quarta-feira, 27 de abril de 2016

Ordem e Progresso

Alberto Gonçalves
As subtilezas da ciência política não são para qualquer um. Em Outubro passado, não sei se se lembram, houve por cá um arranjinho no parlamento para remover um Governo eleito dias antes, liderado pelo partido mais votado, e colocar em seu lugar uma irrelevância desprezada nas urnas. Para os leigos, o exercício não passou de uma trapaça rasteira, ou no mínimo de uma artimanha pouco ética.

Felizmente, os peritos explicaram: muito pelo contrário. Na verdade, aquilo era a vontade do povo em acção, a Constituição a plenos pulmões, o derrube dos últimos muros, um tempo novo enfim. Ficámos todos descansados. E agora surgiu a questão brasileira e ficamos todos confundidos outra vez.

Um ignorante esperaria que o processo destinado a enxotar a dona Dilma, rosto de um poder demasiado corrupto até para os padrões latinos, fosse recebido em êxtase pelos nossos especialistas em legitimidade. Não foi. Para o PCP, paradigma na matéria, a coisa é "um novo e perigoso passo em frente" e uma "ofensiva golpista" das "forças reaccionárias" e do "imperialismo" (o PCP aproveitou para se declarar solidário com "os trabalhadores e o povo brasileiros"). Para um deputado do Bloco de Esquerda, o "golpe" é "racismo", "fascismo", "boçalidade machista", "absurdo" e "nojento" (o deputado em causa aproveitou para se declarar solidário com os seus "amigos e amigas brasileiras [sic]"). Para uma deputada do PS, o "golpe de Estado" é "demagogia populista" (inexplicavelmente, a senhora não se solidarizou com ninguém). Para uma socialista que não sei ao certo o que faz todo o episódio "é uma vergonha" e "um atentado à democracia".

No fundo, cá e lá, a regra parece ser a seguinte: os representantes do eleitorado podem e devem derrubar os governos de que a esquerda não gosta apenas porque lhes apetece. O recurso à "fundamentação" (exemplos: "austeridade", "subserviência a Bruxelas", "neoliberalismo", falta de "consciência social") é facultativo. Já os parlamentares não podem nem devem perturbar os governos de que a esquerda gosta, os quais, por seu lado, estão à vontade para amesquinhar a ralé quando lhes apetecer.

Ao invés do que acreditam os simples, a corrupção e o saque organizado não são valores absolutos, donde um governo "reaccionário", ainda que pio como Francisco de Assis, seja sempre culpado de cedência ao capital, e um governo de esquerda, ainda que assalte transeuntes à mão armada, seja sempre vítima de conspirações pérfidas. As mesmas subtilezas aplicam-se à formação cívica: há os deputados selvagens que invocam a avó Juraci e Iemanjá para depor a dona Dilma e há a dona Dilma, que não profere uma frase sem trucidar a língua e, não obstante, é a predilecta da "cultura" (não comento o caso nacional, incluindo um primeiro-ministro que passeia o ciclo preparatório, ministros que dizem "tenhemos" e sumidades que tomam o dr. Boaventura por um intelectual).

Contas feitas, tudo isto remete para um grave problema das democracias: existem. O mundo seria um lugar melhor se não existissem, substituídas por simulacros a cargo das forças progressistas, afinal as únicas que sabem o que lhe convém a si, a mim e aos idiotas dos brasileiros que não apreciam o roubo, perdão, o progresso.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Sábado, 26-4-2016

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