sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Juízo final

Vá-se lá saber porquê, não aprecio entusiastas do Terceiro Mundo e respectivos aliados, para cúmulo quando não hesitam em recorrer a truques “constitucionais” a fim de obter o que a democracia não lhes deu

Alberto Gonçalves

Regresso à paranormalidade

A nova estratégia da Frente Popular consiste em exigir concórdia e paz universal. É verdade que, durante semanas, a esquerda não fez outra coisa a não ser insultar os partidos da “direita”, os eleitores da “direita” e o Presidente da República da “direita”. Agora, que enfim o PS ocupa formalmente o Governo e os partidos comunistas informalmente mandam, os apelos à harmonia sucedem-se. Isto lembra os assaltantes que, após o tiroteio no banco, se dirigem à polícia: “Rapaziada, o roubo está consumado e não vale a pena andarmos com desaguisados evitáveis: nós ficamos com o dinheiro e vocês vão à vossa vida. Marca-se um jantar para o Natal?”

Em termos só ligeiramente diferentes, o ministro de Qualquer Pasta, Augusto Santos Silva, recomenda a cura das “feridas” (cito) não com “vinagre, mas remédio.” É o chamado remédio Santos.

Cada um, partido ou cidadão, escolherá a atitude a tomar. Por mim, peço desculpa se não tenciono abandonar o ambiente de “crispação” (o tabu do momento). Ou, pensando melhor, não peço desculpa nenhuma: acontece que não gosto dessa gente e de quem a apoia. Concedo que os meus motivos são impressionistas. Vá-se lá saber porquê, não aprecio entusiastas do Terceiro Mundo e respectivos aliados, para cúmulo quando não hesitam em recorrer a truques “constitucionais” a fim de obter o que a democracia não lhes deu. São cismas minhas, claro, que carecem de racionalidade. Ou careciam.

Um recentíssimo estudo de uma universidade canadiana veio legitimar o que até aqui não passava de um preconceito. Juram os académicos em questão que as pessoas menos inteligentes (por educação, não referem “as mais estúpidas”) se distinguem em três ramos de atividade:
1) levar a sério o tipo de frases “inspiradoras”, “profundas” e sem sentido que atafulham as redes sociais;
2) acreditar em teorias da conspiração;
3) engolir, em ambas as acepções da palavra, a patranha das “medicinas alternativas” e o “paranormal”.

Será coincidência, mas parece-me que, embora realizado a seis mil quilômetros, o estudo descreve quase literalmente a parte amalucada da esquerda portuguesa (a parte restante é hoje algo residual). Vejamos. Em matéria de frases vazias, estas praticamente esgotam a retórica das agremiações que formam a alegada “maioria parlamentar” e seus simpatizantes. Do “pelo sonho é que vamos” às obras completas de Manuel Alegre, o que ali abunda é palavreado absurdo com aroma de reflexão pertinente. O essencial é nunca permitir que a realidade contamine o verbo.

Quanto às teorias da conspiração, é escusado argumentar, já que as ditas praticamente existem para “corroborar” as teorias da esquerda: tudo, de um atentado terrorista ao bêbado que espanca a mulher, é “justificável” mediante a remissão às verdadeiras “causas”, leia-se ao capitalismo e tal.

Faltam as “medicinas alternativas”? Não podiam, que o BE (Bloco de Esquerda) vai propor a consagração legal da homeopatia e da “medicina tradicional chinesa”, ciências caracterizadas pela total ausência de fundamentação científica. Não tarda, o Governo lançará cartas e dissecará entranhas de sapos para enfrentar a dívida pública e o pavor dos “mercados”.

Perante criaturas assim, manter a “crispação” e a distância não é má vontade: é higiene. Como é típico nos homeopatas, o remédio para as feridas receitado pelo dr. Santos Silva resume-se a água e não funciona. Regressar à “normalidade”? A situação do País é paranormal. Se não se importam, prefiro ficar do lado de cá. E se se importarem, também.
Alberto Gonçalves

O bom, o mau, o vilão

O bom
Um estadista de calibre
A caminho de Los Angeles, passei duas vezes em San Bernardino, Da última, há meses, estacionei para um cigarro. Isto habilita-me a comentar os recentes atentados? Em princípio não, mas depois de ouvir o presidente dos EUA já hesito. Após mais uma matança em nome de Alá, Obama apelou à proibição das armas, decerto na convicção de que estas disparam sozinhas e só se adquirem em lojas. Se a palermice é livre, eis o meu contributo: proíba-se San Bernardino, que além do terrorismo é propenso ao tabagismo.

O mau
O povo saiu à rua (mas não devia)
Consta que o Mercedes justamente atribuído pelo Estado a Mário Soares embateu no carro de uma popular. Consta que o ex-presidente nem olhou para esta e mandou o motorista despachar-se. Consta que o motorista se limitou a entregar à popular um papel com o número de um telefone desligado.
Consta que a popular é funcionária da CML (Câmara Municipal de Lisboa) e que, por respeitinho, já retocou a história.
Não chega: até quando o povo teimará em se atravessar no caminho dos humanistas que só querem o seu bem?

O vilão
Um símbolo pelos ares
Tinha de acabar nisto. Depois de encomendar 53 aviões novinhos e investir 71 milhões em melhorias na frota atual, a TAP anuncia bilhetes a baixo custo para quase todas as rotas europeias.
Num ápice, uma companhia outrora ilustre desata a afocinhar sem remédio. Qualquer dia, passa a dar lucro. É urgente, se possível, reverter tamanha vergonha e devolver a TAP ao Estado.
Exceto aos proprietários, aos passageiros e aos contribuintes, a privatização não interessa a ninguém
Título e Textos: Alberto Gonçalves, Sábado, nº 606, 10 a 16 de dezembro de 2015

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