Aparecido Raimundo de Souza
AQUI ESTOU no conforto da minha
cozinha, exatamente quando o relógio marca uma e quarenta e cinco desta manhã
de sábado. Antes de sair hoje cedo, para
o trabalho, como sempre faço, todos os dias, deixei um café pronto na garrafa
térmica para quando voltasse da rua, sentasse e fizesse um lanche rápido para
não jantar (seria pesado em vista do adiantado dos ponteiros) e obviamente o
melhor de tudo, não iria dormir de barriga vazia. Tenho sempre em estoque uns
dois ou três pacotes de bisnaguinhas da Plusvita na dispensa, na geladeira,
leite, queijo em fatias, geleia, manteiga e marmelada.
Requento o café da garrafa, misturo ao
leite e faço um “engana barriga” como mamãe costumava dizer quanto papai
chegava tarde do serviço com uma baita de uma fome. Enquanto cuido da barriga,
entra pela janela aberta um vento ameno e nessa hora, me vem à lembrança o
tempo de papai e mamãe. Eles se sentavam na mesa onde estou agora, e papai em
silêncio, falava um pouco do seu trabalho e mamãe emendava tagarelando de como
transcorreu o seu dia, o que fez, e depois de uma conversa de quase uma hora,
se recolhiam para o quarto e minutos depois, papai roncava alto e em bom som.
Nunca consegui colocar na cabeça como a
mamãe conseguia dormir com papai parecendo uma betoneira ao lado dela. Enquanto
lavo as poucas louças sujas, (não gosto de deixar nada em cima da mesa, menos
ainda nos cafundós da pia. Um vento ameno entra pela janela da lavanderia, se
espalha e me traz um questionamento do qual nunca consegui me livrar, tampouco
esquecer. E pior, saber verdadeiramente o que responderia a mim mesmo. Parece
tarefa fácil, mas voltar no tempo... se pudesse voltar no “ontem”, ou melhor dito,
no meu tempo que passou e se foi faz bom período o que eu faria?
As pessoas do meu convívio sempre
respondem essa pergunta com coisas grandes. Voltariam passos atrás, para não
ter casado com fulana, para ter aceitado aquele emprego, para não ter comprado
um carro de segunda mão, talvez, se tivesse esperado um pouco mais, daria
entrada num novo. Eu não. Se eu tivesse
só uma viagem, ou somente uma chance de apertar o botão de voltar, de
retroceder, não mudaria nada de importante. Não almejaria ganhar na loteria;
não lutaria para ter cargo importante; ser igual como esses políticos sujos;
que só fazem merda; mesmo modos de ministros que se acham os deuses intocáveis.