sexta-feira, 7 de abril de 2017

[Para que servem as borboletas?] Benedicta Crux!... Páscoa!

Valdemar Habitzreuter

Quem nesta vida não carrega sua cruz? Não há por onde correr para fugir das contrariedades que a vida nos impõe. É claro, todos procuramos refúgio onde possamos minimizar os infortúnios da vida. Mas, quem sabe os percalços da vida não nos ensejam ainda mais vida? Já imaginaram em que situação estaríamos se tudo estivesse num marasmo pacífico, sem contratempo algum? O que seria de nós sem luta, sem confrontos, sem desafios a vencer?

Sim, a vida não nos oferece moleza; já nascemos berrando de incômodo ao dar o primeiro suspiro; o último suspiro de nossas vidas também será de agonia; ninguém escapa da temporalidade angustiante que nos finitiza; somos jogados neste mundo de sofrimentos, embora seja o melhor dos mundos criado por Deus, segundo o filósofo Leibniz.

Mas não é o mesmo pensamento do filósofo Schopenhauer que diria: este mundo é cheio de misérias, “melhor não ter nascido, mas já que nascemos, melhor morrer cedo, pois viver é sofrer”. Entretanto, tal pessimismo de Schopenhauer nos tapa os olhos e não enxergarmos a frutificação benfazeja no sofrimento; temos a possibilidade, pelo sofrimento, da colheita de frutos que nos alimentam de energia e poder para transformar as vicissitudes em momentos felizes e poder ver o lado formoso e luminoso da vida; a vida, pois, não deve ser sinônimo de decepções àqueles que querem e gostam de lutar e se negam em permanecer na escuridão.

Vida é vontade transformadora; e se essa vontade esbarra em obstáculos não quer dizer que a vida seja um fracasso. Toda transformação implica resistência. Embora Schopenhauer tenha a vontade como o elã da vida que a tudo perpassa, enfatizou-a negativamente como causa de sofrimento, uma vez que desperta no ser humano, como ele diz, desejos que nunca são satisfeitos a pleno: tão logo se alcança o objeto desejado, outro desejo se apresenta e, assim, sucessivamente, infligindo preocupações e sofrimento. A saída que Schopenhauer nos oferece é a aniquilação da vontade ao molde budista e acabar com os desejos; simplesmente, não querer o querer e, assim, libertar-nos dos sofrimentos que angustiam a alma.

Outro filósofo, Nietzsche, embora tenha sido influenciado por Schopenhauer, direcionou sua filosofia para outro caminho; deu ao conceito de vontade outro enfoque:  vontade é vontade de poder, é o esforço de ser mais que um simples mortal, ultrapassar sua condição humana, conduzir-se acima do bem e do mal. A vontade de poder é a força que faz da vida sofrida a arma com a qual o ser humano possa se superar e se colocar como Übermensch, além do demasiado humano.

Se Nietzsche combateu a moral cristã por tornar o ser humano um fracassado, tem, no entanto, em Jesus Cristo o modelo de super-homem, um modelo de homem em que está patente em seu íntimo essa vontade de poder que supera a corrompida condição humana, dependente de uma moralidade.

Cristo, segundo Nietzsche, conduziu sua vida acima do bem e do mal e não teve intenção de fundar religião moralizante alguma; o cristianismo surgiu com seus seguidores - Paulo o mais importante - de difundir uma suposta moral de Cristo. Diz Nietzsche: “Na verdade, o único cristão morreu na cruz... Este ‘alegre mensageiro’ morreu como viveu, como ensinara – não para redimir os homens, mas para mostrar como se deve viver. A prática foi o que ele deixou à Humanidade: a sua conduta perante os juízes, perante os verdugos, perante os acusadores e perante toda a espécie de calúnia e ultraje – o seu comportamento na cruz... Não se defender, não se encolerizar, não responsabilizar... mas também não resistir ao mal, ao sofrimento – amá-lo”.

Eis, pois, o símbolo da cruz: nossa vida no traçado horizontal, representando nossos sofrimentos neste mundo, pode ser direcionada verticalmente e, assim, vislumbrar outra realidade... além do bem e do mal. É esta passagem (páscoa) que a cruz nos propõe: a vontade de superar-nos como humanos e deificar-nos ou ressuscitar como Cristo o fez... 
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 8-4-2017

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Um comentário:

  1. Nietzsche sempre ele, e mais alguns conhecidos mas não tão ilustres
    passaram a vida sem " passar " pelo que nós passamos por exemplo em 10 anos de verdadeiro Holocausto. Assim como Marx que nunca fez nada na vida a não ser explorar a mulher e deixar morrer os filho por inanição.
    São exemplos pobres para a nossa geração que lutou pela vida o quíntuplo do tempo que eles passaram apenas " filosofando ". Era um pessimista sem saber porquê. Isso não lhe tira o valor como escritor, mas acaba ficando chato ao longo da vida. Que o diga Lou Salomé
    José Manuel

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