sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Como as democracias morrem

Sim, há riscos à democracia. E eles vêm da esquerda e não da chamada “direita populista” 

Rodrigo Constantino

Está na moda falar sobre a ameaça “fascista” às democracias ocidentais. Vários alertas têm sido feitos, sem esconder o intuito de atacar o nacional-populismo de direita. Governos como Trump e Bolsonaro suscitaram a publicação desses livros que explicam como as democracias morrem, e a morte, para esses autores, vem sempre pela direita. Mas Jean-François Revel, membro da Academia Francesa de Letras, publicou um livro em 1985 chamado justamente How Democracies Perish, cuja mensagem vai na contramão da atual. O pensador francês estava alertando para a real ameaça às democracias ocidentais: o comunismo, que vem pela esquerda. 

Ele abre o livro em tom pessimista, para reforçar o alerta, alegando que a democracia pode, talvez, mostrar-se um acidente histórico, um breve parêntese que está se fechando diante de nossos olhos. Como a história mostrou, e graças à resistência de liberais, conservadores e cristãos como Reagan, Thatcher e o papa João Paulo II, as democracias sobreviveram, e foi o comunismo soviético que veio abaixo. Não obstante, vale a pena mergulhar nos argumentos do autor, pois a ameaça vermelha muda de estratégia, muda até de cor, mas nunca desaparece por completo. 

O ponto de Revel era que as democracias não estavam estruturadas para se defender de inimigos externos buscando sua aniquilação, especialmente desde o mais recente e perigoso desses inimigos — o comunismo. Essas democracias só despertam para o perigo quando ele se mostra fatal, iminente e evidente. Mas aí resta pouco tempo para salvá-las, ou então o custo desse salvamento se revela elevado demais. 

Essa fraqueza da democracia vem de uma qualidade sua: permitir aos inimigos totalitários uma oportunidade única de agir contra ela na legalidade. Às vezes eles chegam até a obter apoio aberto sem que tal relação seja vista como um rompimento do contrato social. Podemos pensar em partidos comunistas recebendo verbas públicas, espaço de propaganda na TV e tudo o mais, tudo isso para conspirar contra a própria democracia, que consideram uma “farsa burguesa”. 

A democracia não costuma receber crédito por suas conquistas e benefícios

O totalitarismo é, por definição, um inimigo subversivo, mas a democracia trata subversivos como meros oponentes por medo de trair seus princípios. E, para piorar, aqueles que visam a destruir a democracia são vistos como lutando por metas legítimas, enquanto seus defensores acabam tachados de reacionários repressores. É quase um plano perfeito de ataque. 

No mais, a democracia convida naturalmente à crítica, enquanto a combinação de forças dos inimigos totalitários no intento de extinguir a democracia pode ser mais poderosa do que as forças de quem luta para mantê-la viva. A democracia não costuma receber crédito por suas conquistas e benefícios, enquanto paga um enorme preço por todas as suas falhas e fracassos, suas imperfeições e seus erros, de forma que seus inimigos totalitários nunca precisam fazer. 

A coisa atinge um grau quase patológico quando as democracias, pela primeira vez na história, chegam a se culpar por conta de outras forças externas que trabalham para destruí-las. É um caso único de uma civilização que se martiriza pelo desejo dos bárbaros de atacá-la, tamanha é a crença na autocrítica da civilização ocidental. Isso pode levar, alega Revel, a uma perda da autoconfiança. Os defensores da democracia param de acreditar que podem sobreviver, porque a crise interna seria tanto insolúvel quanto intolerável ou então porque a ameaça externa é tida como tão forte que a civilização só pode escolher entre servidão ou suicídio. 

Podemos pensar no pânico ocidental quando Ronald Reagan resolveu falar mais grosso com o império soviético, ou então quando muitos culparam a própria América pelo atentado terrorista em 11 de setembro de 2001 da Al Qaeda. Uma postura adotada por muitos democratas nessa situação é a da típica covardia dos fracos, que pensam que serão deixados em paz pelos valentões se cederem a suas exigências ou se fizerem alguns elogios e afagos a eles em uma cena patética de autoimolação em público, pedindo desculpas por suas qualidades. 

Autocrítica exagerada seria um luxo inofensivo se não houvesse um inimigo no portão

Revel não tinha dúvida de que a grande ameaça vinha da esquerda revolucionária, que praticava atos terroristas na Itália, na Espanha, na Alemanha, em Portugal etc. Mas a propaganda, especialmente francesa, destacava uma ameaça vinda da “nova direita” nos anos 1980, o que não passava da invenção esquerdista de um inimigo imaginário para esconder o verdadeiro inimigo, o comunismo. Revel foi enfático: “A Nova Direita é uma aberração intelectual e moral sem absolutamente nenhum peso político”. Podemos pensar, hoje, na ladainha da esquerda sobre a enorme ameaça vinda dos “supremacistas brancos”, um grupelho insignificante usado como espantalho para atacar os legítimos conservadores. 

