sábado, 21 de abril de 2018

Motoristas [de ambulâncias] passam a pagar multa por excesso de velocidade [em Portugal]

Rodolfo Reis

Motoristas podiam alegar o caráter de pedidos de urgência médica e bastava ao INEM contatar a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), para o caso ser arquivado. Agora, o INEM vai ser obrigado a identificar os condutores se estes excederem os limites de velocidade.


O INEM vai ser obrigado a identificar os seus condutores caso estes sejam apanhados a conduzir com excesso de velocidade, relata esta quarta-feira a “SIC”. Anteriormente, os motoristas podiam alegar o caráter de pedidos de urgência médica que levava as viaturas a serem multadas a exceder os limites de velocidade e bastava ao INEM contatar a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), para o caso ser arquivado.

Agora o INEM tem de dar conta da identificação do condutor que excedeu os limites de velocidade à ANSR, para originar “uma notificação de contraordenação que é enviada para a morada do condutor”, pode ler-se no documento enviado aos coordenadores das viaturas médicas.

No mesmo comunicado é referido que o condutor “tem 15 dias úteis desde que recebe a notificação para proceder ao pagamento da coima e\ou apresentar defesa por escrito. Orlando Gonçalves, do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte afirma que “os trabalhadores já são extremamente mal pagos. O INEM funciona, como todos sabemos muito mal, com muita carência de pessoas e, portanto, os trabalhadores e os condutores das ambulâncias quando vão prestar socorro público a vítimas de acidentes ou de doenças não têm que estar limitados a pensar que depois ainda vão receber uma coima em casa, que ainda vão ter de andar no advogado para se defender deste tipo de situações, sem ter nenhuma garantia que a vão resolver, sem ter de perder pontos na carta, de pagar coimas. Isto é inadmissível”, sublinha.
Título [JP], Imagem e Texto: Rodolfo Reis, Jornal Econômico, 19-4-2018

Quem não é de esquerda não é bom chefe de família

Luís Reis

Portugal já viveu 50 anos num regime opressor, nivelador por baixo, redutor, anquilosado e obtuso. Só faltava agora que nos dissessem que quem não é de esquerda come criancinhas ao pequeno-almoço.


Que a esquerda se arroga um estatuto de superioridade moral e de exclusivo da ética e da retidão não é novidade para ninguém. Trata-se de um tique de natureza quase ontológica, que identifica, de forma maniqueísta e primária, a virtude com a esquerda e a direita com o vício.

Na minha infância, dizia-se por aí que beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses e que quem não era do Benfica não era bom chefe de família e outras frases de efeito mais conjecturadas pela propaganda salazarista. Mas os meus pais ensinaram-me que não era bem assim…

Agora, a esquerda quer governar-nos (como governa) destrinçando no seu rebanho entre cultos/não cultos, dignos/indignos, bons/maus, consoante sejam de esquerda ou não sejam.

Quem não é de esquerda não aprecia música clássica.

Quem não é de esquerda não gosta de arte contemporânea. Quem não é de esquerda não vai a concertos nem a exposições nem a bailados nem ao teatro.

Quem não é de esquerda não lê livros e não gosta dos animais e cospe para o chão, naturalmente.

Esta cartilha de generalizações e anátemas infantilizantes tem encontrado nos últimos anos, por razões óbvias, um terreno particularmente favorável à sua propagação.

Mas, quando eu pensava já ter visto tudo… Eis que vem o processo do ex-Presidente Lula, no Brasil que convocou, da parte da esquerda, a ingerência por “razões justas” como novo princípio a nortear a diplomacia, especialmente entre países “irmãos”; e eis como se repartem as águas, subitamente e sem nenhum pudor, também no campo internacional, entre um regime bom e virtuoso e um regime mau e corrupto – o primeiro é de esquerda, o segundo é naturalmente de direita. (E, entretanto, por entre as loas à democracia avançada e próspera da Venezuela e ao branqueamento dos regimes de Cuba e da Coreia do Norte, eis que desapareceu o princípio da não-ingerência em assuntos de “países soberanos”).

