segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Espantos

Maria João Avillez

1. Não é que não esteja habituada à camada de solidão por cima de mim, como a do ozono, ou que estranhe alguma pancada. Quem não tem inimigos, não tem amigos. Mas desta vez não foi bem isso. Foi uma solitária estranheza face às suposições e vaticínios sobre que desfecho assinará o Presidente da República para pôr cobro a “isto” … (fica assim, em branco, cada leitor escolherá, de entre o imenso leque disponível, qual o substantivo que mais lhe aprouver para definir as semanas ocorridas desde o dia 4 de Outubro. Eu, já não consigo).

À hora a que escrevo (domingo) não é pública nem oficial nenhuma decisão presidencial. O Palácio permanece mudo. Não interessa lembrar que Soares demorou 25 dias a “decidir-se” ou que Sampaio ouviu também um interminável cortejo de gente da alta. Não vale a pena recordar nem esse nem outros gestos presidenciais passados porque, hoje, só uma prioridade conta: insultar o Presidente da República. Torná-lo alvo de rancores e objecto de insultos, enraivecidos uns e outros. Tão nervosos andam os insultantes que se suspeita da pouca confiança que as esquerdas têm afinal em si próprias e na sustentabilidade, exequibilidade e estabilidade do seu “acordo” com aspas. 

Fosse como fosse, espantei-me, repito, com as perguntas mil vezes ansiosamente repetidas, à esquerda e à direita, sobre o fim deste inédito lance político; surpreenderam-me as exibições non stop nos vários palcos políticos de protagonistas e figurantes, como tem havido poucas nas últimas décadas. Surpreendi-me ainda que o nervosismo à flor da pele socialista tivesse produzido uma apreciável variedade de baixos insultos e um tão mau uso das boas maneiras, mas é bem sabido que cada um se serve do que habitualmente pratica.


Mais relevante porém do que ter ou não ter bons modos é que subitamente, o preço do desacordo político passou de um dia para o outro a ser cobrado em insultos em vez de argumentos. Outra estreia absoluta, numa temporada onde têm sido fartas. E isto sim, aflige e perturba: não é toda a gente que está municiada para combate tão desigual. Entre outras coisas, é preciso saber manipular mentes e ter destreza no uso de alguns maus sentimentos.

Cavaco toma o seu tempo, prefere não alterar calendários externos e rotinas internas? Pois bem, atira-se-lhe com impropérios pesados. O Presidente não tem o direito de escolher o seu “timing” nem de ouvir quem julga conveniente? Não, porque a esquerda e a extrema-esquerda não suportam serem postas “em espera” por um outsider sem pergaminhos. Cavaco exibe uma postura serena e uma passada tranquila? É um gangster e pior, um gangster sem pressa. Belém não trata do país como se ele fosse Paris? Disparam-se cada vez mais alto, acusações de teor cada vez mais baixo. 

Enfim, voltando ao espanto, o caso é que quer nos colegas, nos amigos, nos adversários, nos inimigos e tutti quanti, me fartei de tropeçar em gente que, à hora a que escrevo, ainda se interroga: “e Cavaco, vai fazer o quê?”

Pois bem, repito o que aqui tenho alinhavado: que há de o Presidente vir a fazer senão o que fará amanhã ou depois? Igual si próprio, inalterável e previsível, fará simplesmente o que deve. Muita gente séria, boa, informada, confundindo o que supõe serem os íntimos desgostos do cidadão Cavaco Silva com os deveres presidenciais face à Constituição, projectou cenários e apontou soluções governamentais outras, como se as houvesse.

Ao longo de semanas, por exemplo, não hesitou tal gente em colocar um governo de gestão num dos pratos da balança, e no outro prato, um governo da esquerda e da extrema-esquerda. Mas onde estavam os protagonistas da “gestão” e quem lhes abriria a porta de um poder desmunido de visto eleitoral, se a coligação que o ganhara nas últimas eleições, fora deitada borda fora? E onde estava o motor da vontade presidencial para pôr a funcionar tal governo? E, last but not least, que ganhava o país com isso? Não percebo.

Mesmo sabendo-se como o acordo entre as esquerdas é esburacado e postiço, sucede que, sem surpresa – minha, pelo menos -, os desacordados estarão, em menos de um fósforo, sentados em S. Bento.
Um alívio que tardava, de resto: poderá começar outra coisa. Mesmo que acabe noutra República.

