sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A política depois de Passos Coelho

João Marques de Almeida

Pedro Passos Coelho assusta a oligarquia política nacional, que vai desde o PCP a sectores do PSD, porque tem uma visão para o nosso país diferente daquela que foi construída desde a década de 1980.


O político que anunciou o fim do seu tempo à frente do PSD não se esgotava no papel de líder do principal partido de oposição. Também era muito mais do que um mero antigo PM. Passos Coelho era muito mais do que tudo isso. Passos Coelho era o centro da vida política nacional desde que em 2011 entrou em São Bento. Manteve esse lugar central depois de sair de São Bento em 2015, sobretudo graças aos seus adversários, nas esquerdas e dentro do PSD.

António Costa exerce as suas funções de PM procurando ser o anti-Passos. A geringonça une-se por oposição a Passos Coelho. Até os afetos de Marcelo Rebelo de Sousa são apresentados como o oposto da frieza e da distância de Passos Coelho. E os adversários no PSD fazem alianças e desenham estratégias olhando para Passos Coelho. Tudo isto significa muito simplesmente que a saída de Passos Coelho da liderança do PSD vai ter implicações para toda a política portuguesa, desde São Bento a Belém, não se esgotará na escolha de um novo líder para o PSD.

O terramoto político que a saída de Passos Coelho provocará resulta do facto do enorme número dos seus adversários o terem tratado como alguém diferente. Um político contra o qual muitos outros, com pouco em comum, se aliaram. A oposição a Passos mudou a política portuguesa. Qualquer pessoa atenta percebeu que a partir de finais de 2015 se construiu uma grande coligação anti-Passos que vai desde a extrema esquerda, PCP e BE até sectores do PSD, passando naturalmente pelo PS (e incluindo grande parte da comunicação social e dos meios intelectuais de Lisboa). Esta coligação fez um enorme esforço para convencer os portugueses que o cimento da oposição a Passos tem uma natureza ideológica. Daí o apresentarem como um “ultraliberal”, um “extremista” e, mais recentemente, um “populista” e “nacionalista” (as mentes mais delirantes chegaram ao ponto de o comparar a Trump).

O período de austeridade ajudou à construção desta caricatura ideológica. Não foi difícil apresentar medidas duras e impopulares como resultado de escolhas ideológicas radicais. Cortes na despesa pública por um governo de direita são medidas “neoliberais”. Os mesmos cortes feitos por um governo socialista são a prova de “responsabilidade política”.

Uma análise séria das políticas do governo de Passos Coelho mostra um governo com políticas moderadas, completamente alinhado com as práticas de qualquer governo europeu de centro-direita, mas sob o peso de uma intervenção externa. Aliás uma das situações mais hilariantes da vida política nacional é assistir o PCP e o BE, defensores de regimes violentos e totalitários, chamarem radical a Passos Coelho. Não há nada de ideologicamente radical no comportamento e no pensamento políticos de Passos Coelho. O que aconteceu foi que Passos Coelho foi o único político português que chefiou um governo que foi obrigado a executar um programa de ajustamento financeiro sem ter o poder de desvalorizar a moeda. Nunca aconteceu a nenhum político em Portugal, e esperemos que não volte a acontecer. Qualquer outro político, quer do PSD como do PS, que tivesse sido PM entre 2011 e 2014, durante a intervenção externa, teria feito o mesmo. Num momento de urgência financeira num país altamente endividado e sem moeda própria, a liberdade de escolhas é muito reduzida. Todos os que atacaram Passos Coelho sabem isto muito bem.

Se não é a ideologia que explica a grande coligação anti-Passos, o que será então? Passos Coelho assusta a oligarquia política nacional, que vai desde o PCP a sectores do PSD, porque tem uma visão para o nosso país diferente daquela que foi construída desde a década de 1980. Passos Coelho considera que o crescimento económico não pode estar assente na acumulação de dívidas, mas sim numa economia competitiva e produtiva. Privilegia as exportações ao endividamento privado para alimentar o consumo. Defende uma separação clara entre o interesse público e os interesses privados. Acha que o Estado deve servir os portugueses, mas não pode apropriar-se indevidamente dos seus recursos para prosseguir interesses particulares, como aconteceu por exemplo com muitos dos empréstimos feitos pela CGD durante os governos de Sócrates. Passos Coelho em São Bento era uma ameaça ao modo como a oligarquia política olha para a economia e para a relação entre o Estado e os seus interesses. E a possibilidade de poder regressar a São Bento continuava a fazer dele uma ameaça.

Passos representou ainda um modo diferente de fazer política. Não se intrometia nas decisões das empresas ou dos bancos, percebendo muito bem os limites do Estado e respeitando a liberdade económica. Colocou sempre os interesses do país à frente dos interesses do seu partido. Não distribuía afetos, mas dizia a verdade aos portugueses, por mais dura que fosse a realidade. Passos Coelho foi a maior ameaça ao establishment político português e este juntou-se para o derrotar. A geringonça mostra que o PCP pertence muito mais ao establishment do que julgam os portugueses e que teria muito a perder se Passos impusesse algumas das suas ideias. Também demonstra a ambição do BE de beneficiar do poder do Estado. Como alguém disse, acertadamente, o BE é cada vez mais um PS pequeno. Mas derrotar Passos Coelho não chegava. Era necessário transformá-lo num radical de direita, para a oligarquia continuar a defender perante os portugueses as ‘virtudes’ do regime.

Pode a grande coligação anti-Passos sobreviver à partida de Passos Coelho? Eis a grande questão da política nacional. A primeira tentação das esquerdas será fazer do novo líder do PSD “um novo Passos”. Será o mais fácil, o mais rápido e obrigará o novo líder social democrata a passar metade do seu tempo a dizer que não é Passos Coelho. Mas desconfio que não será suficiente para preservar a grande coligação anti-Passos. Deixo três questões para o futuro próximo da política portuguesa, agora que Passos se foi embora. Irá a geringonça continuar tão unida depois da partida de Passos Coelho? Irão as esquerdas começar a atacar o agora líder indiscutível das direitas, Marcelo Rebelo de Sousa? Irá António Costa ceder à tentação de provocar eleições antecipadas em 2018, aproveitando a fraqueza do PSD? Teremos tempo para voltar a estas questões. Mas a política pós-Passos será muito diferente do que foi nos últimos seis anos. Vão cair velhas coligações e vão emergir novos entendimentos.

PS: Uma observação mais pessoal. Passos Coelho tem algumas das qualidades políticas que mais admiro. É sério, corajoso, verdadeiro, determinado e simples, sem ponta de deslumbramento. Sempre o admirei mais pelas suas qualidades do que por razões ideológicas. Além disso, estava a trabalhar em Bruxelas em 2011. Como português, no meio de estrangeiros, senti vergonha pelo estado em que Sócrates deixou Portugal, falido e dependente de ajudas externas. Passos Coelho e o seu governo devolveram algum orgulho em relação à política portuguesa e foram decisivos para ajudar a recuperar o país. Passos entregou ao seu sucessor um país em muito melhor estado daquele que recebeu do seu antecessor. Por tudo isto, deixo-lhe uma palavra de gratidão.
Título e Texto: João Marques de Almeida, Observador, 5-10-2017

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