O regime da irresponsabilidade

Rui Ramos

Tal como o PS apagou as suas responsabilidades na bancarrota de 2011, o PSD pretende apagar as suas responsabilidades na saída limpa de 2014. Daí os "acordos" desta semana.

Os acordos do PSD com o PS são um dos factos mais bizarros da política portuguesa, não em si, mas pelo realce que o PSD decidiu dar-lhes. Entendimento para subtrair dinheiro aos alemães e intenções sobre a “descentralização” sempre houve. Por que esta encenação? Percebemos para que serviu ao PS, ao PCP, ao BE e até ao CDS. Mas para que serviu ao PSD? O PS, com acordos à direita e à esquerda, é agora a “força de equilíbrio”; o PCP e o BE provaram que só eles impedem uma recaída direitista no PS; o CDS, claro, é a única alternativa. E o PSD? Só estava a pensar em Portugal, como jurou Rui Rio?

Não, não estava. Para compreender isso, é preciso compreender a grande questão do regime. Chamemos-lhe a “questão da responsabilidade”. Há quase vinte anos que o país diverge da Europa, arrastando-se entre austeridades maiores e menores. De quem é a responsabilidade? O Partido Socialista é o suspeito mais evidente: governou a maior parte do tempo, e quando não governou, condicionou a governação, quer com as dificuldades que legou em 2002 e em 2011, quer com a oposição aos ajustamentos de Ferreira Leite e de Vítor Gaspar. Mas eis o mesmo pessoal político que chegou com Guterres e esteve com Sócrates outra vez no governo, e de que se fala? Do tamanho da sua maioria no próximo ano. Alguém lhes pergunta pelos PEC de 2010 e 2011? Não. Em contrapartida, toda a gente sabe que o PSD cortou pensões e aumentou impostos. O PS nunca deu “más notícias”: Guterres saiu antes de o país perceber o que se passava, e o memorando da troika, quando José Sócrates teve de o apresentar, era “um bom acordo”.

Passos Coelho, pelo contrário, fez questão de não criar ilusões. Quis ser responsável – e foi responsabilizado. Porque houve austeridade em Portugal? Por causa do PSD.

A preocupação de Rui Rio não é recuperar a “social democracia”, que foi sempre o que pôde ser, ou fazer o Bloco Central, que ficará para o próximo resgate. É outra coisa: tal como o PS apagou as suas responsabilidades na bancarrota de 2011, o PSD pretende apagar as suas responsabilidades na saída limpa de 2014. Ter poupado o país ao fado da Grécia é bom, mas melhor ainda será fazer esquecer o que teve de ser feito para conseguir isso. E para mudar de marca, não haverá melhor truque do que tornar-se mais um conviva na comédia de “acordos” e de “distribuições” do atual governo. É preferível passar por “muleta do PS”, do que carregar o “odioso” das últimas décadas.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

[Ferreti Ferrado suspeita...] Falta de fiscalização

Haroldo P. Barboza


Título, Arte e Texto: Haroldo P. Barboza, 20-4-2018

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[Aparecido rasga o verbo] Vinte e três anos depois, os “300 picaretas” continuam a todo vapor...

Aparecido Raimundo de Souza

COMO BONS BRASILEIROS, acreditamos que os senhores devam lembrar perfeitamente de um episódio que, na época, deu muito o que falar. Nos idos de 1985, Luiz Inácio Lula da Silva processou o músico Herbert Viana pela magnífica poesia “Luiz Inácio (300 picaretas)”. A nosso ver isso foi uma verdadeira ignomínia das mais torpes e objetas. Em primeiro lugar, o senhor Luiz Inácio, como os demais citados na obra gravada pela banda “Paralamas do Sucesso”, deveriam se sentir orgulhosos por verem seus nomes estampados numa melodia que, na ocasião, ganhou enorme projeção nacional. Afinal de contas, convenhamos, poucos são os que conseguem, hoje em dia, um ato heroico dessa envergadura. Ainda mais sendo bandido.

