sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Novas ideias e velhas carcaças

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José Mendonça da Cruz

Velha esperança
Há quem deseje e defenda para Portugal «uma sociedade civil forte e aberta… suficientemente autónoma do Estado e dos grandes poderes» e «um poder político que saiba separar o interesse público do privado ou particular». Esta sociedade não toleraria a existência e a zelosa blindagem de centros de corrupção, roubo de dinheiros públicos e saque de dinheiro dos contribuintes como a Caixa Geral de Depósitos, a antiga Portugal Telecom, ou um estarrecedor número de sombrias fundações. Esta sociedade não toleraria um fisco voraz e abusivo, e toleraria ainda menos que os media silenciassem todos os abusos, e, ao invés, procurassem excitadamente os raros casos de «evasão» fiscal, que nas circunstâncias atuais mais parecem legítima defesa.

Há quem deseje e defenda para Portugal «uma economia competitiva, aberta, autónoma, socialmente responsável», que não esteja tolhida pelos pequenos poderes que se acoitam nas malhas da burocracia, por uma carga de impostos que a asfixia, e depois, com o produto da rapina, oferece «apoios», «isenções» e «incentivos» aos primos, amigos e companheiros de avental.

Esta sociedade não toleraria a reversão de uma reforma maioritariamente subscrita do IRC; nem o domínio de uma petrolífera que, mediante o monopólio de refinação e armazenamento, define os preços de gasolina e gasóleo (e ainda ri, sarcasticamente, nos cartazes que «informam» sobre os preços das diversas gasolineiras); esta sociedade não toleraria um Estado que sorve 60% do preço de cada litro de combustível; nem os sinuosos e casuísticos arranjos que colocaram privados e empresas a pagar a eletricidade mais cara da Europa; esta sociedade não toleraria que, demonstrada penosamente a falência das intervenções protecionistas no mercado habitacional, a elas se regressasse com arcaicos argumentos de virtude.

Há quem deseje e defenda para Portugal umas «finanças públicas que fossem responsáveis» e não submeta presente e futuro a cangas financeiras. Um Portugal assim ficaria de cabelos em pé com uma dívida pública a subir para além dos 250 mil milhões de euros, e erguer-se-ia numa fúria sagrada contra algum troca-tintas que aventasse que a dívida pública está, na verdade, a baixar.

Há quem deseje e defenda para Portugal uma sociedade inspirada por «um sentimento de justiça e equidade», que acredite que nenhum dos objetivos anteriores o contraria ou bloqueia, e que, ao contrário, são esses objetivos que abrem caminho à justiça e à equidade, e agilizam o elevador social.

Há quem deseje e defenda «uma sociedade com sentido de exigência, e de rigor e disciplina». Essa sociedade não suportaria nem um mês do mais presunçoso, desclassificado e desclassificante consulado da Educação; nem o rastejante, porém despudorado, enjeitar de responsabilidades na Administração Interna, na Defesa, nos Negócios Estrangeiros, e na Assembleia, e em São Bento. Essa sociedade sentiria asco perante um chefe de governo relapso e contumaz nos seus acessos de boçalidade e ordinarice na própria «casa da democracia».

Velhos lacaios
A última vez que os valores acima foram a votos, venceram com 39%. Mas os travestis de jornalistas que dominam as redações chamam-lhes valores «passistas». É justo, literalmente, pois tudo o que está entre aspas vem do discurso de despedida de Pedro Passos Coelho, é o seu testamento político. Politicamente, porém, a escolha terminológica dos travestis é pura fraude e propaganda. Tudo o que extravase ou contrarie o seu pequeno mundo de funcionalismo, servidão, e amanhãs que nunca cantaram nem cantam é «neoliberal» ou «passista». Não sabem o que dizem – é difícil quando não se pensa –, mas como propaganda resulta. Todos os iletrados querem «apoios do Estado», e nenhum repara que é «generosamente» … «apoiado» … com o seu próprio dinheiro.

