sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

[Para que servem as borboletas?] Você é uma pessoa tolerante?... Flashs da ética espinosana...

Valdemar Habitzreuter

Somos, muitas vezes, intolerantes uns com os outros. Por que será? Por pura ignorância. Supostamente porque falta-nos o uso correto da razão. Limitamo-nos apenas ao modo empírico ou sensível de conhecer as coisas que nos fornece opiniões e imaginação, mas não a verdade. Assim, tornamo-nos preconceituosos, dificultando a compreensão das ações ou comportamento do outro. Neste caso, focamo-nos única e exclusivamente naquilo que é praticado pelo outro, mas não analisamos o porquê de suas ações e comportamento.

Quando o outro está alinhado com o meu pensamento tudo bem, aplaudo; mas quando não, abomino seu modo de pensar e agir. Acontece que tanto ao outro como a mim falta o elemento do raciocínio correto que é conhecer pelas causas; fixamo-nos mais no efeito e ignoramos a causa do efeito.

Se alguém está dominado pelo sentimento de rancor, por exemplo, e me agride verbalmente não deixo por menos, retribuo na mesma moeda. O agressor não sabe o porquê da raiva, nem eu sei o porquê do mesmo sentimento. Se ambos soubéssemos a causa ou causas que nos levaram a nos aborrecer, talvez não nos indispuséssemos dessa maneira agressiva.

Aplicar adequadamente a razão para um conhecimento que nos leva ao âmago da coisa não é tarefa fácil, exige esforço, mas altamente compensador para uma vida mais gostosa, e facilita os relacionamentos.

O que mais ocorre é que nos deixamos levar pelo conhecimento superficial sensível, pela experiência que temos das coisas e achar que isto nos basta. Com esse conhecimento primário formulamos opiniões imaginativas que não é o verdadeiro conhecimento. Se sinto, por exemplo, raiva é porque algo ou alguém me induziu a isso; e se não me dei ao trabalho de racionalizar o porquê desse algo ou desse alguém ter me deixado neste estado rancoroso, estarei à mercê de seu efeito deletério.

Sabemos que a natureza humana não está à margem da Natureza como um todo; distingue-se apenas de que em nós palpitam sentimentos e paixões como seres racionais que somos. Se na Natureza as coisas acontecem deterministicamente - tudo o que acontece é porque tem que acontecer -, na natureza humana também se dá assim: nossas emoções, paixões são da nossa natureza e nos sobrevêm infalivelmente, não adianta querer erradicá-las com o fito de viver mais feliz, não conseguiremos; a estratégia é dedicar-nos a obter um nível de conhecimento superior ao conhecimento sensível e imaginativo; é necessário submeter-se ao conhecimento racional, lógico, geométrico para conhecer as causas de nossas emoções.

Como em geometria, por exemplo, não há como não admitir que o triângulo tem três ângulos e cuja soma é a de dois ângulos retos, assim também as nossas paixões são passiveis de compreensão lógica; isto é, quais as conexões causais aí implicadas para que tenhamos o conhecimento certo do que nos afeta. Se na era mítica da humanidade os homens se apavoravam com o trovão que era tido como sinal de aborrecimentos dos deuses para com eles, o conhecimento científico nos libertou tanto dos deuses como do medo oriundo da ignorância. Assim se passa com os nossos sentimentos que podem ser explicados com toda clareza e distinção para que não sejamos reféns de medos e sofrimentos.

Este conhecimento superior nos faculta a compreensão das causas que provocam em nós os variados sentimentos, ora de tristeza ora de alegria; e da posse dessa compreensão saberemos agir e nos comportar adequadamente. O sentimento de tristeza (daí se derivam todas as paixões negativas: ódio, cólera, inveja, medo, depressão...) é minimizado por que concluiremos que a causa da tristeza não passa de mero factoide que quer nos derrubar. Ao contrário, o sentimento de alegria (amor, caridade, compaixão...), sabendo-se o que o causou, se algo verdadeiro e nobre, segundo a análise e critério da razão, só pode reforçar mais a alegria, e é o que todos procuramos para sermos felizes.

