Aparecido Raimundo de Souza
O fracasso é como se o mundo inteiro tivesse se fechado de uma hora para outra em uma asfixia insossa e aterradora, e do nada, o “tudo” ficasse lá do lado de fora, batendo, pedindo, implorando esperando que alguém ou alguma coisa, como num passe de mágica, batesse a varinha e fizesse a gentileza de escancarar uma brecha e nos devolver o sempiterno e “seguir em frente”. A primeira vontade que nos assola é a de se sentar num canto e desistir. Dizer a nós mesmos, aos gritos histéricos: “já chega, não dá mais”. Algumas pessoas do nosso convívio, chamam a isso de “pobreza de espírito”. Mas, acreditem, isso não é abatimento. É humano. É exatamente o que qualquer coração cansado, ou alma atribulada sente quando os pés doem e o horizonte some em meio a um monte de nuvens escuras. Confesso, muitas vezes diante desses percalços e dissabores, pensei em desistir. Todavia, uma força interna me levou a acreditar e aprendi com os que já passaram por isso antes de mim. Percebam, não ter saída, não significa que seja o fim. Sinaliza apenas que Deus ou a vida quer que paremos de correr para ouvir melhor. Quando não há caminho à frente, talvez não seja preciso andar. Se faz necessário apenas sentar e respirar. Recuperar as forças, o fôlego.
Lavar o rosto. O “lavar”, pode ser
também no sentido figurado, ou seja, afastando os presságios que se mostram
intransigentes e desastrosos. Descansar o coração que andou batendo apressado
demais por tempo mais que necessário. Às vezes, quando tudo parece perdido e
sem saída, o que precisamos não é de uma solução grandiosa e mágica. Apenas de
uma pequena paz. É saber que a noite atribulada com a sua face sombria passará,
que as águas do rio voltarão ao curso normal e que a tempestade impetuosa e
irreversível terá um estanque, mesmo quando não vemos o sol bonito, ou a lua
clara e majestosas se expandindo lá no mais alto firmamento. O que devemos
fazer então? Dar um tempo a nós mesmos? Esperar com dignidade? Sim. Crer com
sabedoria e sem os atropelos da pressa, sentir sempre, haja o que houver,
aguardar com serenidade. Jamais cruzarmos os braços e sim ficarmos de pé,
seguirmos ereto, a cabeça erguida, os pensamentos voltados para o Pai Maior,
mesmo que por algum motivo não esperado a gente se pegue ou se sinta estancado
e receoso. Confiar que aquela parede à frente, que nesse momento em que topamos
com ela num primeiro momento se mostre intransponível daqui a pouco, ou talvez
amanhã pode se solidificar numa porta escancarada que ainda não havíamos
conseguido enxergar, e não conseguimos pelo fato de estar escuro demais.
Devemos nos lembrar sempre: o fato
de não pressentirmos o “escape”, ou “a saída”, esses entraves não significam
que uma solução plausível não exista. Pode estar escondida no tempo. Ou talvez,
ocultada, ou camuflada, numa gentileza que ainda pintará no pedaço ou quem
sabe, surgir gloriosa, numa palavra que ainda a gente ouvirá num minuto a
porvindouro, uma solução que ainda nem sequer criou vida e forma em nosso
horizonte. Precisamos, a bem da verdade, entender que enquanto houver um
coração batendo dentro de nós, existirá não uma possibilidade, mas um bom
punhado delas. Ainda que a gente, por descuido, pela cegueira do ódio ou da
raiva ou da preguiça momentânea não consigamos ver “o agora”. Temos que ter ou
melhor, ser a semente da esperança. De roldão, segurar com firmeza as
desventuras, os incômodos, os altos e baixos e mandar tudo às favas. De igual
modo, abraçar com força de vontade hercúlea, com fé inabalável e inquebrantável
o que nos parece mínimo e pequeno. Mesmo fluxo, respirarmos fundo e confiar. Sempre
confiar, porque o que hoje, o nesse momento parece um beco sem saída, um “daqui
a pouco sem talvez”, percebam, no próximo estalar de dedos, ou repetindo, no
amanhã, não importa, logo as primeiras horas de um minuto que ainda não nasceu,
poderá estar a nossa espera.
E com ele, a magia dessa parede
irremovível e impenetrável, bem ainda a porta oculta que não vimos e que se
achava obstruída se engrandecerá aos nossos esbugalhos. De igual forma, os
muros impeditivos que surgirem à frente, se farão caídos aos nossos pés e, de
lambuja, daremos de cara, de frente, não com a solidez de um novo atravanco, de
um novo empecilho, porém, vislumbraremos uma nova e alvissareira Esperança nos
ensinando, nos mostrando, nos direcionando para a curva mais bonita da nossa
vida. Seria, mesmo norte, um cálido descobrimento gritando que o “parar” não é
desistir. Jamais! Que o ficar quieto, estagnado, espiando para uma parede
gigantesca, ou uma porta de rosto invisível, não significa que a vida nos
deixou a ver navios onde sequer nem barquinhos e canoas descansavam às sobras
de mares baixas. A curva mais bonita, a estrada mais larga não é um atalho que
aparece de repente à nossa frente, mas a gentileza perene que aprendemos a ter
com nós mesmos quando percebemos que não precisamos mais correr desembestado
feito um animal em fuga. É quando, no mesmo olhar, descobrirmos que não
precisamos de um destino grandioso para sentirmos que vale a pena acordar.
