Telmo Azevedo Fernandes
Ao início as «acampadas» eram
muito mais honestas e tinham a virtude rara de não esconderem ao que vinham.
Manifestantes e políticos nacionais disseram explicitamente que o objetivo era
a revolução, a ação direta contra o capitalismo, fizeram apelo à luta de
classes, a expropriações e ao fim da propriedade privada, defenderam a
destruição do Estado de Direito e chegou a ser mostrada uma simpatia
inspiradora pelo massacre de judeus de 7 de outubro. Tudo isto foi dito,
redito, escrito, proclamado, cantado e aplaudido inúmeras vezes nos primeiros
dias da ocupação do Rossio e da Pç. D. João I. Aí foi também anunciado que a
habitação era apenas uma das muitas frentes da guerra ideológica que travam os
«okupas».
Mas, para efeitos de marketing
junto das televisões os manifestantes deram, entretanto, uma falsa aparência de
inocente reivindicação de direitos sociais e, para isso, tentou-se importar de
Espanha a mártir Maricarmen como símbolo da luta em Portugal. Infelizmente,
veio-se a saber que Maricarmen foi durante décadas uma privilegiada de
arrendamento protegido ao abrigo de leis do general Franco e tinha sido também
administradora de empresas imobiliárias e especuladoras.
O pessoal da «acampada» teve por isso de trocar Maricarmen por Marta Almeida, a comovente história de uma mãe, viúva com dois filhos menores, despejada de uma habitação social em Lisboa pela Gebalis. A chatice é que a senhora nunca foi titular do arrendamento, nunca residiu no imóvel, o tribunal decretou por duas vezes que estava a ocupar ilegalmente a casa e ficou a saber-se que quem foi efetivamente expulso da habitação foi um idoso de 84 anos, por coação de Marta, e que era o legítimo residente.
Mais uma vez a «acampada» teve
de esquecer o embuste do caso Gebalis e proceder rapidamente à canonização de
Renata Cambra. Uma militante trotskista promovida a heroína da habitação, com a
deliciosa ironia de uma história familiar ligada à promoção imobiliária, com
pai e avô executivo e empresário no sector da construção civil.
A comédia delirante em torno
destas «acampadas» é tal que se torna fascinante ver ativistas hostis à
democracia liberal serem apresentados no espaço mediático como guardiães da
liberdade.
Mas mais extraordinário é a
facilidade com que os nossos fraquíssimos políticos e comentadores esquecem que
as nossas liberdades foram conquistadas contra o totalitarismo e que a memória
das vítimas do comunismo não deveria ser traída ao transformar militantes de
ideologias autoritárias em referências morais e interlocutores privilegiados da
decisão pública.
A minha crónica-vídeo de hoje,
aqui:
Título, Texto e Vídeo: Telmo
Azevedo Fernandes, Blasfémias,
4-11-2026
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