segunda-feira, 3 de julho de 2017

A boa inquisição

Como eu afirmei ao comentar este artigo trarei para o leitor alguns trechos que selecionei do livro. Embora o livro se dedique à imprensa francesa, o leitor reconhecerá, nesses trechos, ‘Jornalistas’ de Portugal, dos EUA, da Espanha e do Brasil.

Curiosamente, os ‘Jornalistas’ são muito ‘aguerridos’ quando entrevistam gente de Direita e/ou que defende valores tradicionais.

Citei o Brasil por último porque não me lembro de ter visto tanta agressividade por parte de entrevistadores… disse entrevistadores, não comentadores.

Vamos ao primeiro trecho selecionado.

Tudo o que quero dizer aqui se encontra exemplificado em uma entrevista organizada por Yann Barthès [foto], em 15 de outubro de 2015, no Canal Plus. Barthès recebe Philippe Verdier, chefe do Serviço de Meteorologia de France 2 (canal televisivo) para falar do livro no qual ele denuncia as estratégias de comunicação elaboradas em volta da questão do aquecimento climático.

O convidado começa uma frase: “Eu fui acusado de ser climatocético desde o princípio, fui alvo de uma campanha de difa…” Yann Barthès interrompe: “Você não é?”.

Ele poderia ter adotado uma postura de observador e perguntar “o que você responde aos que o acusam de ser climatocético?”.

Pelo seu olhar, a brutalidade da sua interrupção, o tom da sua pergunta e a forma, Yann Barthès encarna o Jornalista por excelência, versão moderna do inquisidor. “Sou vítima de difamação: desde o início, fui acusado de bruxo…” – “Você não é?” Tem que ser vista esta entrevista. (http://dai.ly/x39so8z).

Sem sombra de dúvida, se Yann Barthès tivesse o poder de condenar Philippe Verdier, ele o faria independentemente do que este dissesse em sua defesa. E o faria com o sentimento de cumprir o seu dever, retirando de um indivíduo perigoso sua capacidade destrutiva.

Quando assisti a esta emissão, tinha acabado de ler Em nome da rosa. A semelhança entre os dois homens me saltou aos olhos: eu olhava para Yann Barthès e via Bernardo Gui.

A noção de inquisição midiática é um leitmotiv na boca daqueles que essa mesma inquisição classifica – sem dúvida por essa mesma razão – de “extrema-direita” ou designa como pessoas “controvertidas”. De fato, a priori, essa expressão não é nada elogiosa. Quando se decreta que a imprensa é a nova inquisição, critica-se a sua propensão a perseguir o pensamento desviante que se afasta do “politicamente correto”, denuncia-se seus métodos totalitários e as posturas homogêneas e dogmáticas dos jornalistas. Foi dentro dessa perspectiva acusadora que Francis Puyalte, ele mesmo jornalista, redigiu um livro cujo título é justamente A Inquisição midiática. Mas, refletindo bem, os jornalistas devem se ofender com esta comparação e recebê-la como insulto?

Sabemos que os nossos antepassados preferiam, muito mais, ser julgados pelos tribunais da Santa Inquisição do que pela justiça real. Em frente aos inquisidores, é possível se arrepender, se retratar, beijar a Cruz e prometer que doravante não mais se contestará o dogma. O inquisidor é tão somente aquele que coloca as questões. É para o braço secular que se remete o acusado, se necessário, para submetê-lo à questão, do latim quæstio (o recurso à tortura era raríssimo). E é ao braço secular que se entrega o acusado, a fim de ser pronunciada a sentença e o castigo. Da mesma maneira, o Jornalista não tem o poder de manter sob custódia, nem de enviar para a prisão aquele que derroga a doxa obrigatória. Assim como o inquisidor, ele é aquele que interroga o suspeito; e faz as mesmas perguntas que ele: “você está consciente da gravidade das suas afirmações?”, “está arrependido de ter dito isso?” São questões que não deveriam estar na boca do Jornalista se ele se encarregasse somente de transmitir as informações, pois que são falsas questões.

Quando o Jornalista pergunta ao seu interlocutor: “que número você estima de pessoas atingidas pelo vírus, atualmente?”, está colocando uma verdadeira questão. Quando ele pergunta: “você se arrepende de ter feito tais afirmações?”, ele não está procurando uma informação, ele quer conferir a adesão ao dogma, ele faz uma pergunta que tem valor moral, dando ao acusado a ocasião para se retratar, de refutar as suas próprias palavras e de voltar para o grupo.

O Jornalista acha ridícula e excessiva esta comparação com o inquisidor. Porque ele define o inquisidor como um monstro sanguinário e obtuso, a encarnação do obscurantismo ao qual se contrapõe, justamente, o livre acesso à informação.

Mas, salvo exceção, o inquisidor não é uma pessoa má. É um homem de convicção ao serviço de uma ideologia. Como o Jornalista. E como este, ele mantém sempre a consciência tranquila.

Título e Texto: Ingrid Riocreux, in “La langue des médias – Destruction du langage et fabrication du consentement”, páginas 32, 33 e 34.
Tradução:
JP

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