Chega inclusive, a ser exótico. Vejam, por exemplo, quantas personalidades de projeção, não só nacionais, como internacionais (sem querer nos desfazer dos envolvidos com a letra em questão), existem espalhadas por esse mundo de Deus afora. Contudo, nem por isso, essas celebridades galgam o ponto nevrálgico de alguém (parar para as revenciarem), através de uma letra magnifica, bem escrita, bem estruturada, e que, no fundo, sabemos, de antemão, mostra, a olhos saltados fora das órbitas, todas as verdades desses pilantras enganadores que estão sendo retratados. Foi o caso do companheiro Lula, hoje rotulado, carimbado e selado como ex-presidente. Quem de nós, senhoras e senhores, ilustres desconhecidos, não sentiria um prazer quase sexual, em ser cortejado e aclamado com todas as honrarias e méritos na poesia de uma canção?

Costumamos enfatizar que somente os pacóvios e trouxas, os lerdaços e papalvos, não veriam com olhos arregalados e atentos ouvidos, uma façanha dessa envergadura. Das duas uma: ou esses pilantras (citados) temiam que a sociedade (ao tomar conhecimento dessas aberrações) os alcunhasse de demagogos e salafrários, ou o passado de cada um exteriorizasse promiscuidades relevantes que deixariam saldos negativos e muitíssimo a desejar, e, portanto, em vista desses fenômenos insatisfatórios, nada nesse “ontem adormecido” deveria ser molestado ou tocado. Em outras palavras caríssimos leitores amigos: trazidos escabrosamente à tona.

Arranhe um “libertário progressista” e veja um comunista sangrar: o caso de Contardo Calligaris

Rodrigo Constantino

Foto: Dagmar Serpa/Revista Claudia

O psicanalista Contardo Calligaris já se disse um “anarquista” numa entrevista para Marília Gabriela, e utiliza sua coluna na Folha com frequência para disseminar seu relativismo moral, seu hedonismo irresponsável e sua visão “progressista” de mundo. Mas, por trás da aparência de libertino meio fora de idade, jaz um velho comunista mesmo. É tiro e queda: basta arranhar um pouco um desses “libertários progressistas” para ver um petista sangrar.

Em sua coluna de hoje, Calligaris falou das reações à prisão de Lula. Sua análise é um espanto: ele compreende quem ficou desesperado, por conta do “viés de confirmação”, considera que quem festejou o fez por inveja, e conclui que a maioria sentiu como ele, uma tristeza pela “morte da esperança”. Vamos ter que dissecar parágrafo a parágrafo pelo efeito pedagógico do típico discurso “isentão” sendo desmascarado:

Houve os que se desesperaram, considerando que Lula é vítima de um complô da classe dominante. Entendo. De qualquer forma, somos sempre todos vítimas de distorções cognitivas induzidas por nossas emoções e crenças. Enxergamos sobretudo o que confirma nossas próprias pré-concessões (é o que os psicólogos chamam de “viés de confirmação”).

Poderia ser um jeito mais elegante e suave de chamar os petistas de membros de uma seita irracional fanática, mas não é o caso. Calligaris realmente entende essa postura, como se todos nós fôssemos vítimas dessas “distorções cognitivas” (menos ele, claro). É como se um petista que ainda defende Lula depois de tudo e chama sua prisão de “golpe” fosse tão parcial como quem acusa Lula. O relativismo é sempre um refúgio para quem quer defender o indefensável.

Outros se regozijaram como se fosse a melhor terça de Carnaval da vida. Em geral, compensamos nossas frustrações odiando qualquer outro que alcance o que ele queria —é o viés do carniceiro: não somos toureiros e, por isso, assistimos uma corrida de touros na esperança de que o toureiro seja encornado. Mas, com algumas exceções, pareceu-me que os que festejavam fossem menos numerosos, menos barulhentos e talvez menos felizes do que eles mesmos esperavam ser.

