quarta-feira, 26 de julho de 2017

Palavras afiadas: os fóbios e os céticos

Ingrid Riocreux

O que temos descoberto, através destes exemplos, é que designar e descrever, na boca do Jornalista – e apesar dele –, é julgar.


Apesar dele? Tomemos um exemplo sem grande incidência. O jornalista que comenta o jogo para computador na France Info ignora manifestamente que o adjetivo medioso (moyenâgeux) não é um elogio. Parece que ele o confunde com medieval (que significa “da Idade Média”), palavra que talvez ele ignore a existência. Senão, como explicar que ele possa elogiar, no tal novo jogo, “um magnífico cenário medioso”, e em outro “um cenário medioso e cavalheiresco”. Que belo oximoro; ele quase vale a obscura realidade que, sob a pluma de Corneille, caía das estrelas.

O impacto da conotação afeta igualmente o uso dos afixos (prefixos e sufixos). Assim, o antiamericanismo não é americanofobia. O primeiro é uma postura positiva, que podemos declarar e da qual pode se ter orgulho. A segunda é um defeito, um insulto mesmo. O sufixo – fobia era, originariamente, reservado às patologias psiquiatras: aracnofobia, nictofobia, claustrofobia, etc. Tornou-se um meio cômodo de desacreditar um adversário. Os termos em – fóbios são particularmente afetados nos média de massa. Contudo, estas palavras não constituem caracterizações objetivas. Tal como “fascista” e “racista” que perderam quase completamente as suas definições originais, os -fobias atuais são insultos, ferramentas de slogans, ataques gratuitos que permitem transformar o adversário ideológico em inimigo, poupando o trabalho da argumentação.

Aliás, é por essa razão que é absolutamente inútil de se defender. Durante as manifestações dos opositores ao ‘Casamento para Todos’, os participantes interrogados pela imprensa começavam a sua resposta com “nós não somos, de jeito nenhum, homofóbicos”. Mas o simples fato que eles estivessem se manifestando contra o ‘Casamento para Todos’ significava, para os seus adversários (de esquerda), uma iniciativa homofóbica. Os manifestantes não se consideravam homofóbicos, conforme a sua própria definição de homofobia; e os adversários os acusavam de ser homofóbicos, conforme definição deles. Em outras palavras, o termo homofobia não tem significado estabelecido, ele tem o (significado) que lhe demos, para as necessidades da causa, naquele determinado quadro conjuntural. Na realidade, ele não tem nenhum sentido (o “medo do mesmo”?): se quiséssemos falar corretamente, diríamos homossexualofobia. Rigorosamente, não deveríamos mais dizer homossexualidade, mas homofilia, ou homossexofilia. Homofobia seria então homossexofilofobia. Prossigamos. O que nos interessa, é a fortuna midiática do termo que se impôs: homofobia.

Etimologicamente mal concebido, é alvo de uma imprecisão semântica que autoriza a designação, e a condenação em bloco, de realidades bem diferentes. É prático – ou perigoso, conforme o ponto de vista. Efetivamente, a sua utilização é cômoda, pois permite apagar a diferença entre, vamos dizer, o troglodita que adora “bater em veado”, o religioso que considera a homossexualidade como pecado e o homossexual que milita contra o casamento gay, pois não o considera uma concepção tradicional da união conjugal.
(...)
Título e Texto: Ingrid Riocreux, in “La langue des médias – Destruction du langage et fabrication du consentement”, páginas 143, 144, 145, e 146.
Tradução: JP 

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