sexta-feira, 22 de abril de 2016

Lições de Brasília

Paulo Tunhas
Dilma Rousseff presidiu durante anos a um Governo que manteve, e até aumentou, uma corrupção estratosférica. Para não falar da inacreditável tentativa de levar Lula para o Governo
Na semana passada, almocei em casa de velhos e muito bons amigos. Em frente a uma bela lampreia, e, depois, na companhia de uma mousse de chocolate como já não comia há séculos, a conversa girou em torno de alguns dos costumeiros delírios da política nacional. João Soares, é claro, e a velha e consistente tradição de violência da linguagem no PS, de que Jorge Coelho (“Quem se mete com o PS, leva!”) e Augusto Santos Silva (“Eu gosto é de malhar na direita!”) são bons exemplos. Embora não se deva confundir tudo: Jorge Coelho e Santos Silva percebiam o que estavam a dizer.

Também houve grande galhofa por causa da proposta do Bloco de Esquerda para que se substitua o “Cartão do Cidadão” pelo “Cartão da Cidadania”. Dantes, havia uma obsessão com o sexo, e consta até que alguns vitorianos, com medo de que as pernas das mesas inspirassem sentimentos impróprios em certos indivíduos, as cobriam com púdicas saias. Os tempos mudaram: foi-se o sexo, chegou a obsessão com o género. O Bloco limita-se, de resto, a adoptar as modas de pronto-a-vestir intelectual que os transvios do génio humano põem à sua disposição. A “cidadania” do Bloco é a saia dos outros.

Ainda mal tinha eu acabado de fazer a digestão da lampreia, quando chegou a votação do impeachment de Dilma em Brasília, e, a seguir, as reacções portugueses à coisa. As reacções, como seria de esperar, foram maioritariamente de condenação e de desprezo: condenação pelo suposto “golpe” que a votação representava e desprezo pelo curioso ritual a que os deputados da Câmara se prestaram com visível gosto.

Por acaso, vi em directo, através de um canal brasileiro, e até às três da manhã, a votação dos deputados dos vinte e cinco partidos em Brasília, de que o Observador, seja dito de passagem, fez uma óptima cobertura. Primeiro, a puxar para o assombrado, e, depois, Deus me perdoe, rindo-me de vez em quando. Praticamente tudo o que me faça esquecer o próximo resgate que António Costa e Mário Centeno nos andam a preparar tem o condão de me pôr de boa disposição.

Notei o que muita gente notou. O modo como quase todos os deputados que votaram “sim”, nas declarações individuais de voto, agradeciam, sensivelmente por esta ordem, a Deus, aos estados que representam, às cidades de que são originários ou onde se estabeleceram, à bancada partidária, à mulher, aos filhos (quase sempre com nomes – as mulheres não), alguns aos netos. Um até voltou atrás, depois de dois outros falarem, para dizer que se tinha esquecido de falar do filho – e disse o nome. Houve também, pelo menos uma vez, cantoria, com chuva de papelinhos, e votos de feliz aniversário a netas. Não faltaram sequer profecias: “Em nome do Senhor Jesus, profetizo…”. A honra das famílias foi defendida, tal como os princípios ensinados às filhas. Sob o olhar do Grande Arquitecto do Universo, votou-se em nome de mulheres que estavam a morrer e de filhos ou netos que estavam a nascer. O particularmente aplaudido deputado Tiririca, que votou “sim”, foi dos mais sóbrios e comedidos. Mas ninguém se enganou no “sim” ou no “não” – erro: houve um deputado de Minas Gerais que se enganou, parece-me, e corrigiu -, e, talvez mais surpreendentemente, ninguém se esqueceu do nome dos filhos, nem do número exacto de votos que tinha recebido para ser eleito.