Marco Aurélio envia nova ação sobre prisão em 2º grau para plenário

Processo foi apresentado pelo PCdoB depois que o PEN desistiu de pedido que tem potencial de beneficiar Lula

Agência Brasil

O ministro Marco Aurélio [foto], do SupremoTribunal Federal (STF), enviou nesta quinta-feira para julgamento no plenário da Corte uma nova ação declaratória de constitucionalidade (ADC) contra a prisão após a condenação em segunda instância. O processo foi apresentado na quarta-feira pelo PCdoB.
Foto: Ueslei Marcelino/Reuters


A inclusão da ADC na agenda do plenário depende agora da presidente Cármen Lúcia, responsável pela elaboração da pauta de julgamentos. Marco Aurélio enviou a ação ao pleno antes de decidir sobre a concessão ou não de uma liminar (decisão provisória) solicitada pelo partido.

Na nova ADC, assinada pelo jurista Celso Bandeira de Mello, que representa o PCdoB, o partido defende que uma pessoa só pode ser considerada culpada após o chamado trânsito em julgado, quando não cabem mais recursos em nenhuma instância da Justiça, incluindo o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o próprio STF.

A legenda pede uma liminar urgente para “impedir e tornar sem efeito qualquer decisão que importe em execução provisória de pena privativa de liberdade sem a existência de decisão condenatória transitada em julgado”.

A ação foi aberta pelo partido logo após a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que teve um habeas corpus preventivo negado pelo STF sob o argumento de que o entendimento atual da Corte permite a execução provisória de pena logo após o encerramento do processo em segunda instância, sem que seja necessário aguardar os recursos a instâncias superiores.

Gleisi Hoffmann pediu ajuda a terroristas islâmicos para libertar Lula?


Gilmar Lopes

É verdade que a presidente do Partido dos Trabalhadores Gleisi Hoffmann enviou um vídeo à Al-Qaeda pedindo apoio aos terroristas para libertar o ex-presidente Lula?

No dia 18 de abril de 2018, um vídeo com legendas em árabe e com a imagem da senadora Gleisi Hoffmann se espalhou nas redes sociais. No vídeo em questão, a parlamentar se dirige ao mundo árabe para falar sobre a prisão do ex-presidente Lula.

Após a disseminação do vídeo, acusações de atentado à Soberania Nacional caíram sobre Hoffmann. Várias publicações acusaram a presidente do PT de incitar o terrorismo no Brasil com a ajuda de grupos terroristas da Al-Qaeda.

Será que essa história é verdadeira ou falsa?

Verdade ou mentira?

No dia 18 de abril de 2018, foi ao ar pela TV Al Jazeera, no Catar, um vídeo gravado pela senadora Gleisi Hoffmann chamando a atenção do mundo árabe para a prisão (segundo ela) arbitrária e sem provas do ex-presidente Lula. Hoffmann afirma no vídeo que Lula é um preso político:

“Me dirijo ao mundo árabe, através da Al Jazeera, para denunciar que o ex-presidente Lula é um preso político em nosso país […] Lula foi condenado por juízes parciais num processo ilegal. Não há nenhuma prova de culpa, apenas acusações falsas”, diz a senadora em um trecho do vídeo!

Está tudo aí!

quinta-feira, 19 de abril de 2018

MTDA: Ou notas sobre o extremo-centrismo

Foto: Jo84/Free Images

Flávio Gordon

“Si entre no haber sido y ser
hubiera el hombre elegido,
claro es que hubiera escogido 
el no poder escoger”
(Ramón de Campoamor, poeta dos extremo-centristas)

Só hoje tive tempo de ler com calma o artigo do cientista político Gustavo Müller publicado em O Globo há pouco mais de um mês sob o título “A angústia dos moderados”. À época alertado por leitores de que o autor fazia menção ao meu A Corrupção da Inteligência, reservara-o para mais tarde, após uma rápida passada de olhos. Julgo pertinente respondê-lo agora, não por ter sido nominalmente citado, mas por distinguir na argumentação do autor um sintoma típico das patologias intelectuais e de linguagem que afetam nossa classe falante contemporânea.

