terça-feira, 3 de outubro de 2017

Sobre a “crise aberta no PSD”

Vitor Cunha

Aqui, que ninguém nos ouve, tenho a dizer que isto de ver facadas no PSD é um daqueles entretenimentos que cultivo com a morbidez característica dos há-muito desiludidos. Há muito, muito tempo, que o PSD não é bem um partido, é mais uma amálgama de inevitáveis adversários aos detentores oficiais do regime e que, por inerência da constitucional função de assegurar uma aura de pluralismo a este país onde Judas deixou as botas retidas num condomínio que impediu alojamento local, lá vai chegando ao poder para distribuir algum bem-estar pelos mais lestos a perceberem o funcionamento da coisa. A República 25 de Abril, aquela em que nasci, caracteriza-se por ser um daqueles regimes africanos com particular apetência para o teatro. É um regime de tal forma dotado de talento representativo que consegue convencer meia-ONU e os cinzentos distraídos de Bruxelas que até é uma democracia. Somos mesmo muito bons nisso: convencemos as pessoas de que podem escolher alguma coisa, elas vão lá voluntariamente (cada vez menos, é certo), e toda a gente fica convencida que escolheu mesmo alguma coisa. “Para a próxima és tu”, deverá dizer-se algures em corredores cheios de aspirantes à arte de representar sem cara de pau.

O regime é do PS. O dinheiro é do PS. O PS dá. Toda a gente sabe disso. O PSD existe porque um regime precisa de oposição para aparentar alguma seriedade.

De vez em quando, uns patuscos do PSD lembram-se da ideia do Bloco Central. Para quem não sabe, o Bloco Central é aquele arranjo que, quando possível, permite que toda a gente faça pela vidinha ao mesmo tempo em vez de ter que andar à espera das sobras de quem andou a fazer pela vidinha antes. Seria de supor que o Bloco Central geraria a situação mais favorável para a população: as coisas mantinham-se estáticas, não era preciso mudar os programas do Ministério da Educação de quatro em quatro anos, quem já tinha escolhido o BMW só tinha que o ir trocando pelo modelo superior e toda a gente poderia começar a viver uma vida tranquila sem ter que optar por um ou outro clube de forma tão tribalista. Porém, as coisas não são assim porque os recursos são limitados. De forma a que se possa esmifrar o mais possível no mais curto espaço de tempo, torna-se necessário que sejam poucos a simultaneamente fazer o mesmo. Por outro lado, é preciso culpar alguém quando as coisas correm mal — daí que seja conveniente para todas as partes ir aceitando o jogo da alternância.

Para se constituir um Bloco Central é necessária a colaboração do CDS. Para que aconteça, o CDS tem que fingir ser um partido de extrema-direita, extremamente conservador, beato, um cliché contrastante com o do típico comunista ateu da Dialética. Isso permite que a comunicação social identifique o PSD como estando à esquerda do CDS, a condição necessária para o PS poder “dar-se” com esse partido da oposição por definição. É que isto das coligações, em Portugal, só funciona com adjacentes. Ora, atualmente, o CDS sabe que não vem nada ao caso essa coisa do Bloco Central, vai daí, toca a posicionar-se ao lado do PS, impedindo a possibilidade dos patuscos se sentarem na cadeira do lado. É relativamente fácil de conseguir: já foi tratando a Direita (e “Direita” significa “aquele que está para lá do PS num dado momento”) por “fascista”, agora é mais ou menos da mesma maneira, adaptando apenas o léxico à contemporaneidade (“liberal”, “radical”, “extremista”, “racista”, “xenófobo”, “pessoa que não frequenta buracos de Formentera”,…)

Vai daí, não há ninguém para substituir Passos Coelho no PSD. O PS precisa que o PSD mantenha a etiqueta de extrema-direita que lhe colou, com a ajuda (ou sentido de oportunidade) do CDS. Não há ninguém para ocupar esse lugar ingrato. É por isso que, caso o PS venha a perder a maioria absoluta que lhe está destinada nas próximas legislativas, ganhando apenas as eleições (Costa é bastante aselha no que concerne a ganhar eleições — é mau ator), não será necessária nova Geringonça: o CDS, depois desta legislatura como partido adjacente, estará disposto a providenciar o apoio parlamentar necessário.

Quem tem fama precisa do proveito.

Para substituir Passos seria necessário alguém que abraçasse a etiqueta (ridícula, por sinal) de extrema-direita. Mais ninguém no PSD está disposto a isso — só se for parvo. E, para Bloco Central, tal nunca seria necessário: a cadeira do partido adjacente está ocupada por Assunção Cristas. Não é Passos que é um estorvo para o PSD: o PSD é que se está a tornar num estorvo para Passos Coelho.

Já agora, ouvi David Dinis na TSF, hoje, a dizer que está aberta uma crise no PSD. É mentira. A crise no PSD abriu-se na noite do dia 5 de junho de 2011.
Título e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 2-10-2017

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