domingo, 5 de março de 2017

[Para que servem as borboletas?] Minhas galinhas e a Justiça...

Valdemar Habitzreuter

Divirto-me com minhas galinhas; observo-as soltas no quintal, ciscando aqui e acolá, cada qual por si. Além da diversão e alegria que isso me dá, delicio-me de seus gostosos ovos, ainda mais agora que o mito do aumento de colesterol que tal alimento proporcionaria foi derrubado pela ciência recentemente, e acresce-se a isso a propagação de ser o alimento ideal com, praticamente, todos os nutrientes de que o corpo necessita.

Nessa minha pequena sociedade galinácea observo coisas interessantes. Por exemplo, o egoísmo (não é a palavra exata, pois galinha não tem um eu), melhor então, o instinto das galinhas de abicanhar (nos humanos seria abocanhar) o mais rápido possível o alimento que lhes é jogado, antes que uma outra o pegue, é impressionante. A primeira que alcançar o alimento foge com ele no bico para poder degluti-lo fora do alcance das outras. Mas, as outras vão ao seu encalço para roubar-lhe a iguaria. É uma disputa renhida, sem respeito e sem regras, quem pode mais leva o melhor; a primeira, que teve a agilidade de se apossar do alimento, não tem direito à propriedade, nada de justiça, pois. No entanto, convivem sem se matar...

Em outro exemplo, vê-se também alguma solidariedade dos galos quando encontram algum alimento. Estes, ao invés de consumir o alimento, chamam as galinhas para que venham se alimentar, e assistem à briga entre elas. Será por caridade ou há algo planejado com essa ação altruísta? É claro, não há aí nenhum sentimento de caridade, galo não tem sentimento, emoção... Parece-me nada mais que um instinto de cortejo sinalizando marcação de território: as galinhas estão aí para se acasalar só com ele; nada de caridade ou ação altruísta (só os humanos têm esses conceitos). E quando há mais de um galo, aí fica patente a marcação de território: é briga constante entre eles para mostrar quem é o dono do pedaço.

Vê-se que entre os animais não cabe o conceito de justiça; no entanto, se viram muito bem para sobreviver, se bastam a si mesmos. Diferentemente, nós racionais somos iminentemente animais sociais; não nos imaginamos sem o convívio coletivo, necessitamos da coesão social. No entanto, para que haja ordem e convívio pacífico, temos que contar com o elemento ‘justiça’ para preservar aquilo que por direito pertence a cada um: a propriedade, a vida, a honra, a paz... e por aí afora. Sem a justiça haveria uma desagregação generalizada e o perigo de a humanidade desaparecer da face da terra seria a consequência. O ser humano não é propenso ao isolamento, não se basta a si mesmo como a galinha, ele tem a necessidade do convívio social, mas esse convívio precisa ser regulado pela justiça.

Segundo o filósofo David Hume (1711-1776), um estudioso da natureza humana (sua obra prima: Tratado da Natureza Humana), o homem necessita da justiça pelo simples fato de ser útil à vida social. A justiça é por excelência a virtude social que canaliza os sentimentos, as paixões dos homens para um mesmo objetivo: o bem-estar de todos. Embora a moral nasça do sentimento e não da razão - esta apenas serve de moderadora -, segundo Hume, ela se apoia na justiça para a regulação da fruição dos bens segundo a justa medida a que cabe a cada um, e, assim, os homens não se deixem seduzir pelo sentimento egocêntrico.

Se, por exemplo, estivesse disponível para todos os seres humanos tudo que necessitam sem que houvesse carência de nada, e seus desejos prontamente satisfeitos em tudo, a justiça seria dispensável. Ninguém reclama por justiça pelo bem que tem em abundância ilimitada como o ar, por exemplo – um bem inesgotável ao qual todos têm acesso (se bem que hoje em dia reclama-se pelo ar poluído na atmosfera). Portanto, se tudo estivesse disponível ilimitadamente, não haveria a necessidade da intervenção da justiça para regular os ânimos egóicos dos homens pela posse exclusiva dos bens materiais limitados.

Ademais, a justiça, sendo útil à vida social, é a virtude que confere “valor à humanidade, à benevolência, à amizade, à fidelidade, à sociabilidade, à sinceridade, etc.”, segundo Hume. Não há vida social pacífica sem a justiça; portanto, os homens não podem ficar indiferentes ao bem-estar de seus semelhantes, pois todos querem a felicidade, e a felicidade particular só se sustenta quando é extensiva aos semelhantes.

A justiça, pois, grosso modo, tem seu aspecto utilitarista que põe os homens em concordância no sentido de que não é o útil particular que promove a paz e o bem-estar, mas o útil público que beneficia a todos. 

Se esse aspecto utilitarista da justiça, isto é, a promoção do bem público e não particular estivesse na consciência de nossos dirigentes e políticos, haveria necessidade de Lava-jato?
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 4-3-2017

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