A fim de nos apresentar seu arrazoado em favor da “moderação” política, o articulista refere-se criticamente a Jessé de Souza, intelectual orgânico do PT, cujo livro A Elite do Atraso seria “um retrato do extremismo que há muito ocupa o debate político e o debate intelectual”. Como pretenso representante do extremo oposto no espectro político, também o meu livro (do qual o articulista confessa ter lido apenas as primeiras páginas) é dito compor o mesmo retrato.

Para qualquer leitor minimamente habituado a debates públicos, e dotado de elementar honestidade intelectual, chama logo a atenção o fato de que os conceitos centrais do artigo, extremismo e moderação, não são claramente definidos ou identificados em parte alguma. Sem informar os leitores sobre critérios de aferição, o autor tampouco lhes indica o que há de extremista nas poucas páginas (terão sido duas? Cinco? Dez?) que leu do meu livro. A falta de definição conceitual é tanto mais grave quanto mais absolutizados os referidos conceitos surgem no texto. Müller parece nem desconfiar que, em se tratando de política, essas palavras só podem ter valor relativo, a depender da perspectiva própria de quem avalia. Indicam qualidades sem valor substantivo intrínseco, e que só se esclarecem, pois, em função daquilo ou daquele a que se aplicam. Deveria ser óbvio, mas o “centro” de uns bem pode ser o “extremo” de outros, não havendo, nessa seara, posição panótica de onde tudo ver sem ser visto.

Nem só de falta de definição padece o artigo, contudo. Nele, o leitor encontrará também definições erradas. Em sua busca pela moderação em política, o articulista sugere ter como parâmetro aqueles que, nos EUA, poderiam ser identificados como “liberais” e, na Europa, como “socialdemocratas”. Por ora, não entrarei aqui no mérito da socialdemocracia europeia. Já é triste o bastante que um cientista político brasileiro não saiba o sentido que nos EUA se atribui ao termo liberal, um sinônimo de “esquerdista”, amplo o bastante para comportar toda série de gradações, incluindo as versões ideologicamente mais radicais. “Liberals”, por exemplo, é como são chamados os Social Justice Warriors (“guerreiros da justiça social”), grupos de ativistas revolucionários que, sob a bandeira das políticas identitárias, e brandindo símbolos socialistas e anarquistas, agem com extrema violência contra desafetos políticos. O que pode haver aí de “moderado”, no sentido auto lisonjeiro e água-com-açúcar que o autor confere à palavra?

Berlim, 2018

Via Helena Matos, Blasfémias, 18-4-2018

Ana Amélia diz que vídeo de presidente do PT à Al Jazeera é desserviço ao Brasil

O Ocidente e os dilemas da informação imperfeita

Diana Soller

Não creio que o Ocidente volte, pelo menos tão cedo, a ser a comunidade das democracias que foi até há pouco tempo. Mas parece ter encontrado um mínimo denominador comum para voltar a reconstruir-se.

O episódio do atentado ao ex-espião Serguei Skripal e o recente ataque com armas químicas em Douma desencadearam um mesmo argumento por parte de todos os que se opuseram às reações do Ocidente: que não há provas nem que tenha sido a Rússia a praticar o atentado, nem que tenha sido o regime de Bashar Al-Assad a lançar o ataque químico.

A verdade é que poucas situações em política internacional vêm com provas concretas e conclusivas. Não sei se será este o caso: ainda estamos à espera dos resultados forenses da Grã-Bretanha, e não foi autorizado, até agora, o envio de uma comissão independente para avaliar o que aconteceu em Douma, apesar dos esforços das Nações Unidas.

O que nos leva a três argumentos. O primeiro, é que nas relações internacionais é muito raro haver informação perfeita. Há séculos que os países usam do segredo de estado para terem uma política externa eficaz e que defenda os interesses das suas populações.

O segundo argumento é que, para tomar as suas decisões com informação imperfeita, os estados usam uma ferramenta tão velhinha quanto a história da humanidade: a avaliação do comportamento dos outros estados. Aqui, fixo-me na questão Síria para não repetir argumentos de artigos anteriores. Em primeiro lugar, o regime de Bashar Al-Assad já usou armas químicas contra a sua população. A última vez tinha sido em abril do ano passado em Khan Cheikhoun, e não me lembro de tão grande alarido quando os Estados Unidos puniram a Síria pelo que tinha acontecido.

