sexta-feira, 17 de março de 2017

[Para que servem as borboletas?] A psicanálise agostiniana do pecado adâmico...

Valdemar Habitzreuter

Não mais esta vida tranquila e paradisíaca!... “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão...” Eis a sentença fatídica à espécie humana como herança do pecado adâmico. Nascemos pecadores, segundo a cultura religiosa judaico-cristã. Em outras palavras, desde o início estamos contaminados pela doença do pecado, e o remédio da cura é o batismo que purifica o ser humano dessa mancha original, mas só com a observância fiel das prescrições da bula cristã. O remédio, para ser eficaz, é de uso contínuo, encapsulado pela fé e esperança da cura definitiva; portanto, a garantia da salvação.

Como conceber que uma criancinha recém-nascida já tenha sua alma maculada por herança do pecado de Adão e Eva? E que pecado é esse? Tem ela o gene do pecado contaminador dos primeiros pais da humanidade? Segundo o cristianismo (catolicismo), sim; ela tem de ser batizada desde criancinha, pois se chegar a falecer sem o batismo não verá a glória no céu, vegetará eternamente no Limbo...  Mas espera aí, parece que o Limbo já não existe mais, não foi abolido pelo papa Bento XVI?... Restaria então o purgatório. Mas, há aí também um problema, só passa pelo purgatório quem foi batizado e precisa expiar alguma dívida deixada para trás aqui na terra. Às pobrezinhas sem batismo só restaria então o inferno.

A única saída dessa trágica fatalidade seria abolir também o inferno. Essas criancinhas iriam então para o céu e fariam o ambiente celestial mais alegre com seus sorrisos inocentes e angelicais, contagiando a todos os seus habitantes e ao grande vovô Deus. Acredito que isso ainda está por vir. O Papa Francisco já acenou neste sentido quando diz: “A igreja já não acredita em um inferno literal, onde as pessoas sofrem. Esta doutrina é incompatível com o amor infinito de Deus”.

Mas, vejamos se não há um fundo de verdade nessa herança pecaminosa do pecado original. Precisamos retroceder a História quando foram assentadas as bases da teologia cristã (mais exatamente da teologia católica). Um dos maiores representantes foi Sto. Agostinho no sec. IV, recorrendo à filosofia neoplatônica (Plotino). Como é bem sabido, na Filosofia de Platão o corpo é um cárcere para a alma, dificultando a que ela vislumbre e faça sua trajetória de volta a sua morada original. Só através de uma ascese rigorosa e constante consegue o homem reprimir ou controlar os sentidos, as paixões, da carne para que a alma se lembre de sua origem da outrora vida de bem-aventurança e lute contra a natureza carnal que a escraviza e, assim, possibilitar a volta e poder desfrutá-la novamente.

Agostinho, na época, estava às voltas no combate ao pelagianismo (heresia de Pelágio) e, justamente, teve que enfrentar um pelagiano intelectual altamente versado em filosofia e teologia como ele, de nome Juliano de Eclano, que discordava totalmente da possibilidade da transmissão por herança do pecado de Adão e desafiou Agostinho: “dizei-me: quem é essa pessoa que inflige um castigo a criaturas inocentes. (...) Vós respondeis: Deus. Deus, dizeis! Deus! Aquele que nos confiou Seu amor, que nos amou, que não poupou Seu próprio Filho por nós. (...) É Ele, dizeis, quem julga dessa maneira; é Ele o perseguidor de crianças recém-nascidas; é Ele que envia bebezinhos para as chamas eternas”. (...) Seria correto e apropriado tratar-vos como indigno de argumentação”...

Mas, Agostinho não deixou por menos e rebateu com o seguinte discurso: Adão e Eva, assim que perpetraram o pecado, cobriram suas genitálias de vergonha e isto configurou sua culpa, conscientes que ficaram do pecado cometido ao desobedecer a Deus. Esta sensação de culpa e consequente vergonha acompanha ainda hoje a todo ser humano como uma herança psíquica, no dizer de Agostinho. Assim, a atividade sexual humana oferece a oportunidade de pecar, de enlamear a alma pelo gozo do corpo se não for regrada.

Nesse sentido, desde os primórdios, a moral cristã incutiu de que o instinto sexual deixado livre e sem controle nos arrasta para o lado animalesco e nos deixa distantes das coisas do espírito (nada mais platônico). A moral cristã, pois, é um tanto antissexista e enaltece a castidade para fins de elevar espiritualmente o ser humano; o sexo exercido fora dos padrões morais cristãos seria pecaminoso, permitido apenas, controladamente, dentro do casamento para fins de procriação.

Mas, onde entra aí a culpa (?) herdada das criancinhas, estas criaturinhas tão amáveis por sua inocência? Teria Agostinho prenunciado Freud séculos mais tarde? Pois a teoria de Freud se baseia justamente nisto: as criancinhas, desde a nascença, já têm pulsões sexuais, são fortemente eróticas em suas etapas de crescimento. Assim, observa-se a erotização na sucção do seio da mãe (fase oral), seguindo-se a fase anal..., a fase fálica.... e, por fim, a fase genital... Enfim, já teriam o impulso sexual desde a mais tenra idade. Estaria aí velado o pecado original adâmico?

Agostinho, através do conto mítico bíblico da transmissão do pecado original aos descendentes, não teria visto nas criancinhas uma potencialidade pecadora transmitida por herança e que deveria ser enfraquecida e remediada pelo batismo? O batismo configuraria, por assim dizer, uma espécie de divã freudiano para um proceder da catarse da alma ao longo da vida cristã. Eis, pois, a psicanálise agostiniana do pecado adâmico... Mas como Freud já está ultrapassado em muitos aspectos, Agostinho também o possa ser...
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 16-3-2017

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