O que convém aos travestis é o que não convém ao país. E, no entanto, na sua autossuficiência, na certeza da sua superioridade e ideário, os travestis não se coíbem de revelar o que mais lhes conviria. Durante dois anos, os travestis silenciaram ou esqueceram todo e qualquer argumento da oposição (a menos que tomado desde logo pelo seu contraditório), preferindo sempre em alternativa algum dichote de alguma Catarina, alguma catilinária de algum Galamba, alguma falácia de Costa.

Agora, de súbito, o PSD enche as páginas dos jornais, sobretudo com notícias que, por um lado, nos aconselham Rui Rio, apelidando de «passistas» todos os outros (até no Observador, que se vai revelando um dos maiores equívocos da informação dos últimos tempos, com a ilha de inteligência do comentário sitiada pelo jornalismo de manada do costume); e, por outro lado, recomendando vivamente ao PSD que, para sobreviver, seja mais como o PS. Sobre este ponto, no que toca a comentários maliciosos de travestis de jornalistas e barões ultrapassados, vem previsivelmente Pacheco Pereira à cabeça, cada vez mais submarino, cada vez menos socialdemocrata. (Traz Ferreira Leite de arrasto.) (Invocam todos Sá Carneiro.)

Velhas carcaças
Foi Santana Lopes o líder que não temeu ir a votos para substituir quem decidira ir «para a Europa» e escapar à choldra? Foi eficaz e competente o seu Governo ou deu bastos argumentos à manobra antidemocrática de Sampaio? E, sobretudo – mais para seu bem do que nosso –, não está Santana Lopes confortável na Santa Casa, onde Costa o manteve, onde com Costa negociou tapar as habilidades do Montepio com um risco irresponsável para a Santa Casa? Devia continuar por aí.

Diz o Expresso de 31 de julho de 2013: «Hoje, quem seriam o Soares e Mota Pinto do século XXI? Certamente António Costa e Rui Rio, dois amigos que se respeitam, com cumplicidades políticas e pessoais várias, compondo um dueto que até esteve presente no Clube de Bilderberg.» «Até» no clube… Pronto. Compreendemos.

Diz a Sic Notícias de 22 de julho de 2014, que «numa conferência sobre "A política, os políticos e a gestão dos dinheiros públicos", organizada pela TSF e pela Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (…) foi notório o bom entendimento entre ambos (Rio e Costa)» e que «Rui Rio reforçou que "o acordo principal é o acordo de regime"». O Bloco Central, portanto, com um PSD obsequiante.

Diz Miguel Sousa Tavares, em 2 de outubro, na Sic: «Quem é Rui Rio, eu não conheço Rui Rio, não lhe conheço ideias de espécie nenhuma.» Diz bem. Tirando a demonstrada pulsão para se aliar com Costa, ninguém conhece.

Restaria Rangel para a sucessão no PSD, se não tivesse invocado razões familiares para se afastar, hoje, da corrida. Reconhecendo-se-lhe a inteligência, a cultura, a capacidade política, e o espírito crítico e combativo demonstrados como líder parlamentar, entre ocasiões diversas, teria, porém, que explicar uma frase … (peço desculpa) … obtusa do que parecia o seu discurso de candidatura publicado esta semana no Público: «A liberalização não é nem pode ser a operação através da qual os interesses que opacamente colonizam o Estado passam abertamente a colonizar a sociedade. Por isso não somos liberais.» É que, não querendo a frase dizer nada, ela só pode ter como justificação o medo de declarar-se liberal, ou a tentação persistente na direita de parecer esquerda. As duas coisas são más, as duas coisas significam um PSD a reboque do PS. Por mim, nunca ponho o voto no CDS, porque aprendi que não sei para onde o leva. E deixaria de votar num PSD cujo anseio fosse ser um PS de segunda.

É estranho que a propósito de um rumo individualizado para o partido nunca se ouça citar Sá Carneiro.
Título e Texto: José Mendonça da Cruz, Corta-fitas, 6-10-2017
Marcação: JP

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