sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

António Costa não é um pastel de nata

Rui Ramos
Os partidos democráticos na Europa parecem tentados a reduzir a política à aritmética: já não interessa o que os partidos extremistas defendem, mas só de quantos votos dispõem.

Durante dois meses, discutimos a política portuguesa como se fosse tão específica como o pastel de nata ou o galo de Barcelos. Ora, não é. Há muita coisa que é difícil de traduzir em Portugal, mas não os nossos problemas políticos. A Espanha e a França poupam-nos a todas as ilusões de originalidade, e podem servir também para vermos melhor o que está em causa.


Em Portugal, temos António Costa. A Espanha, por exemplo, tem Pedro Sánchez. O líder do PSOE é outro socialista desesperado. Durante o Verão, proclamou que estava pronto a unir-se a quem quer que fosse para ser governo, mesmo que perdesse as eleições. Recentemente, porém, introduziu uma nuance: afinal, só fará pactos no caso de ganhar as eleições. Nem que seja por um voto, mas tem de estar à frente do PP: “o importante e o decisivo é quem vai ser a primeira força política em Espanha”. É provável que Sánchez esteja apenas preocupado em prevenir uma aliança de Ciudadanos com o PP. Mas também é possível que, tendo olhado para Portugal, não queira acabar à mercê de comunistas e de radicais, como aconteceu a António Costa, que todos os dias tem de ouvir Jerónimo de Sousa e Catarina Martins a explicarem-lhe a situação (na passada sexta-feira, foi Jerónimo: “Não estamos nem perante um governo de esquerda, nem uma aliança de esquerda ou das esquerdas”). Terá Sánchez finalmente percebido que, como Rajoy insiste, a regra de entregar o governo ao partido mais votado seria a melhor maneira de refrear os “partidos emergentes” e reservar o poder para os dois grandes partidos do regime?

Em Portugal, temos o PCP e o BE. A França tem a Frente Nacional. Em França, até agora, os votos não eram todos iguais. Em vez do “arco da governação”, havia a “frente republicana”, a qual, através do sistema eleitoral, tem excluído a FN, não apenas do governo, mas da própria representação: a FN é o maior partido de França, com 28% dos votos na primeira volta regionais, mas tem apenas 2 deputados na Assembleia Nacional (o PS, com 23% dos votos, tem 258). Manuel Valls, o primeiro-ministro socialista, já apelou ao voto da esquerda na direita republicana, onde essa for a única maneira de manter a FN de fora. Mas o líder da direita republicana, Nicolas Sarkozy, não parece empenhado em qualquer reciprocidade. Há anos que a direita republicana hesita em derrubar o “muro” com a direita nacionalista. António Costa, em Portugal, não hesitou em relação ao comunismo. Isso explica talvez a indiferença de Augusto Santos Silva perante o sucesso da FN em França. Que podia dizer, quando Costa trouxe para a área do poder em Portugal partidos tão protecionistas e tão anti-europeus como os nacionalistas franceses? Costa desarmou a esquerda democrática portuguesa perante os extremismos. Já lá vão os tempos em que todos condenavam a ascensão da extrema-direita. Na Grécia, foi o próprio Syriza que levou a direita nacionalista ao poder. Dantes, os extremos tocavam-se; agora, ajudam-se.

O que é novo em Portugal, na Espanha ou na França não são tanto os resultados eleitorais dos partidos “anti-sistema” (o PCP e o BE valem hoje, juntos, menos do que o PCP em 1979, e a FN já foi segunda nas presidenciais de 2002). A novidade é a tentação dos partidos democráticos (ou “republicanos”, como se diz em França) de incluir os extremistas nos seus jogos de poder, isto é, reduzir a política à aritmética: já não interessa o que esses partidos defendem, mas só de quantos votos dispõem. Daí a tese, muito conveniente, de que os “votos são todos iguais” ou (como argumenta Sarkozy em França) que já não há “votos contra a República“.

Em Portugal, já aconteceu; em Espanha ou em França, pode acontecer. O custo é óbvio: o fortalecimento desses partidos através das instituições de que até agora andaram excluídos. No caso do PCP, já se percebeu o que quer: preservar a sua base de guerra nos transportes urbanos, anular a Concertação Social, etc. Em troca do poder, parecem até dispostos a admitir a “austeridade”, como o Syriza na Grécia. Vão as democracias mudar o PCP e a Frente Nacional, ou vão eles acabar por mudar as democracias? Os votos são todos iguais, mas as ideias e os partidos não.
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 11-12-2015

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