obviamente, um “carácter defensivo” e foi “a resposta a constantes provocações na linha de demarcação entre a parte Leste e Ocidental da cidade e reiteradas violações de soberania da RDA”.

Além disto, convém não esquecer um dado fundamental, que manterá a alma lusitana aquecida para a eternidade: “O povo português encontrou sempre na RDA e no Partido Socialista Unificado da Alemanha (PSUA) solidariedade para com a sua luta contra o fascismo e para com a Revolução de Abril.” Quer dizer: sem a RDA e sem o PSUA (bendito PSUA!), Salazar e D. Maria ainda estariam a criar galinhas nos jardins de São Bento.

Segundo o texto, a União Europeia é “imperialista”, “federalista” e “militarista”, o que esgota quase todas as palavras acabadas em “ista” no dicionário da Porto Editora.

Vamos dizê-lo com frontalidade (já que mais ninguém o diz): “Ao contrário do que então foi apregoado por um capitalismo triunfante, a ‘queda do muro de Berlim’, a anexação da RDA, as derrotas do socialismo no Leste da Europa, não contribuíram para a segurança e a paz na Europa e no mundo. Pelo contrário.” Ouviram bem, ou preciso de repetir? OK, vou repetir: “Pelo contrário.”

Deu-se ainda uma suprema provocação. “A aliança agressiva da NATO, em lugar de dissolver-se como aconteceu com o Tratado de Varsóvia, reforça-se e estende a sua esfera de intervenção a todo o planeta”. Pior, muito pior: “A CEE, transformada em União Europeia com o Tratado de Maastricht, afirma sem lugar para dúvidas a sua natureza de bloco imperialista dando um novo salto nas suas políticas neoliberais, federalistas e militaristas e na sua articulação com os EUA e a NATO”. Atenção: “imperialista”, “federalista” e “militarista”. Se isto não comete o feito de esgotar todas as palavras acabadas em “ista” no dicionário da Porto Editora, anda lá perto.

Enfim, é assim o “sistema capitalista” (faltava esta “ista”). Ele “não só se revela incapaz de resolver os problemas dos trabalhadores e dos povos como tende a agravá-los cada vez mais, ao ponto de pôr em causa a própria existência da Humanidade”. Sim, sim: “Põe em causa a própria existência da Humanidade”. Dêem-me só um minuto para limpar as lágrimas. Pronto, já está.

Peço desculpa pela minha falta de educação. Já estou quase no fim e ainda não tive a delicadeza de apresentar o autor das frases entre aspas citadas em cima (publicadas no jornal “Avante!” a 6 de Novembro de 2014) ao líder do PS António Costa, que defendeu ser a nova coligação das esquerdas “como deitar abaixo o resto do muro de Berlim”. Caro Dr. António Costa, apresento-lhe o Partido Comunista Português; caro Partido Comunista Português, apresento-lhe o Dr. António Costa. Espero que sejam muito felizes nesta vossa nova vida em comum.
Título e Texto: Miguel Pinheiro, Ponto 3, 23-11-2015

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