O “sim” e o “não” repetiam frases simétricas. Se o “não” falava “em nome dos 54 milhões de votos de Dilma”, o “sim” respondia “em nome dos 10 milhões de desempregados”. Se o “sim” dizia “Deus”, “Família”, “Amor”, o “não” dizia “Golpe”, “A luta continua!”, “Não passarão!”. Lá fora, na rua, o “sim” vestia-se das cores da bandeira, o “não” de vermelho. No meio de tudo isto, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, recebia impávido, com a aparência de um sábio estóico, os insultos (“corrupto”, “gangster”, etc.) que lhe eram directamente dirigidos pelos votantes do “não” e alguns do “sim”. Nem Fernando Correia, na saudosa “Bancada Central” da TSF, confrontado com energúmenos que se insultavam uns aos outros e que às vezes se ameaçavam de valentes murros, conseguia manter uma calma tão soberana, a roçar a pura e simples indiferença. E isso até ao fim, pelo menos até às três da manhã, quando o “sim” ganhou (o voto 342), pondo termo a uma irritação cada vez mais notória da maioria com cada voto “não”, que adiava o prazer da vitória. Um tipo assim quase que tem direito a ser corrupto.

Sou o primeiro a admitir que é fácil encontrar em tudo isto razões para várias surpresas e, para quem estiver virado para aí, um riso mais ou menos nervoso. Convém, no entanto, ver também a coisa por outro lado. Primeiro, no que diz respeito à questão do “golpe”. Por muito pouco recomendáveis que sejam os principais líderes da oposição a Dilma, a questão de se saber se houve ou não “crime de responsabilidade” por parte da Presidente (ainda alguém diz “Presidenta”?) está muito longe de receber maioritariamente a resposta negativa que se subentende nos comentários que por cá se podem ler. Além de que Dilma Rousseff presidiu durante anos a um Governo que manteve, e até aumentou, uma corrupção estratosférica. E para não falar da inacreditável tentativa de levar Lula para o Governo, na intenção de o proteger de condenações judiciais e, quase fatalmente, da prisão. (É ministro ou não é? É ministro io-iô.)

Em segundo lugar, o desprezo pelos particulares rituais dos deputados brasileiros. Sem dúvida que é de ficar agradecido que os nossos deputados não invoquem a mulher, os filhos e o resto quando votam a favor de uma proposta do Governo (têm a “ética republicana” para casos de necessidade extrema). Mas a verdade é que, na sua generalidade, também ninguém os imagina a responsabilizarem-se tão pública e directamente face aos seus eleitores como se viu os deputados brasileiros (tanto os do “sim” como os do “não”) individualmente fazerem. Com doses muito grandes de hipocrisia e facciosismo, admito, mas também com alguma coragem (por razões óbvias, mais visível até no “não” do que no “sim”). De resto, seria bom atenuar em parte a suposição de hipocrisia. Quem quer que tenha passado o tempo suficiente no Brasil, dá-se conta, com surpresa, que certos preconceitos que para lá se levam, como por exemplo o preconceito da superficialidade da simpatia e da afectividade extrovertida dos brasileiros, são exactamente preconceitos errados. A simpatia é mesmo, na esmagadora maioria dos casos, genuína. Nós, na Europa, embora não nos Estados Unidos, é que nos esquecemos da simpatia. Experimentem passar seis meses no Rio, e depois cheguem à Europa e digam-me. Não digo que isto valha sem falhas para justificar o estilo dos deputados brasileiros. Sugiro apenas que pode haver alguma relação.

De qualquer maneira, se quisermos tirar indignações dos bolsos, como uma vez disse Vasco Pulido Valente, ou então rirmo-nos do ridículo alheio, temos por cá muitos e bons assuntos. O arranjinho (legal) de António Costa para ser primeiro-ministro. O desastre de um Governo que finge que governa e se limita, na prática, às célebres “reversões”, conduzindo-nos por muito maus caminhos. O ziguezaguear permanente, ao sabor das pressões das corporações, das decisões do Governo. A nossa corrupção nacional, que também conta, como se sabe, com personagens ilustres. Ou, para voltar ao princípio, o prodigioso “Cartão da Cidadania” de Catarina Martins. Não apenas para rir. Há ridículos que não são só para rir. Contêm ameaças sérias, como aqui, ainda ontem, explicou José Manuel Fernandes
Título e Texto: Paulo Tunhas, Observador, 21-4-2016

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