sexta-feira, 6 de novembro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] O que fazer quando não houver mais saída?

Aparecido Raimundo de Souza

“Quando não houver mais saída, precisamos dar um passo atrás, sentar e pensar em como achar um desvão qualquer, ainda que neste lugar não exista a esperança de uma janela ou de uma porta com chave ou pelo menos de uma fechadura com uma maçaneta emperrada”.
Thompson de Panasco – morador de Rua. São Paulo, capital

TENHO PLENA CONVICÇÃO que apesar de existirem momentos na vida onde a nossa estrada (cheia de deslumbramentos com os novos aspectos das coisas que surjam pareçam bons e satisfatórios), de repente, do nada, o cenário mude num piscar de olhos e o próximo passo termine num precipício sem volta, tipo um despenhadeiro de fogo diabólico onde almas em completo desespero clamam por socorro, ainda nesse cenário, não podemos entrar em rota de prostração e neurastenia. Em vista disso, a gente anda, se mata, se esfola, comprometemos os pés, encalacramos os ossos e, no minuto seguinte, uma sucessão de eventos não previstos nos fazem bater frontalmente numa parede tão sólida que não há buraco, ou melhor, não se é possível vislumbrar uma fissura benfazeja, tampouco uma porta salvadora para despachar os demônios que se debatem agourentos dentro de nossa alma pelejando para nos aprisionar vencidos ao pó da Terra. Mesmo quadro, quando não há nenhuma fresta que nos permita antever um caminho ou um atalho, próximo ou ao lado, onde seguir adiante ou um alivio que nos mostre uma recepção menos devastadora e torturante e nessa hora, nos vemos e nos pegamos, “no mato sem cachorro”. Não podemos entregar os pontos e abraçar o fracasso.

O fracasso é como se o mundo inteiro tivesse se fechado de uma hora para outra em uma asfixia insossa e aterradora, e do nada, o “tudo” ficasse lá do lado de fora, batendo, pedindo, implorando esperando que alguém ou alguma coisa, como num passe de mágica, batesse a varinha e fizesse a gentileza de escancarar uma brecha e nos devolver o sempiterno e “seguir em frente”. A primeira vontade que nos assola é a de se sentar num canto e desistir. Dizer a nós mesmos, aos gritos histéricos: “já chega, não dá mais”. Algumas pessoas do nosso convívio, chamam a isso de “pobreza de espírito”. Mas, acreditem, isso não é abatimento. É humano. É exatamente o que qualquer coração cansado, ou alma atribulada sente quando os pés doem e o horizonte some em meio a um monte de nuvens escuras.  Confesso, muitas vezes diante desses percalços e dissabores, pensei em desistir. Todavia, uma força interna me levou a acreditar e aprendi com os que já passaram por isso antes de mim. Percebam, não ter saída, não significa que seja o fim. Sinaliza apenas que Deus ou a vida quer que paremos de correr para ouvir melhor. Quando não há caminho à frente, talvez não seja preciso andar. Se faz necessário apenas sentar e respirar. Recuperar as forças, o fôlego.

Lavar o rosto. O “lavar”, pode ser também no sentido figurado, ou seja, afastando os presságios que se mostram intransigentes e desastrosos. Descansar o coração que andou batendo apressado demais por tempo mais que necessário. Às vezes, quando tudo parece perdido e sem saída, o que precisamos não é de uma solução grandiosa e mágica. Apenas de uma pequena paz. É saber que a noite atribulada com a sua face sombria passará, que as águas do rio voltarão ao curso normal e que a tempestade impetuosa e irreversível terá um estanque, mesmo quando não vemos o sol bonito, ou a lua clara e majestosas se expandindo lá no mais alto firmamento. O que devemos fazer então? Dar um tempo a nós mesmos? Esperar com dignidade? Sim. Crer com sabedoria e sem os atropelos da pressa, sentir sempre, haja o que houver, aguardar com serenidade. Jamais cruzarmos os braços e sim ficarmos de pé, seguirmos ereto, a cabeça erguida, os pensamentos voltados para o Pai Maior, mesmo que por algum motivo não esperado a gente se pegue ou se sinta estancado e receoso. Confiar que aquela parede à frente, que nesse momento em que topamos com ela num primeiro momento se mostre intransponível daqui a pouco, ou talvez amanhã pode se solidificar numa porta escancarada que ainda não havíamos conseguido enxergar, e não conseguimos pelo fato de estar escuro demais.

Devemos nos lembrar sempre: o fato de não pressentirmos o “escape”, ou “a saída”, esses entraves não significam que uma solução plausível não exista. Pode estar escondida no tempo. Ou talvez, ocultada, ou camuflada, numa gentileza que ainda pintará no pedaço ou quem sabe, surgir gloriosa, numa palavra que ainda a gente ouvirá num minuto a porvindouro, uma solução que ainda nem sequer criou vida e forma em nosso horizonte. Precisamos, a bem da verdade, entender que enquanto houver um coração batendo dentro de nós, existirá não uma possibilidade, mas um bom punhado delas. Ainda que a gente, por descuido, pela cegueira do ódio ou da raiva ou da preguiça momentânea não consigamos ver “o agora”. Temos que ter ou melhor, ser a semente da esperança. De roldão, segurar com firmeza as desventuras, os incômodos, os altos e baixos e mandar tudo às favas. De igual modo, abraçar com força de vontade hercúlea, com fé inabalável e inquebrantável o que nos parece mínimo e pequeno. Mesmo fluxo, respirarmos fundo e confiar. Sempre confiar, porque o que hoje, o nesse momento parece um beco sem saída, um “daqui a pouco sem talvez”, percebam, no próximo estalar de dedos, ou repetindo, no amanhã, não importa, logo as primeiras horas de um minuto que ainda não nasceu, poderá estar a nossa espera.

