terça-feira, 3 de outubro de 2017

Tudo somado…

Maria de Fátima Bonifácio

Fernando Medina foi apanhado em flagrante delito; revelou que era feito da mesmíssima massa do comum dos mortais quando confrontados com cifrões sedutores. Os lisboetas não se importaram nada com isso

1. António Costa foi o grande vencedor das eleições autárquicas de 1 de outubro. Não seria honesto desvalorizar a importância dos resultados eleitorais alegando que se tratou de eleições autárquicas e não legislativas, nacionais. Costa ganhou, ponto, consolidando decisivamente o seu poder sobre os dois trintenários que adornam o coche que ele conduz a partir do banco em que se senta o cocheiro.

Muitos fatores concorreram para esta vitória, alcançada largamente graças à muito má prestação do PSD, à desastrosa prestação do PCP e à mais do que medíocre prestação do Bloco. Entre esses fatores avulta a sorte, mas a sorte não vem ter com quem não faz por ela. Costa explorou com grande destreza a credibilização do País junto da Europa, legada por Passos Coelho, bem como a inversão da “espiral recessiva” também por este operada. Aproveitou, a partir daí, a mudança dos ventos na Europa – onde encontrou não só uma predisposição bem mais bondosa para lidar com os países faltosos da União, como a incipiente mas significativa retoma do crescimento económico na UE; prevaleceu-se com mestria da distração – fingida ou real — dos seus dois trintenários para introduzir cativações orçamentais gigantescas, nunca vistas, que foram e são a prossecução da austeridade por outras vias; e tirou o máximo partido da transferência das responsabilidades do PS para o PSD a respeito da bancarrota nacional deixada em herança pelo governo socialista de Sócrates – uma falsidade que, de tão repetida e proclamada, facilmente foi absorvida pelas cabeças pouco exigentes e sempre desmemoriadas dos portugueses. Mas, em política, quem ganha tem razão, ponto.

As exportações e o turismo torrencial ajudaram decisivamente à melhoria do PIB e à indireta diminuição do déficit. A propaganda de Costa não foi muito mais mentirosa do que o geral da propaganda política; incluiu mentiras gritantes, mas o pessoal é pouco sensível a tudo, ou quase tudo o que não seja o estado da sua algibeira. É assim em toda a parte. Costa soube explorar não apenas o legado de Passos e a conjuntura europeia, como as naturais e congénitas fraquezas humanas: o que interessa é o que está a dar! Mais exatamente, o que as pessoas julgam que está a dar. E, no meio da ilusão de que os seus proventos aumentaram em termos reais, no inebriamento com as vacas que voam, desaparecem os mortos de Pedrógão, a falência abjeta do SIRESP, e já ninguém se lembra de Tancos.

2. Supõe-se geralmente que a civilização e o civismo corrigem os defeitos mais grosseiros da natureza humana. Mas, quando aqueles bens são de muito fresca data, como é o nosso caso, o verniz estala com desconcertante facilidade. Fernando Medina, o Wunderkind do PS (menino-maravilha), ganhou a câmara de Lisboa, mas sem maioria absoluta.

Medina, conforme estampado nos jornais e em particular no «Público», não resistiu a um desconto de 200.000 euros na compra de um apartamento a troco, poucos meses após a transação, de adjudicar à Teixeira Duarte, das maiores construtoras do País, uma obra no valor de mais de cinco milhões de euros. Adjudicação por ajuste direto, sem concurso, invocando “urgência” como justificação legal para a ilegalidade. Por azar, o LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), uma das mais respeitadas instituições do País, emitiu um parecer em que afirmava não haver urgência nenhuma, nem a curto nem a médio prazo.

Wunderkind foi, pois, apanhado em flagrante delito; revelou que era feito da mesmíssima massa do comum dos mortais quando confrontados com cifrões sedutores. Os lisboetas não se importaram nada com isso: o PS é que está a dar. E vai daí, toca de votar Medina e de premiar a trafulhice com uma maioria simples.

A exigência cívica e ética dos portugueses é muito pouca ou até nenhuma. Foi essa falta de exigência e de memória que permitiu a Costa, em 2013, rasgar o chamado “Acordo de Coimbra” com Seguro, por si mesmo assinado, tomar de assalto a sede do PS no Largo do Rato e defenestrar sumariamente o rival. Não confio em Medina, que contra a mais elementar decência não resistiu a 200.000 euros; e não confio em Costa, no sentido em que não lhe compraria um carro usado: quem não respeita ou honra a sua própria assinatura, o que respeita e o que honrará?

