segunda-feira, 10 de abril de 2017

[Atualidade em xeque] Obrigado, Hemingway

José Manuel

- Nos últimos meses, Ernest, andava me sentindo opresso, com muito mau humor, derivando para uma depressão, e conhecedor da espiral decrescente em que entramos dentro desse sintoma, que você conhece tão bem, estava lutando para não entrar…

- O que houve?

- As notícias aqui no Brasil são péssimas em todos os sentidos, vivemos uma convulsão social camuflada, inclusive pela imprensa, um país estraçalhado politicamente por escândalos diários, eu próprio sendo uma vítima dessa complicação política, até então não tinha me dado conta de que todo esse processo entrava pela minha casa adentro, pelos meus aparelhos de recepção, sorrateiramente, invadindo a minha privacidade.

- Não estou entendendo, e o que o Brasil lá na América do Sul tem a ver comigo, porque aqui na Europa é que estamos saindo de uma guerra infernal que acabou em 1918, tivemos um armistício, não sabemos até quando vai durar e o que são esses aparelhos de recepção a que você se refere?

- Espere, e preste atenção porque é confuso, muito confuso para você entender assim de repente.

- Sim, continue, estou tentando entender.

- Ao me dar conta do problema por acaso, primeiro cortei todas as notícias veiculadas pela televisão, e passei a assistir somente a programas sobre carros ou animais. Senti uma melhora em meu estado. Depois, enquanto no carro, aboli todas as notícias políticas ou criminais vindas pelo rádio. Troquei as notícias por CDs, e realmente foi melhorando cada vez mais o meu humor. Claro que tenho que me manter atualizado e me permito somente ver as manchetes do dia.

- Continuo entendendo cada vez menos, e o que são televisão, CDs e o que você escuta dentro do carro? Notícias criminais?

- Sim, criminais, mas prefiro pular essa parte, pois você não entenderia tão rápido, televisão já existe precariamente nessa época em 1926, mas provavelmente irá conhecer melhor em 1940, quando estiver escrevendo Por Quem os Sinos Dobram, mas não conhecerá os CDs que são disquinhos de música. 


- Está bem, realmente confunde, mas, continue.

- Aí descobri um terceiro vilão que me acompanhava à cozinha, ao banheiro, à cama antes de dormir. O meu celular. Esses aparelhos são como polvos, lulas gigantes que vão nos engolindo, nos abraçando, você se deixa ir suavemente pela curiosidade das notícias, mensagens dos amigos e quando se dá conta, está numa dependência difícil de retroceder.

- Volto a perguntar, o que é celular e que dependência seria essa a que você se refere? Não estou entendendo nada, e quem te acompanha a todos esses lugares, cozinha, banheiro, etc.?

- Celular é um aparelhinho que cabe na palma da nossa mão, é um telefone, podemos ver tudo através dele, enviar mensagens, não existe mais o cabograma, podemos ver filmes, conversar com os nossos "350 amigos", é esse o problema e a dependência a que me referi. Também gosto de escrever, mas já andava perdendo até esse hábito literário.

- Eu também escrevi muitos livros, tenho apenas dez amigos fiéis, e nunca perdi a vontade de escrever, nem durante as guerras em que participei como correspondente.

- Bem, em 1926 não existia nada do que relatei, nem parecido, para complicar a vida, esqueça os amigos, você é uma exceção, ganhou um Pulitzer e um Nobel de literatura e toda uma vasta vida literária com aquelas farras todas aí na Europa.

- Você não estaria delirando? Que época é essa, pois aqui também temos carros, por exemplo, os Panhard, os Mercedes, os Ford T a gasolina, fiacres, mas não escutamos nada dentro deles, nem temos nada para ver em aparelhinhos. E os telefones, que eu saiba, são enormes e pendurados nas paredes dos bares! Isso só pode ser um devaneio seu.

- Calma, esses aparelhinhos você não irá conhecer, e os meus escritos não vão chegar nem perto do que você realizou ao longo da vida.

- Você conhece tudo sobre mim?