E com ele, a magia dessa parede irremovível e impenetrável, bem ainda a porta oculta que não vimos e que se achava obstruída se engrandecerá aos nossos esbugalhos. De igual forma, os muros impeditivos que surgirem à frente, se farão caídos aos nossos pés e, de lambuja, daremos de cara, de frente, não com a solidez de um novo atravanco, de um novo empecilho, porém, vislumbraremos uma nova e alvissareira Esperança nos ensinando, nos mostrando, nos direcionando para a curva mais bonita da nossa vida. Seria, mesmo norte, um cálido descobrimento gritando que o “parar” não é desistir. Jamais! Que o ficar quieto, estagnado, espiando para uma parede gigantesca, ou uma porta de rosto invisível, não significa que a vida nos deixou a ver navios onde sequer nem barquinhos e canoas descansavam às sobras de mares baixas. A curva mais bonita, a estrada mais larga não é um atalho que aparece de repente à nossa frente, mas a gentileza perene que aprendemos a ter com nós mesmos quando percebemos que não precisamos mais correr desembestado feito um animal em fuga. É quando, no mesmo olhar, descobrirmos que não precisamos de um destino grandioso para sentirmos que vale a pena acordar.

Que ao invés disso, podemos simplesmente encontrar alegria num café quente, num raio de sol que entra pela janela, numa música antiga e envolvente que traz uma lembrança suave. Que a Paz não é ter tudo resolvido, mas o “aprender a descansar no meio daquilo que ainda não entendemos”, obviamente não por burrice ou por descuido, mas na observação espetaculosa que observando minuto a minuto, concluiremos que tudo que nos rodeia, tudo que nos cerca, não nos aprisiona. Igual sequência, o complexo que nos move, no “tempo espaço”, tem o seu tempo certo para acontecer. E acontecerá. Precisamos ainda, aceitar com calma e serenidade, que, às vezes, a própria vida nos pede para diminuirmos os passos, não porque algo está errado, mas porque há um “algo precioso” que carecemos aprender e só conseguiremos enxergar quando pararmos um instante e olharmos fixamente para o futuro que está ao nosso derredor e nos envolve. A curva mais bonita, a mais glamourosa, é aquela do momento único, ou seja, a de quando definitivamente descobrimos que já estamos onde precisamos estar, e que o “aqui”, e o “agora”, também neles existe vida, e não só ela, reina, em paralelo, o sopro de Deus com suavidade maviosa engrandecendo a sua luz, como, igualmente, mesmo horizonte, existe um motivo para estancarmos a corrida, dar uma parada básica não somente para respirar.

Sobretudo, AGRADECER. Nesse momento mágico e surreal, a gente descobre sem querer, quando paramos de pelejar, de dar murros em pontas de facas, ou de lutar contra o que é ou se mostra impossível, topamos com o escape e tomamos consciência de que ele está logo ali. E quando o cansaço nos ensina a soltar, e de repente, sem pressa, sem barulho, sem alarde, sentimos que aqui onde paramos, é exatamente onde se faz preciso que estejamos ou fiquemos. Portanto, se aqui ficarmos e aqui permaneceremos, gozaremos da vitória para todo o sempre. Todas as maravilhas que aqui trago, não vem como um aviso grande ou um sinal brilhante. Não sou santo, não sou pregador, nem missionário. Mas aprendi que “Tudo” se achega ou vem como uma quietude no peito, uma aceitação suave. Tipo assim, como quando a gente finalmente se acomoda numa cadeira cansado de ruas e avenidas e percebemos que não precisamos mais nos levantarmos agora e sair correndo. Descobrimos, mesmo norte, que estamos no lugar certo quando deixamos de perguntar “por que eu estou aqui?” e passamos a respirar o momento presente. Quando entendemos que este lugar, mesmo que não seja aquele que escolhemos, calma, muita calma, é exatamente esse lugar onde precisamos estar para crescermos, para descansarmos, para aprendermos algo novo que nenhum outro caminho poderia de fato, nos ensinar.

Em conclusão, não é que tenhamos gostado do lugar. É que finalmente entendemos: não estamos aqui por acaso. Nada, aliás, é por acaso. Tudo tem um motivo determinado. Tudo tem a sua hora. Aqui estamos enquanto precisamos estar. E quando a lição que aqui fiz bailar for de fato entendida, compreendida e levada a sério, e não só isso, se fizer aprendida em todo o seu teor na verdadeira acepção da palavra, os caminhos, as sendas, os atalhos e as picadas se abrirão sozinhos, se abrirão sem esforço, e, igualmente, sem nenhum tiquinho assim que seja, dá mais estonteante e “apressada pressa”. O chegar em algum lugar vitorioso, sempre, sempre, (haja o que houver), estará bem ali, bem aqui, bem acolá e diante de nosso medo bobo, de nossas inseguranças e inquietações. Esse medo infantil e sem futuro, sem a força que parecia ou que algumas vezes se mostrou invencível, tudo o que nele havia de ruim e prejudicial, cairá por Terra. Se desintegrará no vento, será levado pela poeira, e o nosso futuro, nosso “amanhã-porvir” se mostrará radioso, enaltecido, e o melhor de tudo, se fará agigantado e sem as chatices e as peraltices daquilo que ontem, nos parecia pesado, chato e intransponível.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital, 6-11-2026 

Anteriores:
[Aparecido rasga o verbo – Extra] Uma “luz divina” que nunca se apagará 
Os dois bancos e a passageira de tirar o fôlego 
O gato amedrontado da tia Ana Clara 
[Aparecido rasga o verbo – Extra] Vivemos um futuro incerto num amanhã sem talvez 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-