domingo, 24 de julho de 2016

[Estórias da Aviação] Drama em Zurique

Alberto José
Em julho de 1994, decidi comemorar a aposentadoria com um passeio pela Europa, sem preocupação com escala, horários de trabalho e coisas desse tipo. Pedi as passagens na Varig para mulher e filhos, que foram emitidas sem problema. Peguei uma economia reservada para a ocasião e fomos para Milão, início do passeio programado.


Passamos pela Baviera, Áustria e chegamos, finalmente, a Zurique. Ficamos no hotel Sheraton, que nos concedia desconto devido aos tripulantes da Varig que ali ficavam hospedados.


No dia marcado para o nosso retorno, começou um drama que durou uma semana. Um "Diretor" da Varig, sem sensibilidade e sem qualquer respeito pelos (colegas? rs, rs, rs, rs...) funcionários, vendo que havia muitos passageiros pagos embarcando em Zurique decidiu que os GC's não poderiam embarcar, ou seja, mesmo depois que os passageiros pagos fossem atendidos, ou seja, após o voo fechado se um passageiro de última hora surgisse na porta do aeroporto, o GC da vez era preterido e ficava no chão. Isso ocorreu várias vezes ao longo de uma semana e nem a Gerência da Varig conseguiu ajudar pois "era ordem expressa do tal Diretor"! 


As pessoas estavam chorando no aeroporto ao verem o dinheiro acabar em um país estrangeiro! Alguns comandantes, tidos como "bonzinhos", tiraram o corpo fora quando eram solicitados a embarcar um ou dois GC's naquela modalidade tão conhecida: nos assentos dos tripulantes!

Os GC's já estavam desesperados! Todos alegavam que não eram "clandestinos" pois viajaram com autorização da empresa e agora estavam sendo preteridos por passageiros pagos, sem reserva, que "saltavam do táxi" e embarcavam.

O Gerente do Sheraton, penalizado, chegou a liberar apartamentos sem pagamento da diária. Eu estava planejando arrebentar as vidraças do aeroporto para ser preso e causar um escândalo que chegasse até à Diretoria.

Para a minha sorte, no último dia, chegou em um voo o colega Vieira Dutra que tinha direito a dois apartamentos e nos cedeu um. Então, uma luz apareceu no fim do túnel, chegou um B-747 que trouxe esperanças aos GC's - tinha até esposa de Comandante que não conseguia embarcar.

Quando soube do problema, o Comandante do B-747, tido como "bonzinho, gente fina, etc" avisou a todos: "Não levo ninguém, acho irregular colocar passageiro em assento de tripulante" (Esse cara pode não ser lembrado, mas jamais será esquecido!)

Por fim, no dia seguinte - todos já estavam sem dinheiro - apareceu a nossa salvação, comandando um MD-11! O bravo, decidido e solidário COMANDANTE LUÍS MARTINS! Quando soube do drama dos GC's avisou: "Não vai ficar ninguém no chão, levo nem que seja no toalete!"
E graças a esse nobre colega o drama de Zurique terminou! 
Título e Texto: Alberto José, 24-7-2016

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Um comentário:

  1. Caro ALBERTO, convivi, vivenciei e participei de momentos semelhantes! Por incrível que pareça tínhamos alguns Cmtes. Que não tinham a menor noção do que é solidariedade, só tinham a Arrogância, como seu maior valor, creio que era uma defesa por suas fraquezas, creio isto ser inerente aos fracos, poderiam ser grandes Pilotos, mas pequenos seres humanos!
    Cmte. Luiz Martins, lembro muito bem dele! E como outros tinham a sensibilidade e o coleguismo para tomar uma atitude!

    Éramos um grupo muito heterogêneo!!!!
    Abs,
    Heitor Volkart

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