- Até os gatos de Hemingway, lá na sua casa em Key West.

- Sim, os meus gatos de seis dedos, você os viu?


- Não, minha esposa me contou, porque esteve lá.

- O que mais sabe?

- Tudo, em todas as suas fases da vida, até coisas desagradáveis e você jamais saberá nada sobre mim. É a única coisa melhor que você que possuo.

- Se você continuar contando, talvez o conheça melhor, mas, por favor, sem delírios.

- Pois é, foi num momento como sempre, deitado e olhando o tal celular, que resolvi desligá-lo e peguei o primeiro livro na mesa de cabeceira. Seria o meu terceiro desvio de uma realidade assustadora que me pressionava. Por acaso foi você, Ernest, e o livro, "O Sol Também se Levanta".

- Você não havia lido este livro?

- Ezra Pound certa vez também lhe disse que não havia lido Dostoievski e os outros russos.

- Tem razão, fiquei furioso com ele.

- Já tinha lido outros livros seus, como "Por Quem os Sinos Dobram" e também "O Velho e o Mar", mas este, por acaso e apesar de o ter há muito tempo, ainda não o havia sequer folheado.

- Ainda bem que já me conhecia de outros e, claro, não ficou surpreso com a minha narrativa neste livro. 

- Você, Ernest, foi a minha redenção e a libertação do poço que se abria à minha frente.

- Mas como eu, Hemingway, posso ter colaborado para que você se libertasse assim? Afinal, com tantas coisas que nem conheço, aparelhos em que as notícias entram pela sua casa, disquinhos de música, telefone que cabe na palma da mão, ainda é infeliz e entrando em depressão?

- Eu estava me sentindo mais ou menos como você naquele hospital quando foi atingido pelos estilhaços de uma bomba em 1918. Eu também fiquei hospitalizado por algum tempo, também fiquei ruim, mas não me apaixonei, como você na Cruz Vermelha em Milão, só continuei usando muito o tal aparelhinho, veja, até lá no hospital.

- Onde você está agora?

- Estou no Brasil em 2017, na mesma América do Sul que o Robert Cohn queria trazer você, lembra?

- Mas eu estou em 1926 neste livro e em Paris, como é possível? Só pode ser algum engano.

- É possível sim, Ernest, você está onde eu estive muitos anos, só que em 1926. Você, neste livro, faz parte da Génération Perdue, a geração perdida, os extraditados, como diz a Gertrude Stein, com os seus amigos, Harold Loeb, John dos Passos, Ezra Pound, Lady Duff Twysden, Pat Guthrie, T.S Eliot, F. Scott Fitzgerald, Ford Madox Ford, James Joyce dentre muitos outros, e me fez viajar novamente.


- Como assim, eu o fiz viajar? Como você conhece os meus amigos?

- Conheço-os dos livros seus que li e dos seus personagens em que se transformaram os seus amigos. Gostaria de tê-los conhecido pessoalmente.

- Vamos lá, continue, estou intrigado e quero entendê-lo melhor.

- Desde o início, nas primeiras páginas, quando começa a andar por Paris, com Harold Loeb, pelos bares, acompanhado daquele que você transformou em Robert Cohn o judeu, fui puxado para dentro da sua estória e comecei a andar pela Paris de 1926, apesar de já conhecer a cidade, pois eu andei durante muitos anos pela mesma Paris, só que a dos anos 70, 80, 90. Foram mais de trinta anos andando por aí, tenho muita saudade, por isso mergulhei fundo dentro da sua estória.

- Realmente, você tem razão, Paris é fascinante nos anos vinte, e nós temos uma turma da pesada, nos embriagamos quase que diariamente, somos companheiros de farras homéricas vivendo muito os dias e as noites. Somos os "Roaring Twenties", vivemos a vida como deve ser vivida. 

- Você, me livrou de um modernismo armadilha e me devolveu à literatura, com as farras e loucuras protagonizadas aí em Paris, porque você é mais ou menos o meu espelho, compreende agora?

- Começo a perceber o quanto você estava precisando disso e o quanto eu posso ter contribuído para os seus sonhos.