O pacifismo de flores e beijinhos do BE

Miguel Pinheiro

Perante o conflito na Síria e o ataque pelas forças aliadas, o BE comporta-se como uma espécie de Suíça hippie. Quando levamos o pacifismo aos limites do bom senso, perdemos sempre o compasso moral.

Catarina Martins, Coordenadora do Bloco de Esquerda, foto: Manuel de Almeida/Lusa
O Bloco de Esquerda olha para os assuntos da guerra e da paz com a profundidade de pensamento de um adolescente com acne. Resumindo, é assim: a paz é boa, a guerra é má; nós gostamos da paz, nós não gostamos da guerra. Parece tudo tão simples, não?

Perante o conflito na Síria e o ataque deste fim de semana pelas forças aliadas, o BE comporta-se como uma espécie de Suíça hippie. Numa posição de santa neutralidade, criticou o “regime de Bashar Al-Assad” — proclamando que “o uso de armas químicas é absolutamente inaceitável” — e, ao mesmo tempo, atacou os Estados Unidos, o Reino Unido e a França pela “escalada de militarismo internacional”. Na nota emitida pela sua Comissão Política, exigiu que Portugal se “distancie claramente” dos aliados e apelou, lacrimejante, à resolução pacífica do conflito sírio.

No mesmo dia, o PCP também condenou, “com a maior firmeza”, o “inaceitável ato de agressão contra a Síria” — mas não se distanciou do regime de Assad. Com os comunistas, sabemos sempre que o pacifismo é apenas um truque para apoiar o belicismo de Putin; e sabemos que o ataque ao “imperialismo norte-americano” é apenas um slogan para disfarçar o apoio ao imperialismo russo. Aquelas palavras são uma arma política, não são um instrumento moral.

O caso do BE é mais grave porque os bloquistas acreditam mesmo naquilo que dizem e escrevem — acham, para lá de qualquer dúvida ou hesitação, que todos os conflitos se resolvem com flores e beijinhos. Nas suas juvenis cabeças, para acabar com uma parte substancial do problema bastaria desarmar todos aqueles que carregassem duas características: serem americanos; serem capitalistas. Talvez seja ocioso recordar-lhes que os Estados Unidos têm 242 anos, o capitalismo (segundo Marx, atenção) tem 600 anos — mas o primeiro registo de guerra tem 14 mil anos.

Quando recebeu o Prémio Nobel da Paz no início do seu primeiro mandato, Barack Obama lembrou que era o Comandante em Chefe de um país que estava a travar duas guerras e explicou muito bem explicadinho como funciona o mundo: “O Mal existe. Um movimento pacifista não conseguiria ter detido os exércitos de Hitler. As negociações não convencem os líderes da Al Qaeda a deixarem as armas. Dizer que por vezes a força pode ser necessária não é um apelo ao cinismo — é um reconhecimento da História, das imperfeições do ser humano e dos limites da razão”.

É a sério ou a brincar?

Manuel Villaverde Cabral

A única coisa de importante que mudou desde que este governo tomou posse foi o tipo dos cortes realizados. Em vez de cortar nas despesas com pessoal, cortou nas despesas de funcionamento, como a saúde

Adalberto Campos Fernandes, ministro da Saúde, foto: Global Imagens
No meio da habitual agitação propagandística que caracteriza a vida política portuguesa, por definição adversa às reformas de fundo e viciada no que diz-que-diz quotidiano, vários discursos vindos do poder obrigam-nos por estes dias a perguntar se se trata de algo sério ou mais uma das muitas guinadas de que os partidos se têm servido nos últimos tempos, desde que o PSD de Passos Coelho foi removido da cena.

