terça-feira, 18 de abril de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Alça de caixão

Aparecido Raimundo de Souza

1
Sábado passado fiz um programa de índio. Fui a um velório acompanhar um amigo. Um amigo vivo, quero deixar claro. O de cujus era outro, um tal de Michel Jackson Temer. Parece que esse verme foi ladrão, ou presidente. Ou os dois, não lembro bem. Não gosto de velórios nem de coisas ligadas a cemitérios.  Principalmente de políticos. O que tinha de autoridades, repórteres, cheiradores de cus e lambe-lambe colhões. Sem mencionar a imprensa. Parecia um bando de baratas tontas. Ao todo, acho que pelas minhas contas, passava de duas mil pessoas. Pois bem, voltando à encenação lúgubre e consternada, o cheiro das flores, entre outras coisas horríveis, me faz espirrar. O clima tenso me deixa constrangido. Depois, ver toda aquela gente chorando em cima, ao lado, em volta, de frente ao morto – realmente é algo maçante e deprimente, mais até que o fato de estar literalmente estendido no esquife.

2
Acho que no dia que tiver que morrer, partir daqui para algum lugar que desconheço, pretendo se Deus quiser, estar bem longe dela. Léguas, se me for possível. Tenho absoluta certeza de que detestarei me ver estirado, duro, estático, feito um defunto de segunda, principalmente depois que a gente sai da mesa do legista, completamente oco por dentro, o corpo inerte, o sorriso apagado, tudo murcho, sem cor, sem vida, enfim, e pior, sem poder escolher as roupas, a gravatinha, o par de sapatos e o mais importante, o caixão.

3
Geralmente os que ficam nos destinam uma dessas urnas de madeiras baratas, vagabundas. Ao menor solavanco cai tudo, despenca como se fosse farinha de rosca. Vou odiar, também, estar ao lado de uma porção de coroas. Sem falar nas velas acesas, naqueles castiçais estranhos do tempo do ronca. Vou ficar furioso se pegar alguém falando de mim pelos cantos, ou cochichando como se eu não ouvisse tudo o que conversam.

4
Igualmente ficarei incomodado com gente entrando, gente saindo, gente curiosa, bisbilhotando, só por curiosidade. É praxe. Tem certo tipo de criaturas que frequentam essas reuniões fúnebres só para conferirem se o sujeito está mesmo morto ou só deitado, fazendo hora, fingindo para escapar dos cobradores a quem deixou um monte de contas sem pagar.

5
Geralmente, nos velórios, os familiares mais chegados aparecem somente para bater cartão. Faz parte do protocolo. Sem falar naqueles parentes distantes (que gostavam de ver o morto, quando vivo, de longe), com suas caras de babacas, dando os pêsames com aquela indiferença dos hipócritas – fingindo enxugar algumas lágrimas inexistentes em rostos mascarados pelas mentiras. Bando de filhos da puta.

6
Não, decididamente, no dia em que a morte bater à minha porta, chegar à minha beira, juro que escapulo. Salto de banda. Chuto o pau da barraca. Pulo como um gato assustado, antes que o além me pegue de jeito, desprevenido, de calças curtas. Chato ser pego de calças curtas, principalmente na minha idade. Uma merda!

7
Mas meu amigo insistiu tanto, tanto insistiu que me esqueci de todos esses incômodos que me afetam e lá fui eu, segurar vela, em nome da velha amizade, enquanto ele rendia as últimas homenagens ao defunto. Um padre com cara de Mané rezou missa de corpo presente, enquanto crianças corriam e gritavam, lá fora, atrapalhando as suas falas com uma algazarra descomedida. Brabo, o coroinha, ao lado dele, olhava feio e muito puto da vida para o pátio que ficava em frente à capela. 


8
Uma senhora, toda de preto, véu de seda encobrindo o rosto, naquele circo todo que fora armado, era a única pessoa, que realmente sentia, com profunda emoção, aquela perda. Deduzi, pela tristeza aberta em seus olhos verdes claros, que deveria ser a mais nova viúva do pedaço. Acertei em cheio, na mosca. Era a viúva mais nova do pedaço. E que viúva... fiquei sabendo, depois, que o nome dela era Marcela.

9
O resto, em volta - (a não ser ela, a doce e esfuziante Marcela), enquanto o pároco discorria acaloradamente sobre os mistérios existentes entre a vida e a morte –, não estava nem aí para as suas ponderações do santo homem. Todos, indistintamente, queriam ver o desfecho daquilo, clamavam, interiormente, para que a criatura encomendasse logo a alma do cidadão e partisse para os finalmente, ou seja, para ato final tão eloquentemente esperado: o féretro baixando à sepultura.

10
Os que marcavam presença queriam estar, de igual forma, bem longe, absortos nos caminhos que levavam de regresso às suas vidinhas diárias, atreladas a um cotidiano sem esperanças e completamente vazio de amanhã. Comigo também vai ser exatamente assim, ou melhor, será: quando o esquife tiver baixado ao pó, quando eu não mais puder voltar a minha vidinha diária, ao meu dia a dia sem esperanças, vou me levantar da cova, abrir o esquife e gritar para os vizinhos próximos que meu lugar não é ali. Gritarei alto, para que todos me escutem: e sairei andando, a passos largos, em direção à minha vida que ficou lá fora. Além das portas do campo santo. No meu jazigo, já deixei dito a meus filhos (com extensão a quem eles indicarem para lavarem minha bunda na derradeira hora), quero essa inscrição gravada em letras garrafais: “Galera, estou viajando. Não sei quando volto ou se volto”.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De São Paulo, Capital. 9-8-2005

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