Que ao invés disso, podemos
simplesmente encontrar alegria num café quente, num raio de sol que entra pela
janela, numa música antiga e envolvente que traz uma lembrança suave. Que a Paz
não é ter tudo resolvido, mas o “aprender a descansar no meio daquilo que ainda
não entendemos”, obviamente não por burrice ou por descuido, mas na observação
espetaculosa que observando minuto a minuto, concluiremos que tudo que nos
rodeia, tudo que nos cerca, não nos aprisiona. Igual sequência, o complexo que
nos move, no “tempo espaço”, tem o seu tempo certo para acontecer. E
acontecerá. Precisamos ainda, aceitar com calma e serenidade, que, às vezes, a
própria vida nos pede para diminuirmos os passos, não porque algo está errado,
mas porque há um “algo precioso” que carecemos aprender e só conseguiremos
enxergar quando pararmos um instante e olharmos fixamente para o futuro que
está ao nosso derredor e nos envolve. A curva mais bonita, a mais glamourosa, é
aquela do momento único, ou seja, a de quando definitivamente descobrimos que
já estamos onde precisamos estar, e que o “aqui”, e o “agora”, também neles
existe vida, e não só ela, reina, em paralelo, o sopro de Deus com suavidade
maviosa engrandecendo a sua luz, como, igualmente, mesmo horizonte, existe um
motivo para estancarmos a corrida, dar uma parada básica não somente para
respirar.
Sobretudo, AGRADECER. Nesse momento
mágico e surreal, a gente descobre sem querer, quando paramos de pelejar, de
dar murros em pontas de facas, ou de lutar contra o que é ou se mostra
impossível, topamos com o escape e tomamos consciência de que ele está logo
ali. E quando o cansaço nos ensina a soltar, e de repente, sem pressa, sem
barulho, sem alarde, sentimos que aqui onde paramos, é exatamente onde se faz
preciso que estejamos ou fiquemos. Portanto, se aqui ficarmos e aqui
permaneceremos, gozaremos da vitória para todo o sempre. Todas as maravilhas
que aqui trago, não vem como um aviso grande ou um sinal brilhante. Não sou
santo, não sou pregador, nem missionário. Mas aprendi que “Tudo” se achega ou
vem como uma quietude no peito, uma aceitação suave. Tipo assim, como quando a
gente finalmente se acomoda numa cadeira cansado de ruas e avenidas e
percebemos que não precisamos mais nos levantarmos agora e sair correndo.
Descobrimos, mesmo norte, que estamos no lugar certo quando deixamos de
perguntar “por que eu estou aqui?” e passamos a respirar o momento presente.
Quando entendemos que este lugar, mesmo que não seja aquele que escolhemos,
calma, muita calma, é exatamente esse lugar onde precisamos estar para
crescermos, para descansarmos, para aprendermos algo novo que nenhum outro
caminho poderia de fato, nos ensinar.
Em conclusão, não é que tenhamos
gostado do lugar. É que finalmente entendemos: não estamos aqui por acaso.
Nada, aliás, é por acaso. Tudo tem um motivo determinado. Tudo tem a sua hora.
Aqui estamos enquanto precisamos estar. E quando a lição que aqui fiz bailar
for de fato entendida, compreendida e levada a sério, e não só isso, se fizer
aprendida em todo o seu teor na verdadeira acepção da palavra, os caminhos, as
sendas, os atalhos e as picadas se abrirão sozinhos, se abrirão sem esforço, e,
igualmente, sem nenhum tiquinho assim que seja, dá mais estonteante e
“apressada pressa”. O chegar em algum lugar vitorioso, sempre, sempre, (haja o
que houver), estará bem ali, bem aqui, bem acolá e diante de nosso medo bobo,
de nossas inseguranças e inquietações. Esse medo infantil e sem futuro, sem a
força que parecia ou que algumas vezes se mostrou invencível, tudo o que nele
havia de ruim e prejudicial, cairá por Terra. Se desintegrará no vento, será
levado pela poeira, e o nosso futuro, nosso “amanhã-porvir” se mostrará
radioso, enaltecido, e o melhor de tudo, se fará agigantado e sem as chatices e
as peraltices daquilo que ontem, nos parecia pesado, chato e intransponível.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital, 6-11-2026
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