Dos prolixos discursos que o Presidente da República (PR) fez em Espanha, tiro sobretudo a ideia de que ele pretendeu fazer esquecer essa frase que chegou a pronunciar quando o BE protestou veementemente contra o bizarro anúncio do ministro das Finanças (MF) sobre o próximo fim do défice estatal e da dívida pública. Entretanto, o primeiro-ministro (PM) escutava em silêncio à espera de saber quem falava por último. Perante os protestos da tal «extrema-esquerda que não existe mais em Portugal», segundo diz o PR, este declarou alto e bom som: «Se o orçamento para 2018 não for aprovado, a Assembleia da República (AR) será dissolvida». O BE ouviu e nunca mais falou do assunto. O PCP nada dissera e ficou a ver em que paravam as modas…

Era o que o PM queria ouvir. Segundo toda a probabilidade, o BE engolirá as promessas de Centeno, pois é fácil de ver que, no caso de a AR ser dissolvida, esse impenitente ramo da extrema-esquerda perderia votos e se arriscava a ficar de fora da «geringonça», quem sabe se abrindo espaço a um discreto «bloco central» de que Rui Rio está tão necessitado. Portanto, é de calcular que o orçamento para 2019 acabe por passar, de acordo com a táctica do PS para as eleições legislativas de 2019. Em resultado disso, o mais provável é que as eventuais poupanças feitas em 2018 sejam transformadas em 2019 naquele tipo de «bodo aos pobres» que Sócrates ofereceu aos funcionários públicos há dez anos, agravando assim as consequências da crise já em curso.

Na sua lista de maravilhas apresentadas em Madrid, o PR reconheceu que se trataria de um «equilíbrio difícil», mas acrescentou logo que «é possível, na Europa, ter diferentes vias para a construção do equilíbrio financeiro». Ora, nem na Europa nem em lado nenhum; ao contrário do que ele disse, o equilíbrio só se consegue de uma maneira: não gastando mais do que se cobra, em suma, não matando a galinha de ovos de ouro que são os contribuintes. Até agora, Portugal beneficiou da limpeza parcial executada pelo anterior governo, aliás sem grandes transformações de fundo, e da recuperação iniciada em 2015.

9 anos. Parabéns, O cão que fuma!


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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Eu exijo!

QUIZ: Kemal Atatürk

Kemal Atatürk foi o fundador e presidente de uma nova república. Qual?


A  – Grécia
B  – Turquia
C  – Arménia
D  – Bulgária

Charada (531)

Quem destoa,
logicamente,
deste grupo?

Sidónio Pais
Óscar Carmona
Oliveira Salazar
Ramalho Eanes
Mário Soares

terça-feira, 17 de abril de 2018

Há tempos a imprensa virou um organismo parasitado por esquerdistas

Marlos Ápyus

O jornalismo que endossa o discurso dos próprios algozes é um atraso que merece ficar no passado

Enquanto Lula adiava a própria prisão encastelando-se em São Bernardo do Campo, membros da imprensa foram agredidos às dúzias por militantes que, mesmo minguados, tentavam tomar as ruas do país. Na ocasião, o Sindicato dos Jornalistas de SP emitiu uma nota repudiando as agressões. Mas, mesmo no alvo de ataques tão intensos, a entidade endossou o discurso dos agressores:

Essa situação lamentável é resultado também da política das grandes empresas de comunicação, que apoiam o golpe, e que adotam uma linha editorial de hostilidade contra as organizações populares.

A nota chegou ao cúmulo de exigir liberdade ao condenado:

Para impedir que casos de agressão e tentativas de censura se repitam é preciso que se retome a democracia, o que só será possível com Lula livre e com a garantia de o povo brasileiro poder votar legitimamente nas eleições de 2018.

Nada disso, contudo, é surpresa para quem se acostumou a ler a entrelinhas do noticiário. A imprensa se vende como livre. Mas há tempos – e é difícil precisar quando a situação chegou a este ponto – não passa de um organismo parasitado por militantes de esquerda. Que não noticiam, mas trabalham narrativas em benefício de uma agenda política. E que têm na nota do sindicato paulista um de seus atos mais explícitos.

