sexta-feira, 3 de abril de 2026

As “Noélias” do nosso tempo: entre o direito a morrer e o dever de cuidar

Cristina Miranda 

A história de Noélia não é apenas uma história sobre eutanásia. É, antes de tudo, uma história sobre sofrimento – e sobre aquilo que acontece quando esse sofrimento não encontra resposta suficiente.

É por isso que este caso nos obriga a ir além das posições fáceis. Não se trata apenas de ser “a favor” ou “contra”. Trata-se de olhar com honestidade para uma pergunta mais difícil: estamos, enquanto sociedade, a fazer tudo o que está ao nosso alcance para evitar que alguém chegue a esse ponto?

Para compreender verdadeiramente o que aconteceu, é essencial olhar para a sequência de acontecimentos que marcaram a sua vida: Noélia, filha de uma família espanhola disfuncional e com problemas financeiros, foi retirada do seio familiar e institucionalizada. Na instituição estatal que a acolheu, foi vítima de agressões sexuais coletivas graves, repetidamente – um dos traumas psicológicos mais devastadores conhecidos. Após esses episódios, entrou num estado de sofrimento profundo, que culminou numa tentativa de suicídio – atirando-se de um edifício. Sobreviveu, mas ficou com lesões irreversíveis e passando a depender de terceiros para quase tudo. A partir daí, viveu com dor física crónica, limitações severas, sofrimento psicológico persistente. Ao longo do tempo, esse sofrimento não desapareceu. Pelo contrário, tornou-se estrutural na sua vida. Após um longo processo de reflexão e avaliação médica e legal, decidiu pedir a eutanásia, decisão que foi analisada por vários profissionais, contestada judicialmente pelo próprio pai e confirmada pelos tribunais. Morreu após um processo legal que durou cerca de 600 dias.

A ciência é clara em vários pontos: a violência sexual pode deixar marcas profundas e duradouras. O risco de depressão e suicídio é muito elevado. O sofrimento não é apenas físico – é também psicológico, existencial e social.

Mas há outro dado igualmente importante: o apoio faz diferença. E muita. No acompanhamento psicológico precoce, validação da vítima, presença humana consistente e controlo eficaz da dor. Tudo isto pode reduzir drasticamente o sofrimento e, em muitos casos, o desejo de morrer. E é aqui que o debate se torna desconfortável,  mas necessário.

Há duas formas simplistas de olhar para o caso: “Foi uma escolha livre, ponto final” ou “Foi empurrada para isso pelo sistema”.  Nenhuma delas, isoladamente, faz justiça à complexidade da realidade.  Mas há uma pergunta que não pode ser ignorada: se tudo tivesse sido feito de forma exemplar – desde o apoio após o trauma até ao acompanhamento contínuo, o desfecho teria sido o mesmo? A resposta honesta é: não sabemos. Mas também sabemos isto: há sofrimento que poderia ser evitado, e muitas vezes não é.

O que se vê no caso de Noélia não é exclusivo dela. Quem trabalha, como eu, com idosos, doentes crónicos ou pessoas dependentes, conhece esta realidade por dentro: solidão profunda, sensação de inutilidade, dor mal controlada, abandono emocional.  E sabe algo que raramente aparece nos debates políticos: muitas pessoas não querem morrer – querem deixar de sofrer. Quando recebem atenção diária, cuidado humano, controlo da dor, o desejo de morrer frequentemente diminui. Foi o que constatei ao longo da minha, já longa, experiência profissional neste sector.

Aqui entra uma das maiores fragilidades dos sistemas de saúde: acesso insuficiente a cuidados paliativos, falta de acompanhamento psicológico continuado, respostas fragmentadas e desiguais. Sem estas condições, surge uma questão ética inevitável: é legítimo falar de “escolha livre” quando faltam alternativas dignas? Em países onde a eutanásia é legal há mais tempo, os cuidados paliativos não desapareceram – em muitos casos até cresceram e a maioria das pessoas que recorre à eutanásia já teve algum tipo de acompanhamento. Mas isso não resolve tudo. Persistem questões reais: pessoas que se sentem um “peso”, sofrimento que não é apenas físico, decisões influenciadas por contexto social e emocional. Ou seja, mesmo sistemas mais desenvolvidos não eliminam o problema, apenas o tornam mais visível.

O verdadeiro risco não é necessariamente uma intenção deliberada de “empurrar” alguém para a morte. É algo mais subtil – e talvez mais perigoso: falta de investimento, respostas insuficientes, normalização do sofrimento evitável. E, nesse contexto, a eutanásia pode surgir não como escolha pura
mas como última saída num sistema que falhou antes.

O caso de Noélia não deve servir para simplificar o debate. Deve servir para o aprofundar. Porque, no fundo, obriga-nos a confrontar isto: estamos a criar uma sociedade onde as pessoas querem viver ou uma onde apenas toleram viver até deixarem de conseguir?

Podemos discordar sobre a eutanásia. Podemos ter posições diferentes – todas legítimas. Mas há algo que não devia ser discutível: nenhuma pessoa deveria chegar a esse ponto por falta de apoio, nenhum sofrimento evitável deveria ser ignorado, nenhuma vida deveria ser vivida sem dignidade.

Antes de discutir o direito a morrer, temos o dever de garantir condições para viver. Se falharmos nisso, então a pergunta deixa de ser sobre liberdade e passa a ser sobre responsabilidade. E essa – coletiva – é impossível de ignorar.

Título e Texto: Cristina Miranda, Blasfémias, 3-4-2026

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