2. Também me espantei (desculpem, eu sei, é espanto a mais) com o caso “Marcelo e os seus apoios”. Tanto barulho. Uma boa fatia da direita não perdoou a glacial indiferença do candidato presidencial para com a sua desnorteada orfandade. Sucede que Marcelo, que nunca na vida se comprometeu com nada – a não ser com Deus mas isso é outra (contraditória) história -, não era agora, na hora mais politicamente “H” que ele viveu até hoje, que o iria fazer. Nem o seu lado “ligth” o ajudaria nessa boa acção.

Seguro de que tem já no bolso os mesmos votos obtidos pela coligação em Outubro, conta passar um Natal em paz. Com o centro-esquerda, claro, que namora com habilidade e método e tanto faz que também sem grande pudor (há quem lhe chame talento). Depois, mais perto do final da campanha eleitoral, aí uns dias antes, lembrar-se-á da gente de Passos Coelho e dar-lhe-á a esmola de um discurso, um olhar, uma atenção. Com sorte até talvez lhe dedique um comício.

Um muito arguto político social-democrata dizia há dias “mas ele nunca foi dos nossos”, perguntando furioso se “alguma vez Marcelo estivera convictamente com Sá Carneiro? ou com Francisco Balsemão? ou com Cavaco? ou com Passos?”

Não esteve. Esteve “com o PSD”, conseguindo sempre a proeza de compatibilizar o “o muito amor pelo seu partido” com o fastio relutante que sucessivamente lhe inspiravam tais personagens. Lembro-me bem de tudo isto, do que vi e ouvi, foram muitos anos.

Seja como for, e custando a engolir ou não, não há outro e daí o tal (meu) espanto: inventar um Presidente da República em cima da hora? Desunindo e cortando ao meio um eleitorado em maré baixa?

De modo que Passos Coelho  (o primeiro a saber desde há muito que não há outro) tenha feito bem em travar as suicidárias veleidades de uma direita pouco dotada a separar águas e objectivos. E Portas idem, ao acelerar publicamente a sua (recuperada) convicção marcelista. Tudo isto para dizer que sendo as coisas o que são – não as tivessem deixado chegar a este miserável estado de orfandade presidencial, – não vale a pena ter estados de alma com Marcelo Rebelo de Sousa. Lembrem-se de Cunhal com Soares (“tapem a foto e ponham a cruz no nome”). Soares e Cunhal que sabiam o que era a política e como a fazer.

Aqui chegados, vamos ao “ponto” desta história. Que não é, julgo eu, nem a indiferença de Marcelo pelas feridas da sua área política, nem o seu desamor por Passos Coelho (e vice versa), nem a sua evidente cumplicidade com António Costa. O ponto é o próprio Marcelo. E a sua manifesta dificuldade em perceber que a transformação da popularidade em votos pode não ser automática e que o que se lhe exige é que saiba passar do comunicador bem-amado para candidato vencedor à primeira volta. Sem perder a empatia do primeiro, nem pôr em risco a pele do segundo. Missão impossível? Não sei. Mas sei que o seu amadorismo algo infantil, o excesso de confiança, a falta de hábito do trabalho em equipa – de que necessita, em vez de fazer tudo sozinho, como quase sempre até aqui, pondo e dispondo – não ajudam. Sobretudo porque o seu lado “leve”, vetando-lhe qualquer espécie de compromisso, pode atrapalhar-lhe a caminhada.

Talvez só se compreenda bem o que pretendo dizer quando as sondagens começarem a baixar. Isto é quando os deslumbrados alunos do “Professor” perceberem que agora quem ali está já não é o  –  divertido – entertainer-campeão-de-audiências-televisivas-dominicais, mas um cavalheiro sisudo que não parece ter muito a dizer-lhes nas suas (intencionalmente escassas) “aparições” públicas. Convinha arrepiar este caminho e se possível até ao comprometimento. Talvez Marcelo ainda não tenha percebido que se há factor que interpele um eleitorado – de direita ou de esquerda – é o “compromisso”. E a confiança que ele grava no intimo de cada eleitor.
Título e Texto: Maria João Avillez, Observador, 23-11-2015

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