- Viajei muito com vocês, voltando aos bulevares, como o Saint-Germain, andando por Saint-Jacques, entrando e saindo de restaurantes e bares em Denfert-Rochereau, sorvendo as suas Histórias, passeando por Montmartre, comendo no Quartier Latin, juntos no Le Pré Aux Clercs, passeando nas margens e pontes do Sena, bebericando em Montparnasse, no Marais ou nos "presque toujours", Le Deux Magots, no Flore, na Brasserie Lipp's e no indefectível La Closerie des Lilás, onde você come aquelas ostras extraordinárias. Vocês realmente vivem muito os dias e principalmente as noites de Paris.


- Acho que você gostou de ter andado conosco pelas Brasseries, pelos cafés que frequentamos neste livro.


- Pena que você não conheceu o restaurante "León de Bruxelles" que tem umas "moules" maravilhosas servidas com batatas fritas, mas só foi aberto em Paris em 1989, na Praça da République, apesar de já existir na Bélgica no Chez León desde 1867.

- Pois é, talvez agora você consiga entender o porquê das minhas saídas e voltas à Europa e da depressão que isso me causou, com aquele triste final.

- É, foi realmente uma pena ter sido daquela maneira. Sabe, também tive as minhas loucuras em Paris. Tive uma namorada em Paris e andei com ela por grande parte da França fazendo um monte de farras. Depois, tive outra linda garota, quando sustentei o seu olhar em um restaurante. Também era enfermeira como a Agnes, no Hôpital Saint-Jacques. Uma outra vinha de trem da Alemanha se encontrar comigo aí em Paris. Essa era a minha "moveable feast" como escreveu você antes de partir.

- Você, pelo visto, não perde muito para os meus personagens. Por acaso também era um extraditado?

- Não, sempre estive a trabalho e uma só vez em férias na casa da minha namorada francesa de Brie, em Paris.

- Você se lembra de ter lido sobre a Brett, a mulher por quem eu era apaixonado e me seguia o tempo todo mas não me queria, preferindo os meus amigos? Até com o judeu do Robert Cohn ela saiu, para meu desespero silencioso.

- Lady Duff Twysden que você transformou em Brett Ashley? Claro que lembro, afinal é uma das principais personagens da estória e o seu calcanhar de aquiles, porque você a ama do princípio ao fim do livro. Eu também tive uma do tipo Brett, foi a Jacquie que conheci na rua e ela nunca me largava, estando sempre à minha espera quando chegava, mas não fui apaixonado como você. Era muito companheira e fizemos apenas boas farras parisienses, pois isso só acontece aí em Paris.

- Também poderia escrever um livro sobre tudo isso. Que tal?

- Não, já basta que você tenha me levado ao encontro de um passado em que fui muito feliz apesar de épocas diferentes, mas na mesma cidade e também porque recordei com saudade, como corria apaixonado pelos corredores do metrô atrás daquela que hoje é a minha esposa. Tenho muitas estórias com a cidade.

- Que bom, e você vai continuar me visitando em outras obras?

- Sem dúvida, agora que você me devolveu à literatura, o prazer e a liberdade de estar com um bom livro, ao invés de preso, cativo de modernismos e péssimas notícias, estarei sempre visitando-o. Só fiquei triste mesmo, quando vocês resolveram ir para Pamplona, passando por Hendaye, Bayonne e Roncesvalles, lugares que não consegui chegar para fazer o caminho de Santiago, depois de estar muito preparado, mas sendo atraiçoado pela politicalha neste país.

- Que pena que não conseguiu vir a estes lugares, mas um dia você vem aqui a Pamplona, vai se hospedar no hotel Montoya e se lembrar muito de nós.

- Claro, só não vou às touradas que você tanto gosta e é aficionado, mas continuo viajando com vocês, pois gosto muito dessa região e adorei a pescaria de trutas que você e o Bill fizeram nos rios daquelas montanhas.

- Há mais o que fazer em toda esta bela região, como beber muito vinho, de dia e a noite toda.