Para Revel, a autocrítica é sinal vital da civilização democrática, e uma das razões de sua superioridade, mas, quando se transforma em autocondenação excessiva, sem nenhuma fundação concreta, vira uma fonte de fraqueza e inferioridade diante de uma força imperialista que abandonou tais escrúpulos. Revel estava chamando a atenção para algo bastante atual: qual deve ser a postura adequada da direita democrática perante um inimigo que ignora as regras do jogo? Se for a de muita condescendência e pusilanimidade frente aos totalitários, então a derrota poderá ser inevitável. 

Ficar assumindo que está sempre errado, não importa qual seja a verdade, é algo desencorajador e paralisante. As democracias não deveriam se culpar por pecados que não são seus, que não cometeu, tampouco criar o hábito de se julgar por ideais inacessíveis e utópicos. Autocrítica exagerada seria um luxo inofensivo da civilização se não houvesse um inimigo externo no portão condenando a democracia por sua própria existência, e contando com aliados do lado de dentro do portão. Mas vira um perigo enorme quando, ainda por cima, pinta esse inimigo mortal como o lado correto. 

O receio de Revel era que os democratas tentassem comprar apoio dos totalitários em vez de enfrentá-los. Ajuda financeira, uma espécie de resgate pago ao sequestrador ou chantagista, seria o caminho para levar tais países sob o regime comunista rumo à liberdade. Desafia nossa razão que um sistema que perpetuou por décadas apenas miséria e escravidão possa sobreviver, mas a ideia de que um sistema político autoritário tem de colapsar porque não é capaz de oferecer uma vida decente a seus “cidadãos” é algo que só pode ocorrer a um democrata. 

Chamam de conspiração o que é um plano metódico e incansável de avanço por parte dos regimes totalitários

Pequenos fatores de desconforto já podem perturbar democracias, mais rápido do que fome horrenda ou constante pobreza podem abalar regimes comunistas. Não há elo direto entre prosperidade e revolução. Na verdade, as democracias industriais se viram em condição de maior instabilidade justamente quando tinham enriquecido mais. Em suma, diz Revel, não é a estagnação que alimenta a revolução, mas o progresso, pois cria a riqueza que torna a revolução viável. Podemos pensar hoje nas elites universitárias espalhando o caos, flertando com movimentos como Antifa e Black Lives Matter, depredando cidades e pedindo o fim da polícia, enquanto seus pais gastam verdadeiras fortunas para pagar por seus estudos. 

Já nos países dominados pelo totalitarismo, a sociedade não tem força para reagir, para desafiar o Estado. Mesmo fracassos monumentais, portanto, não necessariamente levam à desintegração desses regimes, tampouco os tornam menos imperialistas ou ameaçadores para as democracias. O poder estatal e a felicidade social não apresentam correlação em um contexto totalitário. Basta citar a Coreia do Norte como exemplo, ou mesmo Cuba. É um erro que Revel condenava adotar a lógica democrática para sistemas totalitários. Democracias tendem a cortar o orçamento bélico quando a economia vai mal, por exemplo, enquanto países comunistas, não. 

Mas muitos democratas preferem rechaçar qualquer preocupação concreta com tal ameaça. São facilmente transformados em inocentes úteis pela propaganda comunista. Repetem que é fobia ou histeria esse tipo de alerta feito pela direita e chamam de conspiração aquilo que, bastando observar friamente, é um plano metódico, paciente e incansável de avanço e domínio por parte dos regimes totalitários. Políticas de defesa devem se basear em hipóteses realistas ou de pior cenário, mas os democratas preferem adotar uma visão otimista ou mesmo indulgente em relação ao perigo. 

A democracia, na defensiva contra a ofensiva totalitária, não ousa admitir que já está na batalha. E o medo de conhecer a verdade leva ao medo de chamar as coisas por seu nome. Daí a falta de clareza moral, os eufemismos, as ironias contra quem enxerga com mais transparência o que está em jogo. “Comunistas vão te pegar”, brincam aqueles que acham que a ameaça real desaparece se for tratada como troça. “Islamofobia”, repetem os que acreditam que os inimigos vão se tornar amigos se as democracias cessarem as críticas aos fanáticos. 

Em sua conclusão, Revel expõe a questão fulcral diante dos leitores: devem as democracias consentir em lutar para escapar da escravidão ou aceitar a escravidão para escapar da guerra?

Ou, pior ainda, devem lutar uma guerra que poderá acabar em escravidão? Para Revel, a esperança era que as democracias ainda tivessem tempo de poupar tanto a guerra como a escravidão, o que de fato aconteceu, até aqui. A ameaça chinesa continua, mas o império soviético ruiu. E isso se deveu em boa parte ao fato de que o trio Reagan, Thatcher e João Paulo II mostrou clareza moral e firmeza no combate ao inimigo, enquanto muitos democratas, horrorizados, achavam que essa postura levaria ao caos. 

Hoje vivemos situação análoga. Os mesmos que insistem nos alertas de que as democracias correm perigo mortal por conta da “direita populista” dizem que não devemos criticar o regime comunista chinês, por “pragmatismo”, já que se trata de um grande parceiro comercial. As democracias ocidentais de fato correm perigo, mas ele, uma vez mais, não vem da direita, e sim da esquerda. 

Título e Texto: Rodrigo Constantino, revistaOeste, 18-9-2020

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