segunda-feira, 10 de julho de 2017

Todos vítimas, todos culpados

Ingrid Riocreux

Compreendemos, desde então, que é com boa consciência e perfeita candura que o Jornalista distribui um discurso propagandístico. Ele próprio é vítima de um condicionamento que formata o seu próprio discurso e permite, pela sua boca (ou caneta), a difusão de um corpo doutrinal homogêneo ao qual é difícil escapar. Efetivamente, a propagação midiática de uma ideia confere-lhe um poder de ataque poderoso. Em espaço de algumas semanas, através do impacto de um fato corriqueiro sabiamente utilizado (com a consentida cumplicidade e ingênua da imprensa), o bravo vovô que pensava partilhar com a maioria das pessoas uma ideia de bom senso (na opinião dele) contra os muito minoritários adeptos de uma doutrina estranha, se vê sozinho no mundo.

A doutrina que ele acreditava meio amalucada torna-se o pensamento de todos; e quando ele reafirma a sua posição, seus interlocutores mostram um desconforto palpável, até mesmo uma certa piedade pelo seu espírito retrógrado, e lhe fazem sinais para se calar: “atenção, véio, cuidado, podem te ouvir.” E se o debate acontece durante a hora do café, Vovô tem a desagradável impressão de não estar perante seus filhos ou netos; mas perante a televisão. Porque todos os argumentos que lhe atiram, para o alistar à nova ideia dos novos tempos, não são que a dócil repetição daqueles difundidos pela mídia.

Existe, portanto, uma continuidade funcional entre propaganda totalitária e martelagem midiática em contexto democrático. Se queremos nos acomodar, é preciso aceitar considerar que maus meios podem ser colocados a serviço de uma boa causa. Uma postura moral que poucos ousam assumir. Efetivamente, e voltaremos ao assunto, se o Jornalista passa o seu tempo a estabelecer, explicitar e consolidar normas morais, ele reluta em reconhecê-lo e, na maior parte do tempo, nem se dá conta. O seu discurso distingue ininterruptamente opinião autorizada e opinião repreensível, mas o grau de impregnação ideológica é tanto que o Jornalista não concebendo que se possa pensar diferentemente dele, ignora que ele opera julgamentos desse tipo.

É preciso dizer que a sua missão não é a de contribuir para a inteligência do mundo, nem evidenciar a complexidade humana. Não, o Jornalista atua e sempre atuará, apesar dele e algumas vezes contra a ética da sua profissão, um papel-chave no que Walter Lippman chamou, desde 1922, a ‘fabricação do consentimento” (manufacure of consent), expressão retomada no título de uma célebre obra de Noam Chomsky e Edward Herman: La fabrication du consentement : De la propagande médiatique en démocracie.

Podemos desculpar o Jornalista, pois que as suas apreciações éticas insinuam-se nas palavras que ele utiliza. Mas devemos, evidentemente, reprová-lo por não pensar nos termos que ele utiliza. Definitivamente, além do grau de consciência do Jornalista, será necessário – e é o que faremos ao concluir o nosso livro – se interrogar sobre o grau (de consciência) dos ouvintes, leitores ou telespectadores submetidos a esse discurso orientado, e, portanto, orientador. 
Título e Texto: Ingrid Riocreux, in “La langue des médias – Destruction du langage et fabrication du consentement”, páginas 56 e 57.
Tradução:
JP

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Um comentário:

  1. Certa vez, Fernando Collor declarou que o poder estava em 4 coisas:
    - Um jornal, um canal de TV, um banco e uma empresa aérea.
    - A empresa aérea el começou a destruir com a abertura dos céus brasileiros para as grandes enterprises.
    - A globo destruiu sua imagem.
    - Os jornais compraram a delação de seu irmão.
    - Foi cassado por uma micharia com auxílio dos banqueiros principalmente o Bradesco.
    A mídia escrita não direciona nem orienta seus leitores, hoje em dia jornais e revistas encontram-se em baixa no mundo todo.
    As companhias aéreas brasileiras são todas uma merda.
    Os bancos roubam aos rios, são os maiores credores do governo.
    A TELEVISÃO ORIENTE E CONDICIONA O POVO.
    A INTERNET EM CONSTANTE VIGÍLIA É QUASE TOTALMENTE DE ESQUERDA.
    A MÍDIA ESCRITA E FALADA DEPENDE DE PROPAGANDA PRA SOBREVIVER.
    Por isso as manchetes no Brasil são somente políticas, ou sobre alguns times de futebol como o Corinthians e Flamengo, e os crimes.
    Qualquer telejornal fica horas falando sobre determinados crimes, ou sobre política.
    O jornal da Band e o tal de Datena, ficam por horas entrevistando famílias dizimadas pelo crime, ou por acidentes onde ressoa a pergunta sobre o que sentem em seus corações.
    Em meio às lágrimas e desesperos o pedido de JUSTIÇA.
    95% das notícias via Internet são falsas.
    Coçar o saco, eis a opção...

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