terça-feira, 4 de julho de 2017

Obrigação de smurfar

Ingrid Riocreux

Podemos lembrar aqui do grande momento de televisão inquisitorial que foi a entrevista de Marine Le Pen a Bruce Toussaint na iTélé, na manhã de 12 de janeiro de 2015. “Você é Charlie?” pergunta o jornalista à presidente do FN, retomando a palavra de ordem da grande manifestação da véspera. Irritada, a presidente do FN responde que na hipótese de ser perguntada se ela defende a liberdade de expressão, a resposta é evidentemente sim; mas, a resposta é negativa se lhe pedem de aderir à linha editorial de Charlie Hebdo. Todavia, esta resposta não agrada a Toussaint que repete a pergunta. Ele quer ouvir um bem claro e bem escandaloso “je ne suis pas Charlie”.

A famosa “je suis Charlie” é a fórmula mais vazia ou, se preferirem, a mais ambígua possível; pois permitiu o desfile lado a lado de pessoas que a interpretavam diferentemente, querendo passar a ilusão de unidade.

Para uns ela significava “abaixo o islã (ou tal forma do islã)”, para outros, “abaixo a República impotente e fraca”, para aqueloutros, “abaixo as religiões”. Era um slogan-smurf: “smurfemos todos juntos!” – “sim, smurfemos!” Salvo que o verbo smurfar não tem o mesmo sentido para todos os Smurfs presentes. Portanto, ninguém sabe o que significa “ser Charlie”; mas é ignominioso não ser Charlie. Sejam quais forem as motivações, aquele que não é Charlie cai sob o golpe de uma condenação a priori. Ele não quer smurfar com os outros.

Se Marine Le Pen concede que ela não é Charlie, inútil para ela de cuidar da sua justificativa. A sua fala será reduzida ao título “Marine Le Pen afirma: ‘Eu não sou Charlie’”, que rolará durante todo o dia no rodapé da telinha.

Bom, ainda na iTélé, 16 de julho de 2015, às 22h20. Romain Desarbres entrevista Guillaume Larrivé sobre a política migratória da União Europeia e pergunta-lhe o que ele pensa do muro que a Hungria quer construir na sua fronteira. Resposta do entrevistado: “É uma iniciativa da Hungria”.  Romain Desarbres: “Iniciativa… lamentável?” O Jornalista é gentil: ele vai até sugerir as boas respostas às suas próprias perguntas. Todos sonhamos com um qualquer corpo de jurados como Desarbres.

Os políticos, em face a esta atitude, têm três opções: aceitar a provocação afirmando que não, eles não se opõem a esta iniciativa; vergar a espinha dorsal e afirmar que, evidentemente, trata-se de um muro da vergonha e que todo o mundo deve condená-lo com a maior firmeza, esta a fórmula consagrada; não expressar opinião.

Guillaume Larrivé escolheu a terceira opção: “Não quero comentar as decisões de um país estrangeiro”. Esta resposta é clara, o Jornalista deveria, então, passar à próxima pergunta. Mas, depois da sugestão do adjetivo ‘lamentável’, Romain Desarbres entende que deve cumprir a sua missão inquisitorial: “mas, você não quer condenar este muro?” O convidado deve agarrar a bóia que lhe é estendida pela última vez, ou confirmar que a recusou, consciente e obstinadamente. Por cálculo ou por convicção, Guillaume Larrivé não condenará o muro. Mais um que não quer smurfar.

Numa obra publicada em 2011 e titulada o Pequeno livro azul, Antoine Buéno mostrava que a sociedade dos smurfs constitui um “arquétipo de utopia totalitária”. Como um jornalista lhe lembrava que os pequenos homens azuis não têm a aparência de oprimidos, nem de infelizes, ele respondia que “se pode viver não muito mal numa sociedade não-democrática”.

Uma sociedade não-democrática onde se vive não muito mal, talvez seja uma boa descrição da nossa. (França).
Título e Texto: Ingrid Riocreux, in “La langue des médias – Destruction du langage et fabrication du consentement”, páginas 34, 35 e 36.
Tradução:
JP

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