A Toca do Lobo
No banquete das vaidades tropicais, onde o sutil é diariamente esmagado pelo exibicionismo e a política se confunde com um reality show de baixo orçamento, fomos brindados com a mais nova iguaria do "Palácio Real de Brasília": a paca ao molho pardo.
A patética cena (mais uma do
casal) foi exibida com a nitidez de um pesadelo de Kafka, porém com trilha
sonora brega e figurino de gosto duvidoso: a primeira-dama, munida de um
avental que provavelmente custa o PIB de uma pequena cidade do interior, manuseia
os pedaços do animal silvestre enquanto o presidente, num papel de monarca em
repouso após a exaustiva tarefa de falar (e fazer) besteiras, aguarda o
veredito do paladar.
O problema de brincar de ser
rei e rainha é que, eventualmente, esquece-se que as leis — aquelas coisas
incômodas escritas em papel timbrado — deveriam valer para os moradores do
castelo, assim como valem para os plebeus. A paca, esse pobre roedor que só
queria existir em paz na mata, torna-se o símbolo de um governo que degusta
absurdos com um sorriso no rosto.
De acordo com a Lei de Crimes Ambientais, o ato de caçar pacas é punido com detenção de 6 meses a 1 ano e multa, a menos que você tenha uma nota fiscal de um criadouro ou a fome de um náufrago. Mas para o casal "real", a nota fiscal é só um mero detalhe burocrático que não combina com a estética do Instagram. O que importa é a autenticidade da "iguaria", mesmo que ela venha temperada com uma generosa dose de desinformação e um desprezo olímpico pelas normas que Luís XVI e Maria Antonieta versão "Sai da Baixo", na prática, deveriam zelar.
Mas quem se importa, não é
mesmo? É só mais um gesto de um mau gosto tão refinado que beira o
existencialismo. Enquanto o país enfrenta o maior desmatamento da história
(sim, você não vai ver artistas em cantoria sobre o assunto) e discute a
preservação, o topo da pirâmide exibe a carne do bicho na panela como se fosse
um troféu de uma elite que já não se importa em esconder o total e amplo
descolamento da realidade.
Não importa se a iguaria tinha
procedência legal, já que o simbolismo é de uma ilegalidade moral absoluta. É a
estética da ostentação em meio ao caos: viaja-se com o luxo de um califa e
janta-se com a audácia de quem se sente acima do bem, do mal e, principalmente,
do Ibama. No fim, resta ao cidadão a indigestão de assistir a essa divina
comédia humana, onde o roteiro é escrito por quem confunde poder com privilégio
e a paca, pobrezinha, é apenas o acompanhamento de um prato principal muito
mais amargo: a extrema arrogância governamental.
Texto e Imagem: A Toca do Lobo 🐺, Facebook, 7-4-2026, 10h46


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