- Sabe, somos muito parecidos, como disse antes, você é o meu espelho porque também sempre me apaixonei intensamente, tenho quase certeza que você esteve comigo aí em Paris e agora não tenho mais dúvida de quem colocou o seu livro à minha mão na cabeceira, dentre tantos que lá estão.

- Quem sabe? E nós conversaremos novamente quando?

- Provavelmente mais cedo do que pensa. Da próxima vez vou a 1929 em sua outra obra "Adeus às Armas", conhecer o tenente Frederic Henry, aliás você, que como condutor de ambulâncias conheceu seu grande amor, a enfermeira inglesa Agnes Von Kurowski ou como você a definiu no livro, Catherine Barkley.

- Está bem, fico aguardando e foi um prazer reencontrar você.

- Antes de ir diga-me, Jake, depois que seus amigos retornaram a Paris, quando a fiesta de San Fermino terminou você foi a San Sebástian, achando que lá encontraria a Brett?

- Eu não escrevi isso no livro, porque fiquei arrasado por ela ter ido para Madri com aquele jovem toureiro, o tal do Romero, mas você acertou na mosca. Me conhece mais do que eu pensava.

- Agora me responda, você foi correndo ao encontro dela em Madri depois que ela pediu socorro por telegrama, e foram jantar no Botín, certo?

- Sim e daí?

- Como conseguiram beber aquelas cinco garrafas de vinho Rioja Alta, naquele jantar sem ficarem embriagados?



- Isso é o amor, meu caro, e assim consegui convencê-la de uma vez por todas a ficar comigo, depois daquele passeio de carro, após o jantar.

- Paris foi e será sempre uma festa, Ernest, em qualquer década em que tenhamos estado por aí, obrigado mais uma vez e até 1929.

Título, Imagens e Texto: José Manuel - que viagem maravilhosa. De vez em quando o passado pode estar mais presente que nunca, sem que nos apercebamos. 10-4-2017

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5 comentários:

  1. Fantástico! Você deveria escrever um livro de verdade, meu titiozão! Parabéns! Leitura deliciosa!

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  2. ERNEST HEMINGWAY, sua frase predileta era:
    - il faut d'abord durer.
    O última apaga a luz...
    Por isso suicidou...

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  3. É, mas ao ler Adeus à s Armas, dá para entender o porquê do suicídio e da forma que foi.
    Já no primeiro livro que é pesadíssimo pela passagem da guerra na Itália e as perdas simultâneas do filho e mulher, ao final não ia dar em outra coisa
    José Manuel

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    1. Bem JM, eu não acredito em FATALIDADES.
      ACREDITO PIAMENTE EM ERROS HUMANOS.
      Por mais razões que algum psicólogo e afins me mostrarem, o SUICÍDIO É O MAIOR ERRO HUMANO.
      A morte é uma promissória paga, o tempo nos faz fugirmos do resgate.
      Os atos desesperados, frente às agruras da vida, não nos tornam mártires ou exemplos, ficam para as estatísticas.
      Dia 09/10 de 2014 O meu amigo Jocafer, jogou fora suas vida, virou nota da Fentac, e nada mais, do que estatística.
      Muitos falam que não devemos sobrepor a razão acima do emocional e deixar as emoções dominarem sua mente.
      Eu discordo, enquanto houver um sopro de vida, quero ser completamente racional.
      O desesperado mata por amor, o irracional por prazer, o emocional por egoísmo pessoal, e o racional apenas para defender a vida.
      Adoro EH.
      No livro "O sol também se levanta" baseado num trecho bíblico:
      “Uma geração vai-se, e outra vem, mas a terra permanece para sempre”(Eclesiaste 1:4).
      É uma declaração de vida.
      Vou declarar que há TEMPO DE VIVER e que não HÁ TEMPO DE MORRER, virá, mas nego-me a apressá-lo.
      fui...

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  4. Seu amigo Vander, com muita propriedade, nos dá uma lição de vida.
    A vida, dentro de uma liberdade plena, não têm coisa melhor para se curtir.
    Abraços
    Avellar

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