3. Mas a noite eleitoral, para mim muito ensombrada pela derrota do PSD (nem tanto pelo partido, que mal conheço, como por Passos Coelho, que prezo e admiro), reservou-me alguns resultados consoladores – e possivelmente promissores para o País. O PCP sofreu uma hecatombe. Perdeu nada menos que dez câmaras, entre as quais se destacam algumas emblemáticas como as de Beja (no Alentejo de Catarina Eufémia e de Manuel Tiago), de Almada e do Barreiro, outrora um reservatório comunista na antiga cintura industrial de Lisboa. Os comentários televisivos que ouvi salientaram a colagem do PCP ao governo PS – a participação na Geringonça, ou seja, a colaboração do “Partido” com o Capital — como o fator mais responsável pela deserção dos votantes comunistas, que deste modo teriam castigado a traição ideológica e histórica da direção do PCP. Pode ser uma tese parcialmente verdadeira. Mas estou em crer que algo de bastante diferente e em mais larga escala aconteceu: uma parte substancial dos “comunistas” perceberam que o PS, que não lhes exige a abnegação sacrificial nem a disciplina militar que o leninismo português lhes impõe, afinal é o que está a dar, ao passo que até hoje o PCP só lhes exigiu sacrifícios em troca de “amanhãs” que nunca chegaram a cantar.

Muito gostaria que um dia a História assinalasse o dia 1 de outubro de 2017 como o do começo da gradual, mas irreversível extinção do PCP em Portugal. Se a sorte de Costa se prolongar e o PS continuar a ser por mais algum tempo “o que está a dar”, este anacronismo patético, este sinal do nosso atraso e pobreza que é a existência em Portugal de um partido comunista que paira num tempo mítico, alheado do tempo real em que o Mundo se desenrola, talvez nos vejamos livres da força política mais reacionária que, no mundo sindical e no que lhe resta da esfera autárquica, atrapalha, impede ou sabota as reformas que pudessem talvez abreviar a chegada de Portugal à História.

Por último, a cereja em cima do bolo: o Bloco, que em essência apenas se distingue do PCP pela maior juventude e pela extração social mais elevada da generalidade dos seus militantes e adeptos, não ganhou uma única câmara. O Bloco confirmou a sua natureza de partido essencialmente lisboeta, especialmente implantado no meio académico, intelectual e artístico, e mais geralmente nos meios da chamada “esquerda caviar”: gente mais “in”, que prefere suchi a febras de porco ou risotto de trufas a caldeirada de peixe.

PCP e Bloco são ambos antieuropeus, antieuro e acrisoladamente “soberanistas”. Em essência, são ambas ramagens de um mesmo e antiquíssimo tronco plantado em 1917, há, portanto, um século. E um século depois daquele ano prodigioso, nada mais têm para oferecer do que controle estatal da economia (“planificada”?), protecionismo, moeda nacional e isolamento num mundo irreversivelmente globalizado: são contra a globalização, como algumas pessoas são contra o vento ou contra a chuva! Mas os resultados eleitorais do dia 1 de outubro justificam alguma esperança: confirmam que António Costa meteu os acólitos no seu bolso, e será desastrosa qualquer das opções que lhes resta — ficar ou sair da Geringonça antes do fim da legislatura.

4. Finalmente, não posso deixar de mencionar o extraordinário sucesso de Assunção Cristas, que não só tornou Paulo Portas uma carta eleitoral dispensável como permite ao CDS, sem bazófias ou farroncas, perfilar-se no horizonte como alternativa de coligação para viabilizar um governo com maioria absoluta. Esta perspectiva sai reforçada pelo deserto de lideranças credíveis no PSD, uma vez que, como escreveu Maria João Avillez na noite das eleições, no Partido Socialdemocrata abundam ambições, mas não se vislumbra um só candidato à sucessão de Passos capaz de unir o partido – cuja primeira necessidade seria precisamente a união.

5. Tudo somado, nada ficou como dantes a partir da noite de 1 de outubro de 2017. Todos os partidos, uns perante escolhas mais excruciantes do que outros, vão ter de reorientar a sua estratégia, e nem todos têm opções boas. Também o PS. Mas não sobretudo o PS. Nem sobretudo o CDS, que “apenas” precisa de manter sobre os carris a locomotiva que Assunção Cristas pôs em movimento. Quanto a prognósticos, porém, só depois do jogo acabar. O ponto é que na vida, na política e na História, o jogo nunca fica acabado.
Título e Texto: Maria de Fátima Bonifácio, Observador, 2-10-2017

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