A questão, pois, é aprimorar-nos gradualmente no conhecimento racional soltando-nos das amarras das opiniões e imaginações para que o negativo dos sentimentos não nos domine; quanto mais avançarmos neste sentido mais as coisas ficarão claras e distintas a ponto de atingir o estágio máximo da racionalidade onde desponta o conhecimento intuitivo com o qual teremos uma visão causal penetrante de tudo que nos cerca e, assim, termos o controle de nossas emoções. Seremos alçados ao amor intelectual de Deus (amor intelectualis Dei), segundo o filósofo Spinoza. Daí em diante a vida se desenrola na virtude acompanhada da felicidade. Virtude (virtus = força, vigor) nada mais é que o conatus, o ímpeto, que nos faculta persistir e apreciar a vida.

Neste patamar de conhecimento perceberemos que não vale à pena deixar-nos levar pelas emoções e paixões negativas que nos infernizam a vida e saberemos substitui-las pelas paixões que positivam a vida anuindo com o filósofo: “nec ridere, nec lugere, neque detestari, sed intelligere” (Não rir, não lamentar, nem amaldiçoar, mas compreender). Isto é, teremos uma atitude de distanciamento emocional daquilo que nos perturba, isenta das imaginações alógicas e arracionais; e teríamos a compreensão das atitudes emocionais daqueles que nos cercam, sem julgá-los, detestá-los, rir-se deles ou lamentar suas atitudes.
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 17-2-2017

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2 comentários:

  1. Valdemar, eu NÃO SOU TOLERANTE.
    TOLERAR IMBECILIDADES, IGNORÂNCIAS, ARROGÂNCIAS, NÃO FAZEM PARTE DO MEU COTIDIANO.
    Tolero ofensas medíocres pessoais, tolero a diversidade, tolero tudo que for opções pessoais.
    Não tolero pelegos, puxa-sacos, idólatras, religiosos estigmatizados, políticos em geral.
    Um tripulante de cabine de comando é extensamente tolerante.
    Os tripulantes de cabine de passageiros são HIPER TOLERANTES.
    Sem citar nomes com quantos boçais fomos tolerantes.
    Você descreve o triângulo muito bem.
    Houve um desse santos católico que disse que um triângulo não pode ter mais do que 180 graus.
    A geometria esférica provou que há.
    Houve que dissesse que a menor distância entre dois pontos é uma reta.
    Nós aviadores sabemos e provamos que não.
    O que admiro em Espinosa é a libertação dos sentimentos e dos sofrimentos.
    Exemplos não faltam no nosso cotidiano.
    Sofreram quando da redução pela intervenção, sentiram-se agraciados com a tutela antecipada, sofrem com os atrasados.
    Sou daquela opinião que quando tudo está ruim, ainda resta um pouco de bom, basta abrir os olhos e olhar ao nosso redor.
    Espinoza tenta acabar com o niilismo humano, isso é impossível.
    Humanos jamais pensam no coletivo além de suas individualidades.
    Felizmente não sou um deles.
    Gosto de tudo no branco escrito em qualquer cor, ou de tudo escrito em branco sobre o fundo preto.
    Não aceito nada escondido.
    Sou de pouco amigos porque não tenho falsidade.
    Quando num grupo heterogêneo unem-se pelegos e puxa-sacos,não estou dentro.
    Prefiro minhas merdas pessoais.
    excelente visão
    FUI...

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    Respostas
    1. Muito bom seu comentário.... Tolerar não significa comungar com a imbecilidade do outro, mas querer saber a causa dele ser imbecil para evitarmos que nós mesmos sejamos imbecis. Tolerar é compreender e torcer para que o imbecil se corrija.... Analisar e descobrir as causas de nossas intolerâncias já é um caminho para a tolerância... A razão nos encaminha para tal. Se ficarmos estagnados no senso comum das opiniões e imaginações, estaremos sujeitos ao trágico da vida....
      Valdemar

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