segunda-feira, 25 de julho de 2016

[Estórias da Aviação] A Junta Disciplinar

Alberto José

Em agosto de 1976, eu estava há dez anos na VARIG e trabalhando na primeira classe do B-707 quando, ao passar por um passageiro ele fez sinal e me aproximei. Então, ele tirou da boca um caco de vidro que estava no copo de suco que ele estava bebendo. Desculpas formais, irritação do passageiro; eu prometi mandar um relatório sobre o incidente.

Algumas semanas depois, quando a Comissária serviu um suco, o copo se partiu e molhou a roupa da passageira. Mesmas desculpas e tentativa de contornar o problema.

A partir daí, comecei a examinar os copos, encaixados com arame no lugar de molas, o que danificava os copos da primeira classe.

Esses incidentes foram relatados em reclamações (reportes) que eu mandei para o setor HV do DSB sugerindo melhor fixação dos copos nas caixas. Meses depois, eu constatei que nada havia mudado, e que eu poderia até ser responsabilizado por algum passageiro com a garganta cortada.

Uma tarde, fui ao setor HV e pedi a resposta dos relatórios que eu havia mandado. A secretária me informou que não havia relatório algum sobre o assunto.

Preocupado com o descaso, fui almoçar na empresa e encontrei a gentil secretária do Diretor (hoje falecida). Contei a ela o problema e perguntei se o Diretor aceitaria receber um relatório sobre o assunto. Ela respondeu: “Mas, é claro. Pode deixar na minha mesa.”

Eu sabia que estava quebrando uma cadeia hierárquica “fatiada entre amigos” e iria pagar por isso. Mas o dever estava acima das incongruências político-administrativas. Na minha visita seguinte ao HV, para tratar de outro assunto, notei frieza e olhares ameaçadores, certamente causados pela minha “ousadia”. No episódio seguinte, eu estava voando DC-10 na classe econômica e fui avisado que estava escalado em uma tripulação fixa, que permaneceria junta durante três meses.

No primeiro voo, ao embarcar, me senti intimidado com o clima ameaçador. Vi que a tripulação tinha sido escolhida “a dedo” para me constranger e castigar. O chefe, muito considerado pela facção do grupo, me assediou moralmente o tempo todo, procurando me responsabilizar por tudo que dava errado no serviço.

Ao longo dos voos, eu ficava sozinho e nem cumprimentava os “colegas” da facção. O clima era brutal.

Nesse ponto, eu fui à chefia e pedi para sair da tripulação. O chefe, com uma ponta de malícia negou, dizendo que seria melhor que eu ficasse até o fim para ver o que iria acontecer!

Eu estava almoçando, como sempre sozinho, no restaurante do hotel e o dedicado e ótimo colega (o Aca), que era galley e nessa função ouvia tudo que se passava a bordo, me avisou que eu estava sendo vítima de uma injustiça e que o objetivo deles era me colocar na rua. Quando disse isso, o colega chegou a chorar!
 
Durante um voo, avisei ao Supervisor da Cabine, gaúcho da facção, que um passageiro bêbado estava incomodando duas passageiras. Após algum tempo, perguntei se ele não iria chamar o Chefe, ele deu de ombros dizendo: “Va lá e resolva”! Eu vi que ele queria me colocar numa “fria” e fiquei olhando a confusão aumentar. Nisso, outros passageiros partiram para cima do bêbado. Então, o Chefe veio correndo, olhando para mim com se eu tivesse causado a confusão. Quando ele foi agarrar um passageiro que estava de pé, eu avisei que aquele passageiro estava nos ajudando. Ele nem parou para ouvir, puxou o passageiro violentamente e quase apanhou, além de ouvir a “esculhambação” do passageiro!

Quando mudei de tripulação, fui chamado no HV e um chefe menor, também da facção, me avisou que eu havia sido reportado e teria que responder à Junta Disciplinar, no dia seguinte, às 16 horas. Cheguei na hora e vi que eles estavam reunidos, discutindo “o que iriam fazer trinta “julgadores”, muitos da facção. Cumprimentei a cada um individualmente com um “shake-hand”. Quando cumprimentei o Chefe, dei um frio e insosso boa-noite. Aí, o Gerente perguntou: “Você não vai apertar a mão do colega”? Eu respondi: “Não estendo a mão para pessoas que querem me prejudicar”! Foi um minuto de glória! Todos ficaram surpresos com a resposta. A seguir, cada “julgador” me acusou de alguma coisa banal, “não sorriu no voo, não cumprimentou os colegas, se isolou (!) do grupo, etc”. Foram cerca de trinta “acusações” desse tipo e, a cada uma, eu respondia que ao fim do “julgamento” eu iria esclarecer. Quando acabou o “sumário de culpa”, o Gerente disse que o Chefe poderia ler o seu “reporte”, que foi uma repetição do que tinha sido falado. Nesse momento, 7h da noite, abriram a porta do salão. Era o Diretor, que devia ter estranhado uma reunião tão tarde da noite. Lembro que ele olhou fixamente para mim e observou todo aquele grupo reunido em volta; ele deve ter pensado “o que os leões estão fazendo com o ratinho”? A seguir, o Gerente pediu que eu assinasse o “reporte” da facção, anexado à minha ficha funcional. Então, eu apresentei três folhas contendo a minha defesa e pedi que ele lesse em voz alta e, aí sim, eu assinaria a ficha com a minha defesa anexada. O Gerente leu com em voz alta, enfatizando a pontuação e, ao fim, deu um murro na mesa e falou bem alto: “Essas coisas não podem acontecer na empresa”! A seguir, a “sentença” foi proferida:

 “Alberto José, amanhã vamos lhe comunicar a punição. Venha falar com o seu chefe para saber o resultado”. Então, eu perguntei: “Quer dizer: ganho e não levo?” Resposta do Gerente: “É, você ganhou e não vai levar”.

No dia seguinte, fui saber o resultado do “julgamento”. O chefe me recebeu com um largo sorriso e falou: “Alberto José, bom dia. Quer um cafezinho? Olhe, vamos esquecer tudo isso; você quer ir para o baseamento? Deixe ver quando vamos poder lhe dar a promoção que você merece (eu havia sido preterido duas vezes!) E… quando você encontrar alguém (da facção) convide para tomar um cafezinho”!  

A vaidade nas empresas causa o sacrifício de bons profissionais!   
Título e Texto: Alberto José, 25-7-2016

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2 comentários:

  1. Comungamos do mesmo veneno, eu prefiro deixar o meu episódio em que fui suspenso por 15 dias em "closed cold cases" .
    Na junta disciplinar que me julgou tive 2 votos à favor , e dois contra.
    O voto de minerva foi do grande Comandante Jean que transformou a demissão em 15 dias de gancho.
    Depois tomando um chopinho no El Cid, ele me diz uma frase compensadora.
    - Rochinha eu conhecia a peça e conheço você, duro é evitar as facções aqui dentro.

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  2. Muito bom depoimento! Apesar de tantas coisas boas, existia isso e era comum!
    Tuti Brandes de Freitas

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