Durante a jornada ao cárcere, Lula não se cansou de culpar a Rede Globo, com direito a notas do PT oficializando o posicionamento e promessas de censura (sempre camufladas pelo eufemismo “regulação dos meios de comunicação”). Nada disso impediu o Jornal Nacional de ter um apresentador em lágrimas na noite em que o ex-presidente finalmente se entregou.

“Lula tirou a maioria da população da pobreza e, por isso, está preso”

o antagonista

O perfeito idiota latino-americano Adolfo Pérez Esquivel [foto] pretende visitar Lula na cadeia nesta sexta-feira.


Ele disse para o Estadão:

“Lula tirou a maioria da população da pobreza e, por isso, está preso. É infame, não podemos tolerar.”

Sim, é infame.
Título, Imagem e Texto: o antagonista, 17-4-2018

[Versos de través] Os despojados

Haroldo Barboza




Fiéis amantes da Natureza
Amavam a Terra e viviam.
Caçar, pescar e cantar
Era tudo o que sabiam.

Os amantes das batalhas
Portando armas letais
Invadiram suas tribos
Deixando rastros mortais.

A volúpia do desejo
Por tesouros naturais
Fazia dos invasores
Verdadeiros animais.

Por dezenas de anos
Saquearam e mataram
Possuíram as mulheres
Os homens, escravizaram.

A especulação financeira
Com certeza foi o fato
Que atropelou seus mitos
E os confinou no mato.

[Aparecido rasga o verbo] A insustentável leveza do eterno de mal a pior

Aparecido Raimundo de Souza

A imoderação convive entre nós, como a pulga no cachorro.
Ariano Suassuna

O QUE PODEMOS DIZER E FALAR a respeito da violência? Apenas que ela tomou proporções inacreditáveis no nosso dia a dia. Igualmente, cresce a olhos vistos o temor da sociedade em face da sua presença dentro do inconcebível. Não há um só lugar no planeta em que as pessoas se sintam verdadeiramente seguras e tranquilas. Além daquelas criaturas malignas que matam para roubar (juridicamente conhecidas como latrocidas) ou por vingança (motivos torpes e hediondos), surge, no contrafluxo, uma nova safra de bandidos e facínoras, delinquentes e celerados, até então nunca vistos. Tomados pela agressividade à flor-da-pele e pelo descontrole da mente, certos indivíduos cometem, impensadamente, transgressões e infrações as mais banais sem, entretanto, estarem entrelaçadas às aparências plenamente justificáveis.

Até bem pouco tempo, os telejornais cansaram de mostrar a fuça do professor que foi acusado de ter sacrificado um estudante de treze anos batendo a sua cabeça na parede. Os senhores leitores se recordam desse episódio? A polícia descobriu, a posteriori, que o rapaz só queria ir ao banheiro fazer xixi!...

A título de ilustração, vale a pena lembrarmos também da estudante de psicologia Maria de Lourdes Leite de Oliveira, a Lou, que juntamente com seu comparsa Wanderlei Gonçalves Quintão, o Wan, ocuparam por longo tempo as crônicas dos jornais de maior circulação em todos os quadrantes da federação.

A juntar a isto, e no mesmo fôlego, Aracelli Cabrera Crespo (nos idos de maio de 1973) que, inclusive, inspirou José Louzeiro a escrever “Aracelli, Meu Amor”, Chico Picadinho, ou o “Açougueiro do Diabo”, do psiquiatra Charles Kiraly, onde são narrados os fatos que, depois de estuprar, Picadinho degolava e retalhava o corpo de suas vítimas. Lúcio Flávio Vilar Lírio (O Lúcio Flávio, o “Passageiro da Agonia”), conhecido como o eterno galã da marginália, o “Poderoso chefão” Pimenta Neves, do jornal “Estado de São Paulo”, que pôs fim à vida da jornalista Sandra Gomide, sua ex-namorada e de Amailton Madeira Gomes, seu amigo o ex-policial Carlos Alberto dos Santos Lima e do médico capixaba Césio Brandão (que entre 1989 e 1993) sem motivos fortalecidos, torturaram, castraram (emascularam) e mataram meninos e meninas com idades entre oito e treze anos, na cidade de  Altamira, no Pará.
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