domingo, 4 de outubro de 2015

A sabedoria dos locais

Ricardo Reis
Um dia, numa cerimónia, ouvi o ex-secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, dizer que a maior lição da sua vida fora ter mais respeito pela sabedoria dos locais. Quando era novo, Annan tinha-se mudado para o estado do Minnesota. Assim que aterrou no aeroporto, ele viu os locais com grossos chapéus ridículos na cabeça, e fartou-se de gozar com a sua figura. Uns meses mais tarde, quando a temperatura desceu abaixo dos -10ºC, como é habitual na zona, Annan comprou o mais grosso e mais ridículo chapéu que encontrou.

Impressiona o número de vezes que pessoas inteligentes cometem este erro. E fácil olhar para um país sobre o qual conhecemos pouco e, de imediato, ver semelhanças com o nosso país para saltar a fazer conclusões disparatadas e sobretudo perigosas. Em Portugal, não faltaram intelectuais e políticos a aplaudir Hugo Chavez e a Venezuela por terem rompido com o FMI e proclamado um novo nirvana socialista. Perdi conta ao número de apoios a Chavez apesar dos alertas das elites venezuelanas sobre os devaneios ditatoriais do homem. Hoje é claríssimo que os locais tinham razão. Chavez prendeu opositores, suprimiu as liberdades individuais, e a economia venezuelana atravessou uma contração de riqueza que quebra recordes mesmo para a América do Sul.

Mais recentemente, houve regozijo com a eleição do Syriza no início do ano, desde António Costa a Manuela Ferreira Leite. Tal como com Hugo Chavez, não era difícil perceber ao que vinham Tsipras, Vaorufakis e os seus aliados da extrema-direita. Todo o seu discurso era anti-Europa e anti liberdade económica. Toda a sua carreira mostrava claramente que o talento para discursos inconsequentes era tão grande como era a sua falta de capacidade para governar seja o que for.

O problema não é só português. Paul Krugman, na sua campanha para um maior Estado e maiores défices públicos nos EUA, não hesita em usar exemplos externos como Portugal para ilustrar os perigos da austeridade. A diferença entre a recuperação da economia americana e a estagnação portuguesa seria a violenta austeridade que nos foi imposta pela troika. Só que, em Portugal entre 2011 e 2014 o défice primário das contas públicas melhorou 3,4% do PIB. Nos EUA, na mesma altura, sem supostamente grandes políticas de austeridade, o défice primário melhorou 5,0%, uma bem maior correção das contas públicas.

Por fim, nos últimos meses, muitos observadores externos achavam que as eleições portuguesas deste fim de semana não tinham qualquer interesse. Obviamente que um governo que parasse o aumento imparável da despesa pública em Portugal dos últimos 20 anos iria ser corrido. Ninguém que cortasse o apoio e dinheiro aos poderosos grupos de interesse locais podia ser reeleito. Veremos amanhã [domingo, 4 de outubro] o que acontecerá com as eleições, e até que ponto os resultados irão surpreender estes observadores. Vamos descobrir com a sabedoria dos locais qual é o efeito de fazer reformas contra os interesses instalados. 
Título e Texto: Ricardo Reis, Dinheiro